Por LUIZ CÉSAR SILVA*
O livro Estado e Desenvolvimento: Perspectivas Contemporâneas Internacionais e Brasileiras – Volume II, organizado por Luiz César Silva e Thiago Ferreira Almeida, apresenta uma ampla e atualizada reflexão sobre as transformações contemporâneas que assinalam o debate global acerca do desenvolvimento econômico, da soberania estatal e das reconfigurações geopolíticas no século XXI. Reunindo pesquisadores PH.D de formações diversas e nacionalidades, o volume se afirma como uma referência essencial para entender a crise do paradigma neoliberal, o retorno do Estado como agente regulador e estratégico, e as novas disputas internacionais pelo domínio de tecnologias verdes, minerais críticos e cadeias produtivas globais.
A obra parte do diagnóstico central de que a ordem econômica criada no pós-Segunda Guerra Mundial, estruturada pelo tripé Bretton Woods, FMI e GATT/OMC, perpassa um processo de erosão acelerada, principalmente após a crise financeira de 2008, a pandemia de COVID-19 e a ascensão das economias emergentes, em especial a China e a Índia. Nesse cenário, o livro expõe que a globalização perde força enquanto fenômeno unificador e passa a dar lugar à fragmentação geoeconômica, à disputa por liderança tecnológica e ao uso estratégico do protecionismo como mecanismo político e de segurança nacional.
A Introdução, escrita pelos organizadores, estabelece as bases conceituais e históricas que norteiam os capítulos. O texto enfatiza que o neoliberalismo, ao reduzir o papel estatal e priorizar a liberalização comercial integral, produziu desequilíbrios sistêmicos que se tornaram insustentáveis após 2008 e novamente evidentes na pandemia. Paralelamente, a adoção de medidas protecionistas unilaterais pelos EUA, intensificadas em 2025 na administração Trump 2, que estabelece uma ruptura com o paradigma liberal que Washington historicamente sustentou durante três décadas. O livro situa esse processo como ponto de inflexão, alegando que o protecionismo estratégico, longe de ser anacrônico, ressurge como instrumento legítimo para o Sul Global fortalecer cadeias produtivas e promover desenvolvimento soberano.
O primeiro conjunto de capítulos, dedicado ao contexto internacional, investiga esse diagnóstico. No capítulo 1, Thiago Ferreira Almeida analisa a transformação do sistema econômico global a partir da ascensão chinesa e da resposta norte-americana, marcada pelo neoprotecionismo e pela militarização das políticas comerciais. O autor demonstra como os EUA passaram a instrumentalizar o conceito de “segurança nacional” para justificar tarifas elevadas, restrições tecnológicas e intervenções unilaterais na balança comercial com diversos países, inclusive o Brasil. A apreciação central aponta para o abuso jurídico de instrumentos como o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA), que distorce, em favor de interesses domésticos e partidários, dispositivos originalmente voltados a situações excepcionais. O capítulo revela um cenário de declínio da hegemonia norte-americana, acompanhado da emergência de uma ordem multipolar.
O capítulo 2, também liderado por Almeida em coautoria com Adriano Filipe da Silva Maia, debate os minerais críticos, lítio, níquel, terras raras, e sua relevância para as transições energética e digital. Os autores destacam o paradoxo contemporâneo: embora o Norte Global busque liderar a agenda verde, depende profundamente dos recursos naturais do Sul Global. Isso produz um rearranjo no poder de barganha das economias emergentes, especialmente no âmbito do BRICS+, que reúne grande parte das reservas desses minerais estratégicos. O capítulo destaca que essa vantagem pode ser transformada em motor de desenvolvimento autônomo, desde que acompanhada por políticas industriais, transferência tecnológica e alianças produtivas.
No capítulo 3, Alexandre Favaro Lucchesi examina a “nova corrida industrial” impulsionada pela Indústria 4.0 e pelas tecnologias verdes. O autor descreve um capitalismo em crise estrutural, trespassado por choques sanitários, ambientais e financeiros, e alerta que a América Latina corre o risco de permanecer prisioneira de um modelo primário-exportador, agora reconfigurado na forma de “commodities verdes”. Ainda assim, Lucchesi reconhece boas oportunidades para o Brasil, que poderia liderar a transição industrial regional através da inovação, diversificação produtiva e integração sul-americana. Trata-se de um capítulo que combina rigor teórico com análise prospectiva, trazendo contribuições relevantes ao debate sobre reindustrialização brasileira..
O capítulo 4, de Jacqueline Salmen Raffoul, muda o foco para os desafios digitais contemporâneos, analisando a tensão entre privacidade, vigilância tecnológica e soberania digital. A autora revela como o poder concentrado nas grandes corporações de dados ameaça direitos civis, ao mesmo tempo em que fragiliza sistemas de governança. O texto defende a construção de uma governança digital soberana, que proteja liberdades individuais sem impedir inovação, pauta urgente no atual cenário de economia de dados.
O capítulo 5, de Isabela Leão Moreira, Mariana Ferreira Bicalho e Stephanie Silva, aborda a consulta livre, prévia e informada prevista na Convenção 169 da OIT. As autoras mostram como a negligência histórica desse direito no Brasil gera conflitos socioambientais, deslocamentos forçados e violações a comunidades tradicionais. O capítulo sustenta que desenvolvimento sustentável exige participação popular e respeito sociocultural, tema que conecta direitos humanos à economia política do desenvolvimento.
Os capítulos seguintes analisam a realidade latino-americana e brasileira sob múltiplas perspectivas. Lucas Ferreira Lima, Miguel Ángel Torres Olivos, Larissa Steiner Chermont e Ballack Jensen Joseph examinam a relação entre crescimento econômico, mudança estrutural e meio ambiente na América Latina. Os autores alegam que superar a dependência histórica exige integrar ecologia e economia, mediante políticas industriais verdes, inovação tecnológica e redistribuição social.
Marcelo Monteiro aprofunda o estudo da economia brasileira ao discutir como o Estado se tornou mediador entre capital rentista e setor primário-exportador. Sua análise critica a desindustrialização e defende a reconstrução do projeto nacional de desenvolvimento, baseado em inovação e soberania tecnológica.
Na sequência, Jaime William de Andrade Charles aplica conceitos da economia comportamental para analisar como expectativas de mercado influenciam inflação, câmbio e juros no Brasil. O capítulo destaca que políticas públicas precisam observar o comportamento real dos agentes econômicos, e não apenas modelos teóricos.
Bruno Mota Lopes, no capítulo 9, discute a parceria sino-brasileira como oportunidade para reindustrialização. Ele mostra como a China, mediante planejamento estatal e investimento em inovação, oferece referências estratégicas ao Brasil — desde que a cooperação seja orientada ao fortalecimento da indústria nacional, e não à intensificação da dependência.
Luiz César Silva, em capítulo subsequente, aprofunda a análise do “modelo chinês”, assegurando que ele constitui paradigma alternativo ao liberalismo ocidental. O autor enfatiza a combinação chinesa entre planejamento, tecnologia e inserção seletiva no comércio global, apresentando-a como referência para o Sul Global.
Marcelo Balloti Monteiro e Luiz César Silva, no capítulo 11, retomam o tema do protecionismo e analisam a guerra comercial entre China e EUA como sintoma do declínio da globalização neoliberal. Os autores defendem que políticas protecionistas, amplamente utilizadas pelos países hoje desenvolvidos, podem servir como instrumento lícito para industrialização tardia.
No capítulo 12, Yuri Benner Presendo e Thiago Ferreira Almeida investigam o papel da China no agronegócio brasileiro. A pesquisa revela que, embora o investimento chinês dinamize o setor, também intensifica a dependência primário-exportadora e cria vulnerabilidades na soberania alimentar e tecnológica.
O livro encerra com um conjunto de análises sobre África e Ásia, incluindo o capítulo de Alexandre Favaro Lucchesi sobre integração econômica africana, e o capítulo final de Marcelo Monteiro e Thiago Ferreira Almeida, que discute a “maldição dos recursos naturais”. Este último retoma o tema das commodities e argumenta que a abundância de minerais críticos pode reforçar dependências, caso não seja acompanhada de políticas de industrialização e transição ecológica orientadas à inclusão social.
Em síntese, ovolume II de Estado e Desenvolvimento consolida-se como obra indispensável para compreender os dilemas e possibilidades da economia política contemporânea. Sua principal força reside na capacidade de reunir múltiplas perspectivas, jurídicas, econômicas, geopolíticas e sociais, para demonstrar que o desenvolvimento no século XXI exige um Estado ativo, capaz de formular políticas industriais, proteger setores estratégicos, planejar a inovação e promover justiça social.
O livro evidencia que o Sul Global possui momentos únicos na era das transições ecológica e digital, mas somente será capaz de aproveitá-los se romper com modelos dependentes e construir estratégias produtivas soberanas. Ao mesmo tempo, revela as contradições de um sistema internacional cada vez mais fragmentado, no qual grandes potências utilizam o protecionismo como arma econômica.
Trata-se, logo, de uma obra madura, consistente e extremamente atual, que contribui de forma significativa para o debate público e para a formulação de políticas de desenvolvimento. Sua publicação é oportuna e necessária, sobretudo em um momento em que o Brasil busca redefinir seu papel no mundo e reconstruir sua política industrial. Por fim, destacamos que o livro tem acesso gratuito pela editora Expert, conforme o link: https://experteditora.com.br/estado-e-desenvolvimento-perspectivas-contemporaneas-internacionais-e-brasileiras-vol-ii/ para todos os interessados.
*luiz césar silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.
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