Elei√ß√Ķes Municipais

Com a

Fique por dentro,
acesse agora!

√öltimas publica√ß√Ķes


Noticia

BRAS√ćLIA J√Ā: RIO GRANDE DO SUL: CRISE OU OPORTUNIDADE?
RED

As chuvas que destroem o Rio Grande do Sul com perda de vidas e uma trag√©dia nunca vista nas propor√ß√Ķes desta vez s√£o um sinal de alerta para governos e governantes pensarem a√ß√Ķes de prepara√ß√£o para crises clim√°ticas, mas tamb√©m imp√Ķem a necessidade deles gerirem com intelig√™ncia a atual crise humanit√°ria sem perder o foco de que s√£o gestores p√ļblicos. Um pol√≠tico eleito tem, por parte do seu eleitorado, a expectativa de que sabe cuidar da popula√ß√£o e criar a√ß√Ķes que melhorem a vida das pessoas onde eles governam. Neste momento de trag√©dia no Sul, o posicionamento do presidente Lula, do governador Eduardo Leite (RS) e dos prefeitos ga√ļchos pode leva los a crescerem politicamente ou acabar de vez com suas pretens√Ķes e carreiras pol√≠ticas. Tudo depende de como eles se posicionar√£o diante dessa crise, que pode virar uma oportunidade. As √ļltimas pesquisas de opini√£o p√ļblica demonstram queda na popularidade do presidente e descren√ßa da popula√ß√£o com rela√ß√£o aos pol√≠ticos. Como se posicionarem frente a popula√ß√£o ser√° vital para o futuro deles. Essa √© a an√°lise de hoje com Alexandre Jardim. Confira! Confira o v√≠deo https://youtu.be/7oisCtgFJUQ Voc√™ encontra o Bras√≠lia J√°, com Alexandre Jardim e Rudolfo Lago, de segunda a sexta-feira, √†s 12h, aqui no site e em todos os canais da RED. Foto: Valter Campanato/Ag√™ncia Brasil


Artigo

Por que temos que salvar a política?

Artigo

Por que temos que salvar a política?
RED

De ELIS RADMANN* Como pesquisadora que estuda o comportamento da sociedade, tenho visto se ampliar a descren√ßa e a nega√ß√£o da pol√≠tica. Esse fen√īmeno ocorre associado ao aumento do individualismo e da intoler√Ęncia, motivado pela influ√™ncia da tecnologia em nosso cotidiano. Tenho destacado o quanto a pol√≠tica √© fundamental para guiar nossa vida em sociedade. A pol√≠tica define as leis (o que podemos ou n√£o fazer) e define a gest√£o dos servi√ßos p√ļblicos (como ser√° o atendimento da sa√ļde, qual ser√° a forma utilizada para combater a viol√™ncia, se a educa√ß√£o ser√° a prioridade e at√© o que ser√° ensinado nas escolas). A pol√≠tica define o tamanho do Estado, de uma cidade e influ√™ncia nos rumos da economia. E tamb√©m √© a pol√≠tica que diz a quantidade de impostos e tributos que devemos pagar e o que ser√° feito com esse dinheiro. A pol√≠tica pode diminuir a tend√™ncia ao individualismo e ampliar o sentimento de comunidade. Com a pol√≠tica somos parte, somos inclusos, ela traz o sentimento de pertencimento. A pol√≠tica √© a arte do di√°logo, da negocia√ß√£o, da capacidade de transformar tese e ant√≠tese em uma s√≠ntese, de fazer com que o conjunto A e o conjunto B formem uma intersec√ß√£o. A pol√≠tica fomenta o estabelecimento de regras, a harmonia do conv√≠vio social e transforma moral em √©tica. A pol√≠tica √© respons√°vel pelo contrato social entre as pessoas, entre as institui√ß√Ķes e entre os governos. A pol√≠tica nos faz evoluir como seres humanos e sociais. Nos faz ver que precisamos uns dos outros, que o direito de um acaba quando come√ßa o do outro. A pol√≠tica nos ensina que somos diferentes e podemos pensar de forma diferente, mas temos que lidar com a diferen√ßa de forma respeitosa e fazer isso com toler√Ęncia e empatia. Com a pol√≠tica podemos transformar sonhos em realidade. Mas, para que a pol√≠tica seja tudo o que ela se prop√Ķe, temos que ter consci√™ncia de que o jeitinho brasileiro est√° impregnado em nossa cultura e que temos que fazer a nossa parte. Que n√£o adianta reclamar dos pol√≠ticos e continuar praticando o jeitinho ou ficar omisso diante de pessoas que praticam o jeitinho. Temos a miss√£o de salvar a pol√≠tica. Mas para salvar a pol√≠tica temos que ajudar a resgatar e ressignificar a pol√≠tica. E para fazer isso, temos que rever o nosso comportamento e o nosso envolvimento com a pol√≠tica. Se cada um de n√≥s fizer um pouquinho em prol do bem comum, estaremos salvando a pol√≠tica e o resultado dessa a√ß√£o ir√° repercutir e influenciar no comportamento e nas pr√°ticas dos partidos e dos pol√≠ticos. *Cientista social e pol√≠tica. Fundadora do IPO ‚Äď Instituto Pesquisas de Opini√£o. Conselheira da Associa√ß√£o Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opini√£o e M√≠dia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratiza√ß√£o e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execu√ß√£o da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

Artigo

Despedidas sem l√°grimas

Artigo

Despedidas sem l√°grimas
RED

De SOLON SALDANHA* Se torna muito mais f√°cil perceber porque a prefeitura n√£o estava nem a√≠ para a fiscaliza√ß√£o das condi√ß√Ķes da pousada que incendiou e de outras que contrata, quando se sabe o que houve nos vel√≥rios de quatro das v√≠timas fatais do inc√™ndio.¬†Nenhum familiar ou amigo compareceu.¬†Ap√≥s,¬†seus corpos desceram para as sepulturas acompanhados da mesma solid√£o e do mesmo descaso que tiveram em vida. Eles j√° n√£o existiam antes da sua morte. Eram ningu√©m, figuras descartadas pela sociedade. S√≥ mesmo o c√©u chorou, com a chuva que ca√≠a na tarde do s√°bado. Maribel Teresinha Padilha, Dionatan Cardoso da Rosa, Julcemar Carvalho Amador e Silv√©rio Roni Martin de seu tinham apenas os nomes, que cito aqui em rever√™ncia. E deles sobrou ao menos as impress√Ķes digitais, que puderam ser comparadas com c√≥pias de documentos que a Funda√ß√£o de Assist√™ncia Social e Cidadania (Fasc) guardava. Tamb√©m foi sepultado, mas com familiares presentes, Anderson Ga√ļna Corr√™a. Quanto aos outros cinco corpos, est√° sendo aguardada a realiza√ß√£o de exames de DNA ou de arcada dent√°ria para que sejam identificados. A psicologia reconhece a solid√£o como sendo uma condi√ß√£o associada √† dor e √† tristeza. Quem se sente s√≥ percebe em seu entorno e dentro de si um vazio, uma desimport√Ęncia, uma n√£o identidade. Pouco importa se a pessoa tem ou n√£o real desejo da companhia de outras, de pertencer. Isso porque n√£o carrega a impress√£o de que possa vivenciar isso. Acredita n√£o ter ou n√£o merecer essa oportunidade. J√° o abandono, esse vem de fora, ele √© externo ao indiv√≠duo. √Č a ren√ļncia consciente ou n√£o de terceiros ou da sociedade em rela√ß√£o ao indiv√≠duo. Trata-se de um desinteresse, uma invisibilidade. Assim como se o ‚Äúproblema‚ÄĚ n√£o visto deixasse de existir. O mundo contempor√Ęneo, organizado em torno da estrutura capitalista e da valoriza√ß√£o do consumo, n√£o reconhece como digno de viver aquele que n√£o √© produtivo. O que n√£o agrega aquilo que a sociedade considera importante s√≥ tem valor enquanto possibilidade de gerar ganho indireto para outros. Se n√£o est√° vendendo seu tempo, seu trabalho, que venda a sua presen√ßa, a sua exist√™ncia in√ļtil. Como ser um n√ļmero dentro de uma organiza√ß√£o que √© paga pelos poderes p√ļblicos, que o fazem como forma de parecer que se importam, que cuidam de todos de forma igual. O que vive na rua n√£o est√° sendo acolhido por ser humano, mas porque aplaca consci√™ncias e d√° lucro com apar√™ncia de honesto a quem nem parece ser. Essa foi a triste realidade pr√©via: ela antecedeu ao inc√™ndio e deve sobreviver a ele, t√£o logo nos esque√ßamos deste ‚Äúlament√°vel incidente‚ÄĚ. N√£o quero terminar sem reconhecer aqui a generosidade da Funer√°ria Angelus, na pessoa do seu diretor Ary Bortolotto, que fez os servi√ßos f√ļnebres gratuitamente, fornecendo os ata√ļdes e colocando sobre cada um deles coroa de flores com o nome da pessoa. Ou seja, nem isso foi a prefeitura municipal de Porto Alegre que custeou, apesar de todas as manifesta√ß√Ķes cheias de promessas feitas pelo prefeito Sebasti√£o Melo.¬†Sugiro ainda que a leitura continue mais abaixo, ap√≥s o b√īnus de hoje,¬†porque listei uma s√©rie de informa√ß√Ķes relevantes sobre o caso. O¬†b√īnus do autor √© a m√ļsica Lei da Vida, com a cantora e compositora paulistana Sabrina Lopes. https://www.youtube.com/watch?v=EUOabl_rLYg MAIS COISAS QUE PRECISAM SER DITAS: 1) ¬† Se a lei resultante da como√ß√£o p√≥s trag√©dia da Boate Kiss, em Santa Maria, n√£o tivesse sido ‚Äúflexibilizada‚ÄĚ pela a√ß√£o de parlamentares mais preocupados em atender demandas de empres√°rios, ao inv√©s da seguran√ßa da popula√ß√£o, a intensidade do inc√™ndio da Pousada Garoa teria sido muito menor. Ela previa a obrigatoriedade de a edifica√ß√£o ter hidrantes e revestimento adequado, para dificultar a propaga√ß√£o das chamas. 2) ¬† Mat√©ria da Matinal Jornalismo revela que o propriet√°rio da rede de pousadas Garoa, Andr√© Luis Kologeski da Silva, havia sido condenado em dois processos por estelionato. Foi por ter ludibriado pessoas com an√ļncios de aluguel de im√≥veis que n√£o eram de sua propriedade. Mas, ao que tudo indica, a prefeitura de Porto Alegre n√£o busca saber dos antecedentes das pessoas respons√°veis por empresas com as quais firma contratos milion√°rios. Ou sabe e n√£o se importa com isso. 3) ¬† Cezar Schirmer (MDB), que era prefeito de Santa Maria quando da trag√©dia da Boate Kiss, √© atualmente o Secret√°rio Municipal de Planejamento, na administra√ß√£o de Sebasti√£o Melo, seu companheiro de partido. 4) ¬† O jornal Boca de Rua, que √© feito por moradores em situa√ß√£o de rua na capital ga√ļcha, com o aux√≠lio de profissionais volunt√°rios, foi barrado e n√£o pode participar da coletiva de imprensa na qual a prefeitura procurava se explicar sobre o inc√™ndio. A publica√ß√£o j√° havia feito den√ļncias, no passado, contra a Pousada Garoa e as p√©ssimas condi√ß√Ķes do servi√ßo prestado. 5)¬†Uma estrat√©gia adotada pelo prefeito de Porto Alegre para afastar de si e dos seus secret√°rios a responsabilidade em rela√ß√£o ao inc√™ndio que teve dez v√≠timas fatais foi a de transferir para os Bombeiros ‚Äď e o governador Eduardo Leite, por tabela ‚Äď, alegando n√£o terem feito corretamente o seu trabalho. Mas, em momento algum falou sobre a falta das vistorias que deveria ter feito e que s√≥ agora come√ßar√£o. Conv√©m lembrar que o encaminhamento do PPCI feito em 2019 sequer informava que o local seria uma pousada. E tamb√©m que o processo n√£o teve continuidade por parte do solicitante. 6)¬†Quem acessa o site da Pousada Garoa se depara com imagens de quartos que, mesmo simples, s√£o limpos e bem mobiliados. Entretanto, a RBS TV entrou em endere√ßos da rede, com uma c√Ęmera escondida, revelando que a realidade √© bem outra. Em pens√£o que fica na Jos√© do Patroc√≠nio, no bairro Cidade Baixa, se viu em um quarto apenas um colch√£o apodrecido e um pequeno arm√°rio, bem velho. Segundo a reportagem, o cheiro era forte e desagrad√°vel. E havia lixo no corredor. 7)¬†Outro detalhe, esse em pousada na J√ļlio de Castilhos: n√£o havia sequer um √ļnico extintor de inc√™ndio, apesar de um suporte para a coloca√ß√£o do equipamento estar vis√≠vel. Ou seja, se as vistorias agora prometidas n√£o levarem a mudan√ßas profundas, outras trag√©dias anunciadas ir√£o se seguir, mais cedo ou mais tarde. *Jornalista e blogueiro. Apresentador do programa¬†Espa√ßo Plural ‚Äď Debates e Entrevistas, da RED. Texto publicado originalmente no Blog¬†Virtualidades. Imagem: reprodu√ß√£o. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

Artigo

O artigo de Frei Betto e as gera√ß√Ķes com sinais trocados

Artigo

O artigo de Frei Betto e as gera√ß√Ķes com sinais trocados
RED

De RUD√Ā RICCI* H√° poucos dias, Frei Betto escreveu um artigo intitulado ‚ÄúCabelos brancos‚ÄĚ em que citava, quase em tom de alerta, um encontro nacional de F√© e Pol√≠tica realizado em BH em que apenas 30% tinham cabelos escuros. O restante, perto das faixas de idade dele (perto dos 80 anos) e da minha (acima de 60). O artigo assume a fun√ß√£o de para-raio e sintetiza o que tantos engajados de minha gera√ß√£o v√™m se queixando: envelhecemos, o que parece normal, mas, conosco, envelheceu o engajamento pela mudan√ßa social, pela justi√ßa social, pela ousadia pol√≠tica, pela solidariedade. Viceja pela sociedade o hiperindividualismo, a proje√ß√£o do sucesso individual e certo desencanto com a aventura humana. Resolvi comentar o artigo n√£o para fazer coro ao seu conceito, mas para problematiz√°-lo. O primeiro obst√°culo que gostaria de saltar √© sobre as novas gera√ß√Ķes. Vou destacar dois aspectos, dentre tantos. N√£o se trata de juventude, mas de juventudes, no plural. S√£o tribos, coletivos e comunidades virtuais que professam de tudo, at√© mesmo os hikikomoris japoneses que n√£o saem de seu quarto e se fecham em grutas urbanas. Temos os identit√°rios que, n√£o sabem, mas professam individualismos e conservadorismos porque, a despeito da agressividade na defesa de seu direito de fala e exist√™ncia, n√£o se projetam em discursos solid√°rios, n√£o falam sobre o mundo, sobre pol√≠tica econ√īmica, sobre muitos outros assuntos que n√£o sejam de seu interesse grupal exclusivo. Podemos pin√ßar, dentre tantas juventudes, a Gera√ß√£o Z, t√£o comentada atualmente. Ela pode ser a l√Ęmina a ser examinada no nosso microsc√≥pio. Esta gera√ß√£o nasceu a partir de 1995 e se forjou a partir das redes sociais e m√ļltiplos aplicativos, de maneira que possuem uma vida dupla, entre o mundo concreto, offline, e o mundo virtual, online. Alguns autores sugerem que n√£o possuem uma vis√£o sequencial do tempo, mas tempos sobrepostos. S√£o pragm√°ticos e pr√°ticos, tolerantes em rela√ß√£o √†s diferentes formas de viver e se apresentar, ativistas de coletivos e causas gerais, avessos a r√≥tulos, adeptos da acessibilidade e simplicidade. O estranho para minha gera√ß√£o √© que esta fica alheia ao ambiente e √†s rela√ß√Ķes interpessoais de primeira hora, se fechando no teclado do celular por horas. Aqui aparece uma disson√Ęncia cognitiva, entre o que pensa e projeto e o que realmente faz. Projeta um mundo melhor e participa√ß√£o em pautas de lutas por direitos ‚Äď incluindo os dos animais -, mas vive fechado no mundo das comunidades virtuais. Uma maneira de socializa√ß√£o profundamente distinta das de Frei Betto e da minha. H√°, ainda, a deriva√ß√£o desta gera√ß√£o para a altamente sexualizada, como a dos funkeiros: coloridos, exuberantes, agressivas e quase debochadas, que operam nas redes sociais e se expressam pela m√ļsica, sensualizando e se apresentando por inteiro, nas confus√Ķes e insufici√™ncias. Esta √© a gera√ß√£o de Anitta, uma das personalidades mais ousadas e inventivas desta subcultura juvenil. Em meio a esta explos√£o de juventudes peculiares, emerge a dos jovens conservadores e reacion√°rios. N√£o t√£o conservadores, mas que s√£o vistos pela minha gera√ß√£o como tal. Comecemos pelos jovens aparentemente conservadores. A revista evang√©lica americana Relevant divulgou uma reportagem apontando que muitos evang√©licos solteiros mant√™m rela√ß√Ķes sexuais antes do casamento com a mesma frequ√™ncia que os jovens n√£o-crist√£os: 80% dos solteiros evang√©licos entre 18 e 29 anos afirmaram que j√° tiveram rela√ß√Ķes sexuais, quase o mesmo percentual que os 88% de solteiros adultos n√£o evang√©licos. H√° igrejas e vertentes evang√©licas que envolvem jovens com comportamentos e vestimentas pouco conservadoras. No caso dos jovens reacion√°rios, o cen√°rio √© ainda mais dissonante. N√£o apresentam, evidentemente, semblantes pacatos e recatados. Gritam, estrebucham, e agridem beirando o sadismo, como fazem os jovens do MBL. Mas, h√° casos ainda mais instigantes, como os de Carluxo e Nikolas Ferreira. Sabemos de suas aventuras sexuais at√© mesmo retratados em fotos. O olhar dos dois tem algo provocador e sexualizado. Parecem professar o n√£o bin√°rio, tons n√£o muito definidos de sua vida √≠ntima, algo de misterioso e histri√īnico. Se falam algo que tateie o ide√°rio conservador, seu semblante e sua hist√≥ria apontam para outra dire√ß√£o. Carluxo, nas redes sociais, estimulava o mist√©rio. No primeiro Carnaval brasileiro sob o dom√≠nio do governo Jair Bolsonaro, ocorreu a postagem nas redes sociais, atribu√≠da √† Carluxo, de um v√≠deo exibindo um Golden Shower. Adota uma postura ‚Äúgoy‚ÄĚ, homens que n√£o se identificam com a homossexualidade e a bissexualidade, mas que tamb√©m n√£o se identificam com a heterossexualidade. Este lusco-fusco e alta pluralidade de ide√°rios e comportamentos jovens confundem as gera√ß√Ķes mais velhas e n√£o se alinham com padr√Ķes pr√©-estabelecidos. Ali√°s, o que dizer dos mais velhos? Novamente, o plural para nos descrever. Se temos idosos progressistas, subproduto da revolu√ß√£o sexual e cubana, temos os idosos destro√ßados pelo t√©dio, pregados em seus porta-comprimidos ou √† espera de alguma aventura tresloucada como a de 8 de janeiro. Mas, para n√£o fazer novo p√©riplo √† pluralidade de uma gera√ß√£o, vou destacar a dos progressistas. E, aqui, destaco um √≠cone quando jovem: Z√© Dirceu. Z√© foi um l√≠der dos estudantes universit√°rios. At√© hoje, desperta suspiros de mulheres que vivenciaram aqueles dias de passeatas e palavras de ordem em pra√ßas p√ļblicas e avenidas. Cabelos compridos, alto, discursos explosivos e seguros, transpirava um ‚Äúsex appeal‚ÄĚ que causava invejas e ressentimentos. Pois bem, nos √ļltimos meses, Z√© Dirceu assumiu o papel de cavaleiro do anti-cl√≠max. Repreendeu publicamente o diret√≥rio nacional de seu partido e Gleisi Hoffman por terem criticado a pol√≠tica econ√īmica do governo federal. Exigiu que se alinhassem ao governo e apoiassem o ministro Haddad sob pena de... n√£o ficou muito claro o que a rebeldia petista poderia provocar de estrago. Ora, esta fala de Z√© Dirceu √© exatamente o inverso do que o PT propunha quando foi criado. A palavra central do petismo era autonomia. Autonomia dos movimentos sociais frente aos comandos pol√≠ticos centrais, autonomia dos filiados frente √†s delibera√ß√Ķes dos parlamentares do pr√≥prio partido, autonomia para viver. Autonomia √© palavra central do m√©todo Paulo Freire que sugere que temos que assumir nossos atos com consci√™ncia. No caso, a consci√™ncia √© uma leitura de nossa fun√ß√£o e papel num coletivo ou num projeto. N√£o √© liberdade individual absoluta, mas minha vis√£o do que devo ser no todo, sem me subordinar. Foram tantos petistas que trataram disso nas origens do PT, de Eder Sader √† Marilena Chau√≠. A fala de Z√© Dirceu se choca e demole este ide√°rio libert√°rio do petismo original. Numa fala subsequente, disse que a conjuntura atual imp√Ķe um governo lulista de centro-direita. Pouco importa se tentou corrigir o que disse. O fato √© que sua fala √© coerente com sua fase anti-cl√≠max, mais pr√≥ximo do ch√° de camomila que de ingredientes excitantes. Se o PT, quando criado, seguisse este ide√°rio radical do pragmatismo, n√£o teria futuro. O petismo empurrou a correla√ß√£o de for√ßas durante duas d√©cadas. Ousou ousar e a destilar autonomias. E venceu. Z√© Dirceu retoma as teses do Partid√£o das d√©cadas de 1950 e 1960, do etapismo e alian√ßas preferenciais com a burguesia. Houve resist√™ncias de lideran√ßas regionais e da base comunista que organizaram greves e estruturas descentralizadas. Mas o enfrentamento com as dire√ß√Ķes centrais foi constante. Enfim, o que sugiro √© que Z√© Dirceu est√° sendo um n√≠tido representante das cabe√ßas brancas citadas no artigo de Frei Betto: recuadas, castradoras, envelhecidas, com lampejos da energia e frescor de tempos atr√°s, mas que sugerem a passividade e o conformismo. √Č fato que, como h√° juventudes, h√° idosos distintos e √© justamente essa pluralidade que faz o mundo girar. Nem sempre conseguem se expressar e convencer rapidamente. Mas, est√£o l√°. A vida est√° na ousadia, n√£o no conformismo. O artigo de Frei Betto, afinal, prop√Ķe a vida. *Doutor em Ci√™ncias Sociais e Presidente do Instituto Cultiva em Minas Gerais. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

Artigo

DAD – Teatro em Porto Alegre

Artigo

DAD – Teatro em Porto Alegre
RED

De ADELI SELL* J√° tinha lido coisas boas sobre o nosso Theatro S√£o Pedro. Tamb√©m li sobre os prim√≥rdios de outras casas de espet√°culos. Mas nunca tinha me deparado com um escrito sobre o DAD - Departamento de Arte Dram√°tica da UFRGS. Como aluno do Curso de Letras fiz uma disciplina optativa naquele prediozinho ali da Avenida Salgado Filho. Eis que o Vin√≠cius C√°urio me alcan√ßa generosamente o livro de Juliana Wolkmer, ‚ÄúDAD Hist√≥ria e Mem√≥ria‚ÄĚ. Uma edi√ß√£o da Libretos, gra√ßas ao Fundo Pr√≥-cultura estadual. Na contracapa leio o que √© a ess√™ncia do elogi√°vel escrito:¬† "Existe um tempo no DAD - Departamento de Arte Dram√°tica da UFRGS que √© um tempo diferente. Um tempo de descobertas, acertos, erros, sonhos e desejos de revolucionar a si e ao mundo atrav√©s da arte. Neste livro, a trajet√≥ria da segunda escola universit√°ria de teatro do Brasil, fundada em 1957, √© revelada por meio de fragmentos e narrativas. √Č a hist√≥ria do DAD. √Č a hist√≥ria do teatro ga√ļcho." E a autora dedica o livro, pesquisa profunda, √†s personagens, protagonistas e coadjuvantes, que ocuparam os palcos e os bastidores dos mais diversos epis√≥dios desta hist√≥ria. Pelo seu relato temos conhecimento de todos os seus professores e v√°rios ex-alunos que tudo fizeram para manter este espa√ßo de arte, contra a falta de recursos, de espa√ßos, incompreens√Ķes e contra a ditadura. Esta ditadura que cassou professores, mentes brilhantes como foi o caso do pensador √≠mpar, Gerd Bornheim. Por ali passaram e fizeram hist√≥ria pessoas dos meus tempos em Porto Alegre que admirei e admiro, como Ivete Brandalise, Sandra Dani, Luiz Paulo Vasconcelos, s√≥ para n√£o me alongar. Mirna Spritzer, nossa atriz t√£o conhecida, nos d√° a gra√ßa de apresentar o livro como "um lugar, uma casa, uma escola". Isto mesmo. E ela sarcasticamente nos lembra que "os banheiros nunca tiveram indica√ß√£o de sexo". Juliana nos conduz atrav√©s do Curso de Arte Dram√°tica, um sonho coletivo. Descreve a epopeia dos primeiros anos, onde aparecem nomes que acabaram frequentando a cena nacional, para muitos um per√≠odo pouco conhecido certamente. Quando passa aos Anos 60, ela nos apresenta uma escola de teatro que vive entre arte e pol√≠tica, pois n√£o poderia ser diferente: havia repress√£o e ditadura, como pelo mundo havia mudan√ßas culturais, rebeli√Ķes de costumes e na pol√≠tica. Fala dos papeis de professores, como o diretor Lothar Hessel, que conheci mais tarde no Instituto de Letras, como fala de Gerd, a quem nos anos 70 entre n√≥s era lembrado com rever√™ncia, um revolucion√°rio em todos os sentidos. Aparece entre tantas coisas a luta de Ivo Bender pela cena teatral contra o desd√©m dos governos. Quando chega aos anos 70, apresenta-nos o "resistir para existir", como fora no DAD e nos cursos da UFRGS em geral, mas o DAD sempre como vanguarda. Aparecem o improviso, o imprevisto, o faz tudo para sobreviver. Ao nos falar dos anos 1980 e 1990 apresenta "novas conquistas". H√° uma lembran√ßa de enfrentamento √† Brigada Militar em 1995 que, √†s vezes, se esquece da viol√™ncia policial depois da "democratiza√ß√£o". Quando adentramos o s√©culo XXI v√™m as "transforma√ß√Ķes e desafios". Lembra o aumento de vagas depois da entrada do governo Lula, a Lei das Cotas, com a presen√ßa de pretos/as t√£o raros no passado nos palcos. Nada passa despercebido pela autora, colocando as cenas pret√©ritas e mais recentes nas p√°ginas deste livro de mem√≥rias: luta pelo Centro Acad√™mico no passado, os protestos mais recentes contra a morte de Mariele Franco. Tem tantas coisas marcantes contadas e recontadas em suas quase 170 p√°ginas, por isso deixo um apelo que √© mais do que um convite pela leitura. √Č necess√°rio destacar que a coordena√ß√£o geral da publica√ß√£o foi feita pelo Vin√≠cius C√°urio e a produ√ß√£o executiva por Reissoli Moreira, duas figuras marcantes de nossa cena cultural, tendo a minha maior admira√ß√£o.¬†E lendo o livro acabo de virar f√£ da autora, Juliana Wolkmer. *Professor, escritor, bacharel em Direito, vereador em Porto Alegre. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

Artigo

A gest√£o p√ļblica √© respons√°vel pelas mortes

Artigo

A gest√£o p√ļblica √© respons√°vel pelas mortes
RED

De SOLON SALDANHA* A atual administra√ß√£o p√ļblica de Porto Alegre tem se mostrado not√≥ria em termos de descasos. O prefeito Sebasti√£o Melo governa para alguns privilegiados e n√£o para a totalidade da popula√ß√£o. Isso tem trazido uma s√©rie de problemas, mas agora ele parece ter se superado. Por absoluta neglig√™ncia e incompet√™ncia da sua gest√£o, contribuiu de forma direta para que dez pessoas morressem carbonizadas e pelos menos outras 15 resultassem feridas, algumas em estado grave. Evidente que o abandono se deu com pessoas desassistidas, todas pobres e a maioria negra, que estavam jogadas dentro de uma pousada sem as menores condi√ß√Ķes de seguran√ßa e habitabilidade, com ‚Äúestadia‚ÄĚ paga pelo governo municipal. Para se ter uma no√ß√£o m√≠nima do absurdo, o pr√©dio de quatro pisos era de alvenaria, mas com divis√≥rias de madeira, feitas de modo a ampliar sua capacidade. Alguns dos quartos sequer tinham janelas. Uma √ļnica porta dava acesso ao local, n√£o se sabe se existiam extintores de inc√™ndio, n√£o havia sa√≠das de emerg√™ncia e sinaliza√ß√£o adequada. O que n√£o surpreende, porque a irregularidade era inclusive documental. No ano de 2019 o propriet√°rio encaminhou um PPCI, sigla de Plano de Preven√ß√£o e Prote√ß√£o Contra Inc√™ndios, informando que seriam instalados escrit√≥rios. Al√©m de ter mentido sobre o objetivo real, ele n√£o deu continuidade ao processo e a vistoria t√©cnica a ser feita pelo Corpo de Bombeiros jamais foi realizada. A bem da verdade existia sim uma certid√£o municipal que dispensava o alvar√° de funcionamento, que n√£o se entende porque deveria ter sido emitida. Moradores sobreviventes e vizinhos informam que o pr√©dio era tomado por baratas e ratos, n√£o tendo tamb√©m condi√ß√Ķes m√≠nimas de higiene. Em 2022 uma outra unidade da mesma Pousada Garoa j√° havia sofrido inc√™ndio. Naquela ocasi√£o morreu uma pessoa e mais de uma dezena de outras resultaram feridas. Mas, nenhuma provid√™ncia foi tomada, apesar desse ‚Äúalerta‚ÄĚ. O contrato prosseguiu vigente, o Servi√ßo Social da prefeitura seguiu encaminhando pessoas para a rede ‚Äď informa√ß√Ķes desencontradas come√ßaram falando que eram oito unidades em Porto Alegre, dando conta agora de que chegam a 21 ‚Äď e continuaram sem fazer vistorias ou as fizeram de forma meramente formal. Quem ser√° o propriet√°rio? Algu√©m duvida que ele seja ‚Äúmuito bem relacionado‚ÄĚ? Com certeza ele recebe em dia o pagamento autorizado por Melo. S√£o 320 as vagas contratadas, o que garantia at√© o ano passado um repasse de R$ 3 milh√Ķes, em recursos p√ļblicos. O contrato foi renovado em dezembro de 2023, com o valor reduzido para R$ 2,7 milh√Ķes. At√© a metade da tarde n√£o se tinha informa√ß√Ķes sobre a identidade das v√≠timas. O que permite que se questione sobre existirem ou n√£o com controle efetivo sobre o uso do local. Onde est√£o os registros que deveriam existir, as inscri√ß√Ķes para acesso? Essas pessoas s√£o todas ningu√©m, n√£o t√™m sobrenomes com os quais as autoridades gostam de conviver ou precisem se preocupar. S√£o pessoas invisibilizadas, exclu√≠das e privadas do acesso ao direito de uma vida digna pelos ‚Äúhomens de bem‚ÄĚ que n√≥s cometemos a impropriedade de permitir serem eleitos. Em entrevista o prefeito Sebasti√£o Melo conseguiu a proeza de afirmar que o que consta em documentos nem sempre √© o que ocorre na pr√°tica. Como se n√£o fosse responsabilidade sua e de sua equipe trabalhar com aten√ß√£o √†s leis, regulamentos e protocolos. N√£o por nada foi vaiado por populares ao comparecer na Avenida Farrapos, local da trag√©dia. Isso certamente n√£o acontece em outros locais, onde autoriza a constru√ß√£o de pr√©dios que descaracterizam a identidade arquitet√īnica da cidade, atendendo apenas interesses financeiros de grandes construtoras, com as quais tem afinidade crescente. A apura√ß√£o da per√≠cia sobre as causas do inc√™ndio desta madrugada ir√° demorar. O que se pode afirmar desde agora √© que Melo s√≥ n√£o tem sangue nas m√£os porque as mortes n√£o causaram a sua perda: intoxica√ß√£o pela fuma√ßa e carboniza√ß√£o pelo fogo foram a¬†causa mortis¬†de todas as v√≠timas. Talvez ele agrade√ßa pelo fato de o sinistro n√£o ter ocorrido no final de setembro, mas agora quando ainda temos cinco meses nos separando das elei√ß√Ķes nas quais ele busca ser reeleito. O b√īnus musical do autor √© Tears in Heaven¬†(L√°grimas no Para√≠so), de Eric Clapton. https://www.youtube.com/watch?v=kMvLoYW100Q&t=2s *Jornalista e blogueiro. Apresentador do programa¬†Espa√ßo Plural ‚Äď Debates e Entrevistas, da RED. Texto publicado originalmente no Blog¬†Virtualidades. Imagem: reprodu√ß√£o. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

Artigo

O fetiche da produtividade

Artigo

O fetiche da produtividade
RED

De CARLOS √ĀGUEDO PAIVA* e ALLAN LEMOS ROCHA** (Parte 3 da s√©rie "A triste e comovente hist√≥ria da desindustrializa√ß√£o brasileira e sua pol√≠tica cambial desalmada") Verde que te quero verde. Verde vento, verdes ramas. Verde Carne, tran√ßas verdes. Sob a lua cigana, as coisas a est√£o mirando. Mas ela n√£o.¬† Gabriel Garcia Lorca Introdu√ß√£o: para a cr√≠tica da cr√≠tica Uma express√£o corrente entre economistas √© de que, h√° muitos anos, a economia brasileira vem ‚Äúcrescendo de lado‚ÄĚ; vale dizer, em vez de ir para a frente, se move na linha ‚Äúdois pr√° l√°, dois pr√° c√°‚ÄĚ. E quase n√£o sai do lugar. Entre 2015 e 2022, a taxa acumulada de crescimento do PIB foi de meros 1,65%, com tr√™s anos de contra√ß√£o: 2015 (-3,5%), 2016 (-3,3%) e 2020 (-3,3%). Mas desde a introdu√ß√£o do Plano Real a taxa de crescimento da economia nacional est√° abaixo de sua m√©dia hist√≥rica. Nos 25 anos entre 1970 e 1994 (inclusive), a economia brasileira cresceu 229,5%, com uma m√©dia anual de 4,89%. Nos 28 anos entre o in√≠cio do primeiro mandato de FHC e o t√©rmino do mandato de Bolsonaro, a economia cresceu 85,57%, com uma m√©dia anual de 2,23%. Esta performance m√©dia √© t√£o ruim que alcan√ßa ser inferior √† performance m√©dia dos anos 80, conhecida como a ‚Äúd√©cada perdida‚ÄĚ, marcada pela crise da d√≠vida e da hiperinfla√ß√£o. Apesar dos tr√™s anos de queda do PIB - 1981 (-4,25%); 1983 (-2,93%) e 1988 (-0,06%) ‚Äď, o crescimento acumulado na d√©cada foi de 33,47% e a m√©dia anual foi de 2,93%. Uma taxa superior √† m√©dia dos anos p√≥s-Real.¬† In√ļmeros analistas do campo desenvolvimentista atribuem nossa m√° performance recente a tr√™s fatores: 1) gest√£o macroecon√īmica ortodoxa, associada √† prioriza√ß√£o do controle inflacion√°rio sobre o desenvolvimento; 2) subordina√ß√£o ao rentismo, associado √† opera√ß√£o com taxas de juros cronicamente elevadas; 3) queda da taxa de investimento como percentagem do PIB e estagna√ß√£o da produtividade. Do nosso ponto de vista, esta explica√ß√£o fica no n√≠vel da apar√™ncia; n√£o √© capaz de resgatar a ess√™ncia complexa do processo que estamos vivendo.¬† Tomemos a primeira dimens√£o da cr√≠tica, sobre a pretensa unidade da gest√£o macroecon√īmica. N√≥s mesmos, n√£o conseguimos ver unidade sequer nas administra√ß√Ķes petistas. Vemos enorme dist√Ęncia entre Palocci, Mantega, Levy, Barbosa e Haddad. Se nos permitem uma analogia h√≠drica, Palocci nos p√īs na √°gua gelada, Mantega nos p√īs em sauna escaldante, Levy nos enterrou num iceberg, Barbosa retornou √† √°gua gelada e Haddad nos p√īs numa piscina cujo teto m√≥vel pode nos obrigar a submergir a qualquer momento. Isso para n√£o falar da dist√Ęncia entre as pol√≠ticas de desmonte do Estado de FHC e as tentativas de resgate e empoderamento das empresas p√ļblicas dos governos do PT. Ou da dist√Ęncia entre a pol√≠tica de c√Ęmbio (quase) fixo de Gustavo Franco e os malabarismos das taxas de juros e c√Ęmbio de Roberto Campos Neto.¬† Ali√°s, os cr√≠ticos das pol√≠ticas econ√īmicas ortodoxas comuns a todos os governos desde FHC nos devem uma explica√ß√£o crucial. Se, de fato, os 28 √ļltimos anos perfazem uma unidade em termos de pol√≠tica econ√īmica, de que serviu o golpe de 2016, a farsa da Lava-Jato e a pris√£o de Lula? Ter√≠amos de reduzir a disputa pol√≠tica a uma esp√©cie de guerra de fac√ß√Ķes, onde o que est√° em disputa n√£o √© ‚Äúo que fazer?‚ÄĚ, mas, t√£o somente, ‚Äúquem far√° e quem se beneficiar√° ao fazer o mesmo?‚ÄĚ. Ora, at√© podemos admitir (na esteira de Raymundo Faoro e de Florestan Fernandes) que existe uma dimens√£o real de continuidade nas pol√≠ticas p√ļblicas derivadas do sequestro de parte do Estado por estamentos burocr√°ticos (tais como o Judici√°rio, o Minist√©rio P√ļblico, as For√ßas Armadas, e os Partidos do camale√īnico Centr√£o) que se locupletam com sal√°rios astron√īmicos enquanto trabalham pela preserva√ß√£o da estratifica√ß√£o social que beneficia a elite econ√īmico-financeira nacional. Mas isto n√£o faz das disputas pol√≠tico-eleitorais para os cargos executivos uma farsa. Muito antes pelo contr√°rio. Este √© o √ļnico espa√ßo pelo qual o povo pode expressar seu descontentamento com a ordem. E o faz, h√° anos, com uma sagacidade pol√≠tica √≠mpar, elegendo (a despeito da m√≠dia) figuras como Vargas, Goulart, Lula e Dilma, que s√≥ saem do poder executivo atrav√©s de golpes e lawfare.¬† A cr√≠tica heterodoxa corrente d√° um passo adiante quando traz, como ponto comum aos √ļltimos anos, a quest√£o da subordina√ß√£o ao rentismo. Por√©m, usualmente o faz de uma forma superficial, sem enfrentar as determina√ß√Ķes materiais e estruturais da preserva√ß√£o da pol√≠tica de juros cronicamente elevados. √Č como se enfrentar o rentismo fosse uma mera quest√£o de ‚Äúvontade pol√≠tica‚ÄĚ. Afinal ‚Äď argumentam os cr√≠ticos ‚Äď juros elevados n√£o sufocam apenas o Estado: deprimem a rentabilidade l√≠quida das empresas, a taxa de acumula√ß√£o produtiva, o desenvolvimento nacional, o n√≠vel do emprego, o acesso ao cr√©dito por parte da classe m√©dia, etc. A lista dos prejudicados √© t√£o longa que esgotar√≠amos o espa√ßo do texto apenas com ela. O que se quer demonstrar com tal listagem? Que seria poss√≠vel angariar apoio para o enfrentamento das taxas de juros elevadas se os governos efetivamente se comprometessem com isso. Ledo engano.¬† O primeiro elemento que tais cr√≠ticos n√£o entendem √© que, desde a Constitui√ß√£o Cidad√£ de 1988, o processo de indica√ß√£o do Presidente do Banco Central √© o mesmo do Supremo Tribunal Federal: o Presidente da Rep√ļblica indica um nome. Mas quem o aprova √© o Senado. Ouvindo o povo, claro. Outro nome dado, pelos senadores, √† Federa√ß√£o dos Bancos do Brasil (Febraban). Vale dizer: a condu√ß√£o da pol√≠tica monet√°ria, h√° muitos anos, n√£o se encontra mais sob controle estrito do Executivo. E esta √© apenas a ponta do enorme iceberg.¬† Outro elemento que passa despercebido por aqueles que criticam a toler√Ęncia do Executivo com o rentismo √© que as taxas de juros elevadas beneficiam, sim, parcelas muito expressivas da sociedade. A come√ßar, pelos trabalhadores. Por mais surpreendente que isso possa ser e parecer.¬† Desde o Plano Real, controla-se a infla√ß√£o no Brasil atrav√©s do impacto dos juros (cronicamente elevados) sobre a taxa de c√Ęmbio¬Ļ. E o controle da infla√ß√£o foi (e ainda √©) considerada pelo conjunto da popula√ß√£o como a maior conquista da economia brasileira dos anos p√≥s-ditadura. Uma conquista saudada, em primeiro lugar, pela classe trabalhadora, que sofreu uma das maiores perdas de participa√ß√£o na renda da hist√≥ria do pa√≠s nos anos de hiperinfla√ß√£o. Ao longo dos anos 80 e na primeira metade dos anos 90, o principal aprendizado da popula√ß√£o de baixa renda foi que a ‚Äúcorre√ß√£o monet√°ria que beneficiavas os Franciscos, s√≥ chegava nos Chicos (quando chegava) com grande atraso e a taxas muito inferiores‚ÄĚ. O impacto redistributivo da hiperinfla√ß√£o foi t√£o grande que se manifestou nos resultados algo surpreendentes das elei√ß√Ķes para a Presid√™ncia de 1989. O recha√ßo a todas os partidos pol√≠ticos e candidatos associados, de alguma forma, seja com a ditadura (Maluf, pelo PDS; Caiado, pelo PSD; Afif Domingos, pelo PL; Camargo, pelo PTB; Aureliano Chaves, pelo PFL), seja com o governo Sarney (Ulisses, pelo PMDB; Covas, pelo PSDB), seja com a ‚Äúvelha pol√≠tica‚ÄĚ (Roberto Freire, pelo PCB; Brizola, pelo PDT), foi tamanha que o segundo turno veio a ser disputado por dois candidatos que se apresentavam como outsiders e eram percebidos como tal: Lula, do PT e Collor, do PRN. E para impedir a vit√≥ria do inexperiente Lula, a grande imprensa teve que trabalhar muito. Muito mais do que gostariam.¬† O que a elite entendeu perfeitamente √© que s√≥ se poderia impedir a elei√ß√£o de Lula em 1994 se a hiperinfla√ß√£o fosse eliminada atrav√©s de um programa consistente e cr√≠vel. Apesar dos preju√≠zos que o fim da hiperinfla√ß√£o traria aos bancos, viciados, h√° anos, nos ganhos derivados dos distintos padr√Ķes de corre√ß√£o monet√°ria concedidos a Chicos e a Franciscos. A decis√£o de entregar alguns an√©is para garantir a preserva√ß√£o dos dedos, deu duas elei√ß√Ķes a FHC. Que soube utilizar seus dois mandatos para esvaziar o Estado (via privatiza√ß√Ķes) e deprimir ao limite do poss√≠vel sua liberdade de disp√™ndio (via Lei de Responsabilidade Fiscal e acordos com o FMI) para receber o PT, visitante indesejado, mas inevit√°vel. Mas Lula s√≥ alcan√ßa se eleger ap√≥s declarar, na Carta aos Brasileiros, que preservaria o Plano Real e as demais iniciativas de ‚Äúamenorzamento‚ÄĚ do Estado institu√≠das por FHC. Por que o fez? Porque manter a infla√ß√£o sob controle era condi√ß√£o sine qua non da aprova√ß√£o de sua candidatura pelo conjunto da popula√ß√£o. N√£o apenas pelos banqueiros. Na verdade, acima de tudo pelos trabalhadores. E por suas lideran√ßas sindicais. Quando a infla√ß√£o interna √© controlada pela exposi√ß√£o competitiva associada √† valoriza√ß√£o do real frente ao d√≥lar, a luta dos sindicatos por eleva√ß√£o dos sal√°rios nominais ganha efic√°cia e efetividade. Pois os patr√Ķes n√£o podem mais repassar integralmente os custos ampliados para os pre√ßos, sob pena de retalia√ß√£o do Banco Central.¬†¬† Mas n√£o √© s√≥ a classe trabalhadora que ganha com o controle da infla√ß√£o (via juros elevados e real sobrevalorizada). Esta pol√≠tica monet√°ria contempla os interesses dos mais diversos estratos do ‚Äúandar de cima‚ÄĚ. Para a classe m√©dia, viajar para o exterior tornou-se muito mais barato. Para o estrato superior da burguesia industrial, tornou-se muito mais f√°cil adquirir plantas no exterior: uma planta industrial vendida por 100 milh√Ķes de d√≥lares custa 100 milh√Ķes de reais a um c√Ęmbio de 1:1. Mas custaria 1 bilh√£o de reais a uma taxa de c√Ęmbio de 10:1. A extrovers√£o de in√ļmeras empresas nacionais nos anos posteriores ao Plano Real ‚Äď da JBS-Friboi √† Gerdau, passando por Marcopolo, Votorantim, WEG, Ambev, Alpargatas, dentre tantas outras ‚Äď deu-se, em grande parte, pela moeda nacional valorizada. Para os grandes grupos industriais, a perda de mercado interno com os importados mais baratos √© compensada pelas aquisi√ß√Ķes externas tamb√©m baratas. E, por fim, existe a ampla turma ‚Äúprodutiva‚ÄĚ que extrai seus ganhos dos juros elevados: tente comprar um autom√≥vel a vista numa concession√°ria: n√£o haver√° qualquer desconto significativo. Os funcion√°rios da concession√°ria explicar√£o que as taxas de juro s√£o √≠nfimas. Quando n√£o s√£o ‚Äúzero‚ÄĚ. ... Acredite se quiser. Na verdade, as montadoras ‚Äď como diversas empresas do varejo ‚Äď contam com suas pr√≥prias financeiras e vendem, √† vista, pelo pre√ßo da venda a prazo. E ganham, tanto com o financiamento ao cliente, quanto pela venda com sobrepre√ßo se o consumidor preferir a mercadoria √† vista.¬† Mas ‚Äď perguntam-nos aqueles que colocam todos os governos p√≥s-Real no mesmo saco - os argumentos acima n√£o provam exatamente a hip√≥tese de que falta ‚Äúvontade pol√≠tica‚ÄĚ para enfrentar o rentismo? Absolutamente n√£o! Prova t√£o somente que falta ‚Äúvontade pol√≠tica e te√≥rica‚ÄĚ aos economistas heterodoxos e desenvolvimentistas brasileiros para: 1) admitir que √© racional defender e preservar a √ļnica pol√≠tica de controle da infla√ß√£o brasileira que foi bem sucedida nos √ļltimos 50 anos; 2) reconhecer que √© preciso desenvolver e implantar uma pol√≠tica nova e radicalmente distinta de controle da infla√ß√£o, que permita matar e sepultar o sistema atual, baseado na dobradinha ‚Äújuros elevados ‚Äď d√≥lar barato‚ÄĚ para libertar o pa√≠s do financismo e da estagna√ß√£o. Esta √ļltima tarefa s√≥ poderia ser cumprida pela reflex√£o coletiva dos economistas que n√£o se colocam a servi√ßo do ‚Äúmercado‚ÄĚ. Infelizmente, este projeto n√£o est√° na pauta dos nossos economistas heterodoxos. Eles preferem pautar suas contribui√ß√Ķes √† Economia Brasileira apontando o dedo acusador para os pol√≠ticos e gestores de todos os partidos que passaram pelo executivo federal, que abriram m√£o de desenvolver o pa√≠s e se curvaram ao neoliberalismo. Com o perd√£o da sinceridade, n√£o nos parece que tal contribui√ß√£o seja capaz de trazer qualquer benef√≠cio efetivo e eficaz para a solu√ß√£o dos nossos problemas. Na verdade, parece-nos que a maior ‚Äúcontribui√ß√£o‚ÄĚ daqueles que aproximam (e, no limite, igualam, identificam) as pol√≠ticas econ√īmicas de FHC, Lula e Bolsonaro, rotulando-as ‚Äúneoliberais‚ÄĚ, √© p√īr √°gua no moinho da cr√≠tica conservadora da pol√≠tica, segundo a qual todos os partidos e gestores s√£o iguais e servem aos mesmos senhores.¬† A quest√£o do investimento e da produtividade Voltemo-nos agora √† terceira (pretensa) determina√ß√£o de nosso mau desempenho: as baixas taxas de investimento e a estagna√ß√£o da produtividade. O principal problema dessa (pretensa) determina√ß√£o √© que ela toma a taxa de investimento e a produtividade como ‚Äúcausa‚ÄĚ. A pergunta correta √©: Por que o investimento √© baixo? Por que a produtividade √© baixa?¬† Antes de mais nada, √© preciso entender que a (ao contr√°rio do que usualmente sup√Ķem os leigos em Economia) produtividade n√£o √© uma medida de efici√™ncia t√©cnica. Como bem alerta Claudio Considera et.al., em texto publicado no blog do IBRE sobre a crise da Ind√ļstria de Transforma√ß√£o no Brasil: ‚Äú√© necess√°rio cuidado no c√°lculo de produtividade com queda do PIB. Produtividade √© um fen√īmeno que indica efici√™ncia, deve ser mensurada quando h√° crescimento‚ÄĚ. Qual o sentido dessa afirma√ß√£o?¬† O primeiro a entender √© que h√° mais de uma medida de produtividade. Se inclu√≠mos, de uma forma ou de outra, o estoque de capital no indicador de produtividade que nos serve de refer√™ncia, ela ser√° t√£o menor quanto menor for o grau de utiliza√ß√£o dos equipamentos. A produtividade potencial √© definida pela capacidade produtiva dividida pelos custos de produ√ß√£o: ‚Äúestoque de capital + disp√™ndios com trabalhadores + disp√™ndios com insumos vari√°veis‚ÄĚ. Mas a produtividade real √© calculada pelo valor do produto efetivo dividido pelo mesmo denominador. Se o produto efetivo √© menor do que o potencial, como os equipamentos s√£o fixos, a produtividade cair√° apenas porque a demanda que incide sobre a firma n√£o √© suficiente para a plena utiliza√ß√£o da capacidade.¬† Na verdade, mesmo quando tomamos por refer√™ncia a medida mais simples de produtividade, a produtividade do trabalho (cuja medida √© ‚ÄúValor do Produto / N√ļmero de Trabalhadores‚ÄĚ), ela tamb√©m ser√° influenciada pelo grau de utiliza√ß√£o da capacidade. Parcela dos trabalhadores empregados em qualquer empresa s√£o ‚Äúcusto fixo‚ÄĚ; vale dizer, n√£o podem ser demitidos quando cai a demanda sobre a firma e, por extens√£o, cai a produ√ß√£o e o lucro. Parte dos trabalhadores fixos s√£o funcion√°rios de escrit√≥rio (white-collar), cujas atividades tendem at√© mesmo a ser ampliadas (renegocia√ß√£o de d√≠vidas, acesso a financiamento, esfor√ßo de marketing e publicidade, etc.) em caso de queda do faturamento. Outra parte s√£o oper√°rios de ch√£o de f√°brica (blue-collar), cujo treinamento, compet√™ncia e elevada produtividade exponenciam os riscos de demiss√£o, pois ele pode vir a ser empregado por firmas concorrente e n√£o poder ser recontratado mais tarde. E h√° in√ļmeras outras quest√Ķes de ordem estat√≠stica que obrigam todo e qualquer analista econ√īmico a interpretar as medidas de produtividade com muito cuidado e aten√ß√£o. Voltaremos a estas quest√Ķes mais adiante. Antes disso, temos de entender porque tantos te√≥ricos pretendem que as categorias ‚Äúinvestimento e produtividade‚ÄĚ possam ser pensadas como ‚Äúcausas‚ÄĚ do dinamismo econ√īmico (ou da falta dele). Qual √© o ‚Äúmodelo din√Ęmico‚ÄĚ que estes autores t√™m na cabe√ßa?¬† A despeito de existirem in√ļmeras diferen√ßas nos arcabou√ßos te√≥ricos de Ricardo e Schumpeter, a pretens√£o, t√£o difundida, de que o investimento e a produtividade s√£o vari√°veis ‚Äúorigin√°rias‚ÄĚ resulta de algum tipo de s√≠ntese das contribui√ß√Ķes desses dois grandes economistas. Apresentamos abaixo uma das poss√≠veis s√≠nteses, em que buscamos associar clareza (e didatismo) com respeito √†s nuances e complexidades dos sistemas dos dois autores. As contribui√ß√Ķes de Schumpeter est√£o referidas √† sua primeira grande obra, Teoria do Desenvolvimento Econ√īmico (doravante, TDE; de 1911). Em seus trabalhos posteriores, muitas das hip√≥teses mais simples do TDE s√£o refutadas e seu sistema torna-se bastante complexo. Os principais pontos comuns dos modelos de Ricardo e Schumpeter s√£o: 1) os mercados operam em livre concorr√™ncia, sem barreiras √† entrada para novas firmas; por isto mesmo, 2) os lucros devem ser reinvestidos nos setores de maior rentabilidade, antes que concorrentes (potenciais ou atuais) o fa√ßam; 3) n√£o h√° inconsist√™ncia sistem√°tica entre capacidade produtiva e demanda efetiva e as firmas, normalmente, utilizam plenamente sua capacidade produtiva; 4) os lucros s√£o, normalmente, superiores aos juros, de sorte que as aplica√ß√Ķes produtivas prometem uma rentabilidade maior que as financeiras; a despeito disso, 5) os lucros n√£o s√£o est√°veis e tendem a cair (no curto, m√©dio ou longo prazo) pela press√£o da concorr√™ncia e/ou da eleva√ß√£o dos sal√°rios; da√≠ que, 6) a condi√ß√£o da sustenta√ß√£o da lucratividade √© a inova√ß√£o cont√≠nua, com eleva√ß√£o da produtividade e nega√ß√£o relativa de trabalho. O modelo abaixo se estrutura como um sistema de fun√ß√Ķes (observe o sentido das flechas: elas apontam para a al√≠nea subsequente, que seria o desdobramento, a consequ√™ncia da al√≠nea anterior) que busca hierarquizar e explicitar os determinantes da din√Ęmica econ√īmica.¬† Modelo Din√Ęmico Ricardo-Schumpeteriano (MDR-S) Empresas Industriais (via de regra, de equipamentos e insumos produtivos, associadas com centros de pesquisa) desenvolvem novos e mais econ√īmicos m√©todos de produ√ß√£o ‚Üí¬† Empresas capazes de se beneficiar dos novos m√©todos investem, adquirindo os novos equipamentos e insumos ‚Üí¬† A produtividade sist√™mica e a competitividade das firmas se elevam ‚Üí¬† Conquista de novos mercados, que exigem novos investimentos ‚Üí¬† Amplia√ß√£o da Forma√ß√£o Bruta de Capital F√≠sico (FBKF) como % do PIB da economia ‚Üí¬† O crescimento ser√° sustentado enquanto as inova√ß√Ķes garantirem o aumento sustentado da produtividade e estimularem os investimentos.¬† Na vers√£o de Schumpeter, o modelo acima √© bem mais complexo. As inova√ß√Ķes s√£o protegidas pelas empresas que as introduzem primeiramente, emergem diferenciais de lucro que, posteriormente s√£o deprimidos pela emerg√™ncia de seguidoras bem sucedidas. A depender das necessidades de financiamento e das taxas de juros praticadas, a queda dos lucros das empresas que inovaram primeiro pode conduzir a uma discrep√Ęncia entre lucros e compromissos de pagamento das d√≠vidas que, por sua vez, pode conduzir a fal√™ncias e a uma crise global. N√£o obstante, acreditamos que o sistema acima n√£o peque por simplifica√ß√£o excessiva. Afinal, s√≥ queremos apresentar os princ√≠pios mais gerais dessa leitura t√£o difundida. O essencial √© entender seus tr√™s corol√°rios: 1) tudo come√ßa pela inova√ß√£o; 2) a inova√ß√£o induz ao investimento; 3) a inova√ß√£o e o investimento sistem√°ticos levam ao crescimento sustentado da economia capitalista.¬† S√£o justamente estes tr√™s corol√°rios que v√£o receber a cr√≠tica dos autores que colocam a demanda efetiva no centro da an√°lise din√Ęmica. Estes autores v√£o propor uma leitura alternativa da rela√ß√£o entre ‚Äúcrescimento, inova√ß√£o & progresso t√©cnico e aumento da produtividade do trabalho‚ÄĚ. Do nosso ponto de vista, o autor que melhor sistematiza esta vers√£o √© Josef Steindl, em seu Maturidade e Estagna√ß√£o no Capitalismo Americano. Apresentamos abaixo uma s√≠ntese (tamb√©m simplificada e unidirecional) de sua vis√£o da din√Ęmica, apoiada em Marx, Keynes e Kalecki.¬† Modelo Din√Ęmico Keyneso-Steindeliano (MDK-S) Amplia√ß√£o da Demanda Efetiva atrav√©s de est√≠mulos governamentais ‚Üí Multiplica√ß√£o da Demanda Aut√īnoma via Consumo das Fam√≠lias ‚Üí Amplia√ß√£o da capacidade instalada nas firmas privadas via investimento em maquin√°rio e instala√ß√Ķes ‚Üí Introdu√ß√£o de Inova√ß√Ķes, Amplia√ß√£o da Produtividade do Trabalho ‚Üí Nega√ß√£o relativa de Trabalho Vivo e crescimento da capacidade produtiva acima do consumo da popula√ß√£o ‚Üí Acirramento da concorr√™ncia intercapitalista ‚Üí Fal√™ncia das firmas menores, de produtividade mais baixa e mais intensivas em trabalho ‚Üí Emerg√™ncia de desemprego e aprofundamento da concentra√ß√£o de capital‚Üí¬† Queda do sal√°rio m√©dio e da massa de sal√°rios¬† Depress√£o do consumo ‚Üí Queda dos investimentos ‚Üí Estagna√ß√£o ‚Üí Retomada dos est√≠mulos governamentais Como se v√™, o MDK-S √© muito distinto e muito menos otimista acerca da rela√ß√£o entre inova√ß√£o e crescimento que o modelo Ricardo-Schumpeteriano. Desde logo, para Steindl a inova√ß√£o n√£o √© o ponto de partida do crescimento. Na esteira de Marx, Rosa Luxemburgo, Keynes e Kalecki, Steindl entende que a capacidade produtiva capitalista tende a superar a demanda da sociedade, pois o consumo √© acicatado pela nega√ß√£o do trabalho e pelos baixos sal√°rios, os investimentos s√£o deprimidos pela incerteza e pela capacidade ociosa e as exporta√ß√Ķes s√£o deprimidas pelo protecionismo. Assim, a manuten√ß√£o do dinamismo nos pa√≠ses capitalistas maduros depende, cada vez mais, dos est√≠mulos governamentais. Mas o ponto central de Steindl √© a maneira como ele percebe a rela√ß√£o entre investimento, inova√ß√£o e produtividade. Para Steindl, se as empresas t√™m capacidade ociosa (m√°quinas, instala√ß√Ķes e equipamentos subutilizados), elas n√£o investir√£o em novos equipamentos apenas porque emergiram inova√ß√Ķes e os novos equipamentos s√£o mais produtivos. Aumentar a produtividade do sistema sucateando o maquin√°rio dispon√≠vel, j√° adquirido, e ainda n√£o amortizado (pago pelo ingresso de lucros brutos) seria uma decis√£o irracional. Por que fazer novos desembolsos se a demanda atual (e, por extens√£o, a demanda prospectiva) n√£o est√° se expandindo? O que move o investimento √© a percep√ß√£o de que a demanda est√° crescendo a uma tal velocidade que, ou j√° superou, ou ir√° superar brevemente a capacidade produtiva atual. A√≠, sim, ao investir, as firmas ir√£o adotar padr√Ķes t√©cnicos mais modernos e produtivos. Steindl expressou essa ideia chave a frase: A inova√ß√£o segue o investimento em capital fixo como sua sombra.¬† Do nosso ponto de vista, nem o modelo din√Ęmico ricardo-schumpeteriano, nem o modelo keyneso-steindeliano est√£o totalmente corretos. Na verdade, cada um deles resgata uma determinada dimens√£o da complexa realidade capitalista ‚Äď em especial, dos determinantes do investimento e da inova√ß√£o tecno-produtiva ‚Äď e explora esta dimens√£o de forma coerente. Um modelo completo envolveria, pelo menos, a s√≠ntese dial√©tica de ambos. Por√©m, na medida em que, desde a crise do keynesianismo (nos anos 70 do s√©culo passado), o MDR-S se tornou ‚Äúo novo consenso‚ÄĚ, √© da maior import√Ęncia lembrar que a ‚Äúnova hegemonia‚ÄĚ est√° longe de ser a √ļnica leitura poss√≠vel. O ponto crucial do MDK-S √© nos lembrar que, se a demanda sobre um determinado setor est√° estagnada, se o mesmo se encontra sob forte press√£o competitiva e n√£o h√° qualquer seguran√ßa sobre as condi√ß√Ķes de opera√ß√£o (e sobreviv√™ncia!) no futuro pr√≥ximo, √© racional n√£o investir e n√£o inovar. Mais at√©: √© racional sair do setor e alocar o capital em atividades onde a rentabilidade seja (pelo menos) similar, mas a seguran√ßa e a liquidez das aplica√ß√Ķes sejam maiores. Tal como procuraremos demonstrar abaixo, o processo de desindustrializa√ß√£o no Brasil resulta da execu√ß√£o rigorosa desta estrat√©gia ‚Äď frisemos mais uma vez - estritamente racional por parte do empresariado do pa√≠s.¬† A evolu√ß√£o recente da economia brasileira Como vimos, nos 28 anos entre 1995 e 2022, a economia brasileira cresceu 85,57%. Este largo per√≠odo corresponde a 7 mandatos presidenciais: FHC 1; FHC 2; Lula 1; Lula 2; Dilma 1; Dilma 2 (substitu√≠da por Temer, ap√≥s o golpe de 2016); e Bolsonaro. Mas os 28 anos tamb√©m podem ser divididos em tr√™s subper√≠odos: 1) os Anos FHC, voltados (segundo ele mesmo) ao encerramento da ‚ÄúEra Vargas‚ÄĚ; 2) os Anos ‚ÄúSocial-desenvolvimentistas‚ÄĚ dos tr√™s primeiros mandatos do PT (Lula 1, Lula 2 e Dilma 1); e 3) os Anos de Austeridade (Dilma 2, Temer e Bolsonaro). No Quadro 1, abaixo, apresentamos as taxas de varia√ß√£o do PIB e dos VABs da Agropecu√°ria, da Ind√ļstria em Geral (Extrativa Mineral, Transforma√ß√£o, Servi√ßos Industriais de Utilidade P√ļblica, e Constru√ß√£o Civil), da Ind√ļstria de Transforma√ß√£o (em separado) e dos Servi√ßos. Na primeira coluna de cada vari√°vel, encontra-se a taxa de varia√ß√£o acumulada; na coluna vizinha, a taxa m√©dia anual por per√≠odo. As duas divis√Ķes cronol√≥gicas ‚Äď mandatos e padr√Ķes de gest√£o (os ‚ÄúAnos‚ÄĚ acima definidos) est√£o representados nas linhas. Na √ļltima linha, temos a evolu√ß√£o de cada vari√°vel ao longo dos 28 anos. Do nosso ponto de vista, o mais importante a observar no que diz respeito ao desemprenho da economia nos Anos de FHC √© que as m√©dias anuais de varia√ß√£o em todas as al√≠neas ao longo de seus 8 anos de governo s√£o muito pr√≥ximas das m√©dias anuais dos 28 anos dos 7 mandatos considerados em conjunto. Do nosso ponto de vista, essa converg√™ncia cont√©m um grande simbolismo: FHC (e seu Plano Real) deram e ainda d√£o a t√īnica da pol√≠tica econ√īmica p√≥s-94. Na verdade, esta √© a hip√≥tese organizadora desse conjunto de artigos: ao colocar a dupla juros-c√Ęmbio como √Ęncora da infla√ß√£o, FHC construiu um sistema em que o ‚Äúdrag√£o dos pre√ßos‚ÄĚ √© posto sob controle pela exposi√ß√£o competitiva externa. Ocorre que os Servi√ßos (com√©rcio, transporte, educa√ß√£o, sa√ļde, finan√ßas, etc.)¬† n√£o sofrem com a exposi√ß√£o competitiva, pois n√£o s√£o pass√≠veis de importa√ß√£o ou exporta√ß√£o (malgrado exce√ß√Ķes). O mesmo se d√° com a Constru√ß√£o Civil (doravante, CC) e a Ind√ļstria de Utilidade P√ļblica (eletricidade, telefonia, saneamento, etc.; doravante, SIUP). Dentre os setores tradables (vale dizer: que produzem import√°veis e export√°veis), o Brasil conta com vantagens competitivas estruturais na Agropecu√°ria e em setores espec√≠ficos da Ind√ļstria Extrativa Mineral (doravante, EM). Quem paga ‚Äúo pato‚ÄĚ pela estrat√©gia de controle da infla√ß√£o √© a Ind√ļstria de Transforma√ß√£o (doravante, IT). Basta ver o diferencial de crescimento do VAB da IT em 28 anos (17%) vis-√†-vis a Agropecu√°ria (cujo VAB cresceu 143,26%) e os Servi√ßos (cujo VAB cresceu 90,15%). Na verdade, a IT j√° come√ßou a ‚Äúpagar o pato‚ÄĚ no primeiro mandato de FHC, quando a taxa de c√Ęmbio foi mantida praticamente fixa com rela√ß√£o ao d√≥lar: aceitava-se uma margem m√≠nima de varia√ß√£o, s√≥ que ela era muito inferior √† varia√ß√£o dos pre√ßos internos. Na verdade, nos primeiros meses, ela flutuou inversamente √† infla√ß√£o. Relembremos os fatos. Em 1¬ļ. de julho de 1994, a taxa de c√Ęmbio entre a nossa nova moeda ‚Äď o real ‚Äď e o d√≥lar foi estabelecida em R$ 1,00 = US$ 1,00. Por√©m os gestores da nova pol√≠tica econ√īmica procuraram levar o controle sobre os pre√ßos (√†s v√©speras das elei√ß√Ķes) a um patamar ainda mais elevado e deixaram o ‚Äúmercado livre‚ÄĚ precificar a rela√ß√£o entre d√≥lar e real em fun√ß√£o da disponibilidade de divisas. O fato de que a disponibilidade de divisas no ‚Äúmercado livre‚ÄĚ era definida pelo Banco Central era um mero detalhe; evidentemente. Um ‚Äúdetalhe‚ÄĚ que levou a que, em dezembro de 1994, o pre√ßo do d√≥lar no ‚Äúmercado livre‚ÄĚ fosse de apenas R$ 0,8501: compr√°vamos um d√≥lar com 85 centavos de real. O Brasil-Bangu voltava √† primeira divis√£o!¬† O problema √© que ‚Äď ao contr√°rio da expectativa dos gestores desse ‚Äúgolpe de mestre‚ÄĚ - a infla√ß√£o interna n√£o foi zerada. Apenas no segundo semestre de 1994 a infla√ß√£o foi de 18,57%. Nesse mesmo per√≠odo, a infla√ß√£o nos EUA foi de meros 1,15%. Para que se entenda o impacto dessa pol√≠tica cambial e do diferencial de taxa de infla√ß√£o fa√ßamos um exerc√≠cio simples.¬† Imagine um produto tradable qualquer. No in√≠cio de julho de 1994, seu custo de produ√ß√£o era tal que, adicionando a margem padr√£o de lucro, transporte e com√©rcio, ele poderia ser vendido ao pre√ßo de R$ 100,00. Imagine que este mesmo produto era produzido em condi√ß√Ķes similares nos EUA e seu pre√ßo de venda, l√°, era US$ 100,00. Ocorre que, entre julho e dezembro de 1994, no Brasil, os custos foram ampliados em 18,57% (infla√ß√£o). Para vende-lo, agora, com uma margem de retorno equivalente √†quela obtida no in√≠cio de julho, seu pre√ßo teria que ser de R$ 118,57. Entretanto, o similar norte-americano teve um acr√©scimo de custos de apenas 1,15%. E pode ser vendido por US$ 101,15. Se a taxa de c√Ęmbio fosse fixa em R$ 1,00 = US$ 1,00 isso j√° seria um problema, pois o produto norte-americano entraria no Brasil a um pre√ßo de 85% do similar nacional (101,15 / 118,57 = 0,85). Por√©m o problema √© ainda maior: com a queda do pre√ßo do d√≥lar, US$ 101,15 correspondem, agora, a R$ 85,98. Vale dizer: o produto importado poder√° ser vendido a um pre√ßo 27,48% inferior ao produto nacional. Os economistas expressam essa ideia diferenciando o c√Ęmbio nominal (que, √† √©poca, era exatamente de R$ 0,8501 = US$ 1,00) do c√Ęmbio real, que incorpora os diferenciais de infla√ß√£o em seu c√°lculo e nos leva a perceber que, de fato, os produtos em d√≥lares tinham adquirido uma vantagem de pre√ßo 27,48% apenas por serem transacionados em moedas diferentes: √© como se o ‚Äúd√≥lar real‚ÄĚ estivesse precificado em R$ 0,7252. Isso √© que √© moeda forte, hen?¬† Em julho de 1996 o d√≥lar ‚Äúreal‚ÄĚ atingiu o seu mais baixo patamar no Brasil: R$ 0,6831. Em termos nominais, ele era de R$ 1,0069. Na apar√™ncia, o d√≥lar havia subido de pre√ßo novamente e encontrava-se no mesmo patamar do in√≠cio do Plano Real. S√≥ que n√£o. Entre julho de 1994 e julho de 1996, a infla√ß√£o brasileira fora de 57,05%. E a infla√ß√£o americana fora de apenas 6,28%; uma diferen√ßa de 47,53%. Para que a competitividade monet√°rio-cambial ‚Äď vale dizer, sem levar em considera√ß√£o qualquer diferencial de produtividade real - fosse mantida nos termos de 1¬ļ. de julho de 1994, o d√≥lar nominal teria que custar R$ 1,4753.¬† Os reflexos dessa pol√≠tica ‚Äúenlouquecida‚ÄĚ foram m√ļltiplos, da emerg√™ncia de pesados d√©ficits nas Balan√ßas Comercial e de Transa√ß√Ķes Correntes (que exauriram nossas reservas) a uma pol√≠tica de juros usur√°rios, com vistas a evitar a demanda especulativa de d√≥lares (juros estes que levaram √† duplica√ß√£o das d√≠vidas p√ļblicas estaduais e municipais nos primeiros 4 anos de FHC). Mas, no que nos diz respeito neste trabalho o principal desdobramento da equa√ß√£o ‚Äújuros-c√Ęmbio‚ÄĚ foi a desindustrializa√ß√£o. Nos primeiros quatro anos de FHC o VAB da IT decresceu -0,44%. Algu√©m poderia pretender que esse desempenho nem chega a ser t√£o ruim tendo em vista a grande press√£o competitiva. De fato. Mas √© preciso lembrar que os tr√Ęmites de importa√ß√£o e exporta√ß√£o envolvem tempo. Na verdade, -0,44% √© a taxa acumulada nos 4 anos; se a tomamos ano a ano temos as seguintes varia√ß√Ķes: 1995: 1,99%; 1996: 0,08%; 1997: 2,49%; 1998: - 4,84%. A queda abrupta da taxa de crescimento do VAB industrial em 1996 acendeu o farol de alerta e o governo adotou diversas pol√≠ticas em 1997 com vistas a apoiar a cambaleante IT: suspendeu a al√≠quota zero para importa√ß√£o de bens de capital sem similar nacional, ampliou o apoio √† IT automotiva e criou uma pol√≠tica espec√≠fica de apoio √† moderniza√ß√£o de equipamentos agr√≠colas. O f√īlego das medidas, entretanto, foi curto e j√° no segundo semestre de 1977 a IT desacelerava. No ano de 1998 o tombo foi colossal -4,84%. No in√≠cio do segundo mandato, FHC rompe com a pol√≠tica de c√Ęmbio ‚Äúsemi-fixo‚ÄĚ e j√° em fevereiro de 1999 o c√Ęmbio nominal m√©dio ser√° de R$ 1,9137 = US$ 1,00. Dado o diferencial de taxas de infla√ß√£o interna e externa, contudo, este c√Ęmbio nominal equivalia a um c√Ęmbio real de R$ 1,2289 = US$ 1,00. Mesmo assim, a IT come√ßou a dar sinais de recupera√ß√£o ao longo do ano. No agregado dos 4 trimestres de 1999, a varia√ß√£o do VAB da IT ainda ser√° negativa (-1,86%). Mas a varia√ß√£o no √ļltimo trimestre j√° foi positiva. E em 2000 a varia√ß√£o do VAB da IT ser√° de 5,69%.¬† Vamos resumir a √≥pera: no acumulado por mandato, o VAB da IT cai: em FHC 1 (-0,44%), em Dilma 1 (-2,00%), em Dilma 2 (-12,85%) e em Bolsonaro (-2,02%). Por oposi√ß√£o, a Agropecu√°ria, a Ind√ļstria Geral (doravante, IG) e os Servi√ßos s√≥ apresentam queda em Dilma 2: respectivamente de -2,08%; -10,06%; e -4,89%. Por√©m, se tomamos os dados ano a ano, o VAB da IT cai em 1998, 1999, 2009, 2012, 2014¬≤, 2015, 2016, 2019, 2020 e 2022.¬† A queda acumulada nesses 10 anos √© de -35,13%. Este resultado pode parecer muito ruim. E √©. Mas ele traz consigo um outro lado: se acumularmos a taxa de crescimento nos 18 anos em que o VAB da IT cresceu chegamos ao expressivo valor de 80,36%. Para entendermos o significado deste resultado, calculamos a m√©dia aritm√©tica, o desvio-padr√£o e o coeficiente de varia√ß√£o das taxas de varia√ß√£o do PIB, do VAB Agropecu√°rio, do VAB da IG, do VAB da IT e do VAB dos Servi√ßos. Os resultados se encontram no Quadro 2, abaixo. Na √ļltima linha do Quadro 2 encontra-se o Coeficiente de Varia√ß√£o (doravante, CV) das taxas de crescimento do PIB e dos VABs setoriais selecionados por n√≥s. Quanto maior o CV, maior a instabilidade das taxas de crescimento. Um CV pr√≥ximo da unidade (como √© o caso do CV do PIB, do VAB Agropecu√°rio e do VAB dos Servi√ßos) indica que h√° varia√ß√Ķes de um ano para o outro, mas taxas de crescimento que giram em torno da m√©dia, raramente se afastam significativamente da m√©dia. No caso do VAB da IT o CV √© de 6,89; vale dizer: as taxas de crescimento s√£o extremamente inst√°veis, com anos de grande crescimento e anos de expressivo decrescimento; sendo os valores extremos os de 9,19% (positivo) e -9,26% (negativo), o que d√° uma amplitude m√°xima de 18,45% entre os m√°ximos. Note-se que, como o desvio-padr√£o √© de 4,75%, os valores extremos sequer s√£o outliers (exce√ß√Ķes, valores extraordin√°rios e absolutamente inusuais): ambos se encontram no intervalo do segundo desvio-padr√£o. O problema √© exatamente este: a instabilidade das taxas de varia√ß√£o do VAB do IT √© rigorosamente sistem√°tica. A IT pode responder positivamente. E o faz, sempre que √© estimulada. Mas se ressente da instabilidade da pr√≥pria economia nacional. In√ļmeras vezes, ao longo dos nossos textos sobre desenvolvimento capitalista em geral e sobre industrializa√ß√£o e desindustrializa√ß√£o do Brasil, salientamos que o capital n√£o busca ‚Äúapenas‚ÄĚ rentabilidade. O investimento em capital fixo √© extremamente arriscado, pois envolve a imobiliza√ß√£o (perda de liquidez) por diversos anos, numa aposta contra o futuro que pode ser afetado pela din√Ęmica do progresso t√©cnico, pela evolu√ß√£o da taxa de c√Ęmbio, pela eventual emerg√™ncia de crises econ√īmicas e pol√≠ticas, pela evolu√ß√£o do emprego e da taxa de sal√°rio, etc., etc., etc., etc. N√£o √© poss√≠vel demandar invers√Ķes em capital fixo se o Estado n√£o sinalizar de forma clara e consistente quais ser√£o os par√Ęmetros definidores dos limites da varia√ß√£o dos pre√ßos econ√īmicos fundamentais: taxa de c√Ęmbio, taxa de juros, tarifas alfandeg√°rias, pol√≠ticas tecnol√≥gicas e de est√≠mulo √† inova√ß√£o, pol√≠ticas fiscais, pol√≠ticas de financiamento de longo prazo, etc.¬† No caso do Brasil n√£o h√° qualquer continuidade em qualquer dessas √°reas. J√° apontamos acima para as descontinuidades das pol√≠ticas econ√īmicas ao longo dos 28 anos p√≥s-Real. Mas √© preciso trazer √† luz um ponto ainda n√£o tratado, que √© o principal determinante da incerteza que vem minando os investimentos e as inova√ß√Ķes na IT: o excesso de divisas. A partir do momento em que o Brasil passou a obter saldos comerciais significativos atrav√©s das exporta√ß√Ķes de commodities para a China, os magos do Banco Central passaram a tirar e colocar o drag√£o da infla√ß√£o na cartola atrav√©s de pirotecnias com a taxa de c√Ęmbio. Enquanto nos depar√°vamos com graves circunscri√ß√Ķes externas, havia in√ļmeras d√ļvidas. Mas havia pelo menos uma certeza: os importados tinha sido, eram, e continuariam sendo caros. E a √ļnica forma de prover o sistema produtivo com os meios necess√°rios √† reprodu√ß√£o econ√īmica era privilegiar a importa√ß√£o de equipamentos para a produ√ß√£o interna de insumos produtivos b√°sicos.¬† Hoje n√£o temos sequer esta √Ęncora para as expectativas do que vir√° no futuro. O resultado est√° no gr√°fico abaixo. Vale notar que na produ√ß√£o do gr√°fico acima n√£o utilizamos a varia√ß√£o do VAB da IT, mas a varia√ß√£o da participa√ß√£o da IT no PIB. As duas medidas s√£o altamente correlacionadas. Mas a segunda (utilizada acima) exponencia a varia√ß√£o da IT. Especialmente quando os demais setores est√£o apresentando crescimento e a IT est√° parada ou decrescendo. N√£o vamos aprofundar esta discuss√£o agora. Ela ser√° objeto de um texto espec√≠fico. Este tema √© demasiadamente importante e demasiadamente complexo para trata-lo com a devida acuidade nas linhas que nos restam desse artigo. Permitam-nos, t√£o somente, dedicar uma m√ļsica √† IT nacional e aos empres√°rios que ainda insistem em atuar num segmento exposto a tantas intemp√©ries: Gonzaguinha para eles, que eles merecem.¬† O complexo c√°lculo da produtividade e seus desdobramentos No excelente trabalho de Considera et al, referido acima, lemos: ‚ÄúA produtividade da ind√ļstria evolui de forma desastrosa; estagnada durante 36 anos, hoje ela √© cerca de 1% inferior a 1985, tendo tido seu melhor desempenho em 1994. Mesmo submetida a uma pol√≠tica cambial que a obrigaria a aumentar sua produtividade para concorrer com importados, o que n√£o aconteceu‚ÄĚ Do nosso ponto de vista, a passagem comporta tantos acertos quanto equ√≠vocos. Os autores acertam ao afirmar que a pol√≠tica cambial tem sido um desafio para a Ind√ļstria. No texto, eles parecem se referir √† Ind√ļstria em Geral (IG). Por√©m, n√£o faz qualquer sentido pretender que a Constru√ß√£o Civil seja impactada pela taxa de c√Ęmbio. E os pr√≥prios autores reconhecem que a IT, por representar cerca de 70% da IG, √© quem determina a din√Ęmica desta √ļltima. Os autores tamb√©m v√£o no sentido correto ao indicar que 1994 √© um divisor de √°guas. Segundo eles, 1994 teria sido o ano da maior produtividade industrial. Acrescentamos n√≥s: nada casualmente, este tamb√©m foi o ano da introdu√ß√£o do Plano Real.¬† Por√©m, do nosso ponto de vista, os autores incorrem em um grande equ√≠voco ao pretender que a produtividade da economia em geral e da ind√ļstria em particular encontre-se no mesmo n√≠vel de 1985. Do nosso ponto de vista, esta tese padece de tantos problemas te√≥ricos, quanto emp√≠rico-estat√≠sticos. De 1985 a 2022 (ano do trabalho referido) a economia mundial passou por um processo radical de globaliza√ß√£o e por uma profunda revolu√ß√£o tecno-produtiva, associada ao desenvolvimento da internet (e de todos os sistemas em rede que se beneficiam da mesma) e da automa√ß√£o industrial (da qual a rob√≥tica √© express√£o can√īnica). Pretender que o Brasil passou inc√≥lume por estes processos e seu sistema industrial, hoje, √© menos produtivo do que era em 1985 equivale, a pretender que, ou o Brasil n√£o √© capitalista (e o progresso t√©cnico n√£o √© essencial), ou que o Brasil, h√° 50 anos, est√° fora do mundo. Como sabemos todos, as duas hip√≥teses s√£o falsas. O Brasil est√° no mundo (√© a letra inicial dos BRICS) e √© um pa√≠s capitalista que passou, desde o fim da hiperinfla√ß√£o (e, em especial, durante os governos do PT), por um processo mais ou menos cont√≠nuo de amplia√ß√£o do sal√°rio real e da participa√ß√£o dos trabalhadores na renda. Como √© poss√≠vel que, nessas condi√ß√Ķes, a produtividade tenha se mantido aproximadamente constante e, no caso da ind√ļstria (seja IG, seja IT) venha apresentando uma queda persistente desde de 1994? Ser√° que o problema n√£o estaria nas bases estat√≠sticas utilizadas para avaliar a produtividade?¬† A Economia √© uma ci√™ncia plena de controv√©rsias. Sabemos todos. Mas ela tamb√©m comporta muito mais consensos do que os leigos na triste ci√™ncia poderiam acreditar. Um deles √© o que Hayek chama de ‚ÄúRicardo Effect‚ÄĚ em Individualism & Economic Order. Ele afirma que o progresso t√©cnico poupador de m√£o de obra √© estimulado pela eleva√ß√£o dos sal√°rios reais. Ora, n√£o h√° d√ļvida alguma de que os sal√°rios reais se elevaram com o fim da hiperinfla√ß√£o e tiveram um crescimento expressivo ao longo dos governos do PT. Por√©m, de acordo com as bases estat√≠sticas dispon√≠veis, na contram√£o de todas as vertentes da teoria econ√īmica, no Brasil, a eleva√ß√£o dos sal√°rios reais levou √† queda da produtividade do trabalho nos mais diversos setores. Com √™nfase na Ind√ļstria de Transforma√ß√£o (fonte do progresso t√©cnico no resto do mundo) e com a exce√ß√£o da Agropecu√°ria (usualmente vista como o setor do ‚Äúatraso‚ÄĚ). Isto √© que d√° ser a terra da jabuticaba!¬† J√° dissemos que h√° v√°rios m√©todos de c√°lculo da produtividade. J√° explicamos, tamb√©m, que esta n√£o √© uma categoria ‚Äút√©cnica‚ÄĚ, mas econ√īmica. Afinal, mesmo a produtividade do trabalho (que √© a forma mais simples de c√°lculo da produtividade) √© influenciada pelo grau de utiliza√ß√£o da capacidade instalada que, por sua vez, √© fun√ß√£o da demanda efetiva e das estrat√©gias de concorr√™ncia empresarial. Mas isso n√£o √© tudo.¬† As informa√ß√Ķes necess√°rias ao c√°lculo da produtividade do trabalho de uma √ļnica empresa s√£o do conhecimento de seus gestores. Quando avan√ßamos para a economia como um todo (ET), temos que agregar empresas diversas e determinar o produto conjunto e o n√ļmero total de empregados nos distintos setores a partir de informa√ß√Ķes secund√°rias. E isto n√£o √© nem um pouco trivial; de forma que alguns resultados podem ser surpreendentes. Exemplifiquemos. Os crit√©rios para ‚Äúsetorializar‚ÄĚ as atividades e empresas s√£o crit√©rios t√©cnicos, orientados pela ONU. Assim √© que se define se uma atividade pertence ou n√£o √† Ind√ļstria de Transforma√ß√£o em fun√ß√£o de crit√©rios tais como: atividade n√£o-agropecu√°ria, nem extrativa, pass√≠vel de localiza√ß√£o em qualquer territ√≥rio, que processa insumos e os transforma em um novo bem que √© pass√≠vel de ser transportado. O que resulta disso? Que padaria √© ind√ļstria de transforma√ß√£o. Este crit√©rio √© l√≥gico? 100% l√≥gico! Mas n√£o √© ‚Äúl√≥gico-hist√≥rico‚ÄĚ. Em Marx, a Ind√ļstria √©, por natureza, grande, pois se beneficia de vantagens de escala e √© intensiva em maquin√°rio. Tamb√©m para crit√©rios fiscais, a Ind√ļstria √© a Grande Ind√ļstria. O princ√≠pio da substitui√ß√£o tribut√°ria ‚Äď que tanta reclama√ß√£o gera entre os empres√°rios da ind√ļstria, que se consideram sobretaxados ‚Äď adv√©m do fato de que o custo de cobrar impostos e fiscalizar todos os produtores de cevada e todos os vendedores de cerveja no varejo seria exorbitante. Mas cobrar impostos da Ind√ļstria de Cerveja √© f√°cil, pois s√£o poucas as plantas realmente expressivas e significativas. Tal como Marx, nossos tributaristas consideram que uma caracter√≠stica fundamental da ind√ļstria √© ser grande. Na leitura que eles fazem da economia, a padaria da esquina √© similar ao bistr√ī do outro lado da pra√ßa e ao boteco que fica em frente: s√£o pequenas atividades de servi√ßos.¬† Quem est√° certo? Ambos. E nenhum. N√£o existe uma √ļnica classifica√ß√£o correta. Mas o analista e usu√°rio de estat√≠stica deve estar atento para o crit√©rio que est√° sendo utilizado pelo √≥rg√£o que lhe disponibilizou os dados. No caso da an√°lise da evolu√ß√£o da produtividade industrial no Brasil √© preciso entender, por exemplo, que a principal base de dados sobre emprego por setor de atividade √© a Rela√ß√£o Anual de Informa√ß√Ķes Sociais (RAIS) do Minist√©rio do Trabalho e do Emprego. O IBGE tem outras fontes de informa√ß√£o sobre ocupa√ß√£o e renda. A mais importante delas √© a Pesquisa Nacional de Amostra de Domic√≠lios (PNAD). Por√©m, as informa√ß√Ķes da PNAD n√£o s√£o pass√≠veis de serem apropriadas diretamente para o c√°lculo da produtividade por setor. Por qu√™? Porque o respondente sabe e diz o que faz, mas n√£o onde trabalha e qual a principal atividade da firma onde opera e a qual setor pertence. Se nos perguntassem sobre nossas profiss√Ķes, dir√≠amos que Paiva √© economista e Allan √© estat√≠stico. Afinal, nossos trabalhos variam, assim como nossas rela√ß√Ķes empregat√≠cias. Mas n√£o varia o que sabemos fazer.¬† O problema √© que tamb√©m n√£o √© poss√≠vel usar apenas a RAIS, pois o n√ļmero de empregados registrados nesta base tamb√©m varia em fun√ß√£o dos custos de formaliza√ß√£o, das mudan√ßas na legisla√ß√£o trabalhista, do padr√£o de fiscaliza√ß√£o (e puni√ß√£o) de rela√ß√Ķes trabalhistas informais e prec√°rias. A solu√ß√£o encontrada pelo IBGE foi a de construir sua pr√≥pria base de dados ‚Äď o Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) ‚Äď que se utiliza das informa√ß√Ķes da RAIS e das pesquisas pr√≥prias (Pesquisa Industrial Anual, Pesquisa Mensal do Com√©rcio, Pesquisa Mensal do Servi√ßo, etc.) com vistas a filtrar varia√ß√Ķes nas classifica√ß√Ķes das empresas e no emprego e desemprego identificadas na base do MTE que n√£o se mostram consistentes com as varia√ß√Ķes na ocupa√ß√£o total identificadas nas pesquisas de campo do IBGE.¬† O IBGE √© um √≥rg√£o de excel√™ncia e n√£o temos qualquer d√ļvida da qualidade de suas estat√≠sticas. Mas √© preciso entender que h√° limites para impor ajustamentos √†s fontes prim√°rias de dados. Por exemplo: sabemos todos que h√° subestima√ß√£o dos rebanhos declarados nos Censos Agropecu√°rios. O Censo de 2017 identificou um rebanho bovino com 42 milh√Ķes de cabe√ßas a menos do que a Pesquisa Pecu√°ria Municipal (PPM), tamb√©m do IBGE, havia identificado naquele mesmo ano. A base do Censo √© declarat√≥ria e a base da PPM s√£o pesquisas amostrais. √Č razo√°vel pensar que a PPM esteja mais correta e que os declarantes ao Censo tenham subestimado o seu rebanho. Mas qual ajuste impor? O mesmo se d√° com rela√ß√£o √†s estimativas da popula√ß√£o e os Censos Demogr√°ficos: os √ļltimos sempre subestimam a popula√ß√£o total. Com ajustar? Quando? N√£o √© tarefa f√°cil.¬† Voltando ao nosso ponto: por mais que o IBGE ajuste os dados da RAIS com vistas a obter uma avalia√ß√£o mais fidedigna da evolu√ß√£o do emprego por setor de atividade no CEMPRE, este cadastro n√£o pode deixar de ser influenciado pela RAIS. Ali√°s, as demais fontes utilizadas pelo IBGE tamb√©m devem conter os vieses que a RAIS cont√©m. Mesmo que em grau menor. Com vistas a explicitar o impacto da formaliza√ß√£o no c√°lculo da produtividade, tomamos diretamente os dados de emprego da RAIS para toda a economia, para a Ind√ļstria em Geral e para a Ind√ļstria de Transforma√ß√£o e comparamos com os dados do IBGE (obtidos na plataforma do IPEA) com vistas a calcular a evolu√ß√£o da produtividade nos per√≠odos de governo dos 8 presidentes dos √ļltimos 28 anos. Os resultados est√£o no Quadro3, acima. N√£o √© preciso ser economista para perceber que, quando utilizamos a ‚ÄúRAIS pura‚ÄĚ para calcular a varia√ß√£o da produtividade, chegamos a v√°rios resultados absurdos. De acordo com a RAIS, o maior crescimento do ‚Äúemprego‚ÄĚ deu-se nos mandatos de Lula 1, Lula 2 e Dilma 2. Justamente os governos que elevaram os sal√°rios e a participa√ß√£o dos rendimentos do trabalho na renda. Sabemos todos, desde Ricardo, que a eleva√ß√£o dos sal√°rios estimula a substitui√ß√£o de trabalho vivo por maquin√°rio, elevando a produtividade m√©dia da economia. Mas, na terra da jabuticaba, parece que o movimento √© oposto. Nas tr√™s primeiras gest√Ķes do PT, o PIB cresceu 50,73% em 12 anos; com uma m√©dia anual de 3,48% (a maior dos tr√™s subper√≠odos). Mas o ‚Äúemprego‚ÄĚ subiu ainda mais: 72,82% em 12 anos, com uma taxa m√©dia anual de 4,66%. O resultado a que chegamos √© que a produtividade teria ca√≠do em -12,78% nestes 12 anos, a uma taxa m√©dia anual negativa de -1,13%. Na IT o baque √© ainda maior: o emprego teria crescido 53,97% enquanto o VAB-IT teria crescido meros 24,41%. O resultado foi que a produtividade da IT caiu -19,2% em 12 anos, a uma taxa m√©dia anual de -1,76%.¬† O que de fato ocorreu ao longo desses anos? V√°rios fatores explicam o crescimento do emprego formal. Em primeiro lugar, houve a cria√ß√£o do Simples-Nacional que deprimiu significativamente os custos da formaliza√ß√£o nos pequenos estabelecimentos. Simultaneamente, os governos populares aprofundaram a fiscaliza√ß√£o e a puni√ß√£o das empresas que operavam sem formalizar as rela√ß√Ķes empregat√≠cias e sem garantir aos trabalhadores seus direitos ao FGTS e √† Previd√™ncia Social. O resultado foi a explos√£o do emprego formal nos dois primeiros governos de Lula; para o conjunto da economia, o crescimento acumulado em 8 anos foi de 53,63%; na Ind√ļstria Geral, o crescimento foi de 61,73%; e na IT foi de 49,28%.¬† Outro per√≠odo excepcional √© o governo Bolsonaro. Nos seus 4 anos de governo, o PIB cresceu 5,66% enquanto o emprego formal global cresceu 13,21%, resultando numa queda de produtividade aparente da economia como um todo de -6,67%. Os dados para a Ind√ļstria Geral s√£o: VAB sobe 2,77%; emprego sobe 17,66%, e produtividade cai -12,65%. Para a IT temos: VAB decresce em -2,02%; emprego cresce 11,69%, e produtividade cai -12,28%. E ainda h√° quem duvide da capacidade do Messias de realizar milagres: na contram√£o de toda a teoria econ√īmica desde sempre, Bolsonaro conseguiu fazer com que um setor de atividade cujo valor da produ√ß√£o se encontrava em queda ampliasse o n√ļmero de empregados a uma taxa nada desprez√≠vel de 2,8%! .... O que de fato aconteceu no per√≠odo? Objetivamente, n√£o sabemos. Os relat√≥rios da RAIS apenas informam que o Minist√©rio do Trabalho e Emprego enfrentou a subnotifica√ß√£o e que a maior parte dos avan√ßos num√©ricos s√£o apenas registros de rela√ß√Ķes empregat√≠cias j√° existentes, mas n√£o notificadas. Como se deu isso? N√£o sabemos. Esperamos que o IBGE saiba como foi feito o ‚Äúajuste‚ÄĚ e n√£o use os novos dados para recalcular a evolu√ß√£o da produtividade da IT. Se o fizer, corremos o risco de ficar com a mais baixa produtividade industrial de todo o planeta.¬† Vamos aprofundar essa discuss√£o em nosso pr√≥ximo artigo para a s√©rie sobre desindustrializa√ß√£o que estamos escrevendo para a RED. Nele, analisaremos com mais detalhe o Quadro 3, acima e introduziremos dados oriundos do CEMPRE do IBGE. Mas ainda vamos trabalhar com a RAIS, pois ela gera informa√ß√Ķes com o n√≠vel m√°ximo de abertura por atividade e com as empresas estratificadas por porte. Al√©m disso, fornece dados sobre n√ļmero de empregados, n√ļmero de empresas, sal√°rios pagos e faturamento das firmas. Tantos benef√≠cios, por√©m, t√™m o seu custo: s√≥ podemos identificar a din√Ęmica das atividades na m√°xima abertura a partir de 2007, pois este √© o primeiro ano que o MTE adotou a nova CNAE (Classifica√ß√£o Nacional de Atividades Econ√īmicas). Mas j√° vamos dar uma ‚Äúpalinha‚ÄĚ para suscitar curiosidade.¬† De acordo com a RAIS, entre 2007 e 2022 a Ind√ļstria de Transforma√ß√£o criou 1.338.470 novos empregos. Dentre estes, 165.778 (12,39% do total) foram criados num ramo muito particular da ‚ÄúInd√ļstria‚ÄĚ de Transforma√ß√£o‚ÄĚ: AS PADARIAS. Mais: dos 165.778 novos empregados em padarias, 117.677 (70,98% do total) foram contratados em estabelecimentos com menos de 50 empregados. Perguntas que n√£o querem calar: Ser√° que o fato da participa√ß√£o das padarias na Ind√ļstria de Transforma√ß√£o ter crescido nos √ļltimos anos tem algo a ver com o fato de que importar p√£o quentinho √© quase t√£o dif√≠cil quanto estocar vento? O indicador mais simples de produtividade √© ‚Äú[(Lucros Brutos + Sal√°rios) / (N√ļmero de Trabalhadores)]‚ÄĚ. Quando a Ford fecha sua planta em Cama√ßari e o n√ļmero de padras cresce em todo o Brasil, o que acontece com a ‚Äúprodutividade m√©dia da IT‚ÄĚ? Imagine (ainda que a hip√≥tese seja inveross√≠mil) que os lucros brutos da Ford fossem iguais ao somat√≥rio dos lucros brutos de todas as novas padarias do Brasil. Ser√° que o n√ļmero de empregados dispensados pela Ford seria o mesmo que o n√ļmero de contratados pelas novas padarias? E, se o n√ļmero de contratados pelas padarias fosse maior, o que aconteceria com a produtividade m√©dia da IT brasileira? Tom Jobim sabia das coisas: o Brasil n√£o √© para principiantes. Neste pa√≠s, at√© mesmo comer p√£o pode ser a prova de que a produtividade industrial est√° caindo. *Diretor da Paradoxo Consultoria Econ√īmica e Professor do PPGDR-Faccat. **Estat√≠stico, Mestre em Planejamento Urbano e Regional e Diretor da Paradoxo Consultoria Econ√īmica. ¬ĻMuitos economistas, inclusive do campo progressista, tomaram como verdade inquestion√°vel a afirma√ß√£o dos tecnocratas do Bacen de que, desde 1999, o pa√≠s abandonou a ancoragem cambial e adotou a ‚ÄúPol√≠tica de Metas‚ÄĚ. O que ‚Äď estranhamente ‚Äď poucos se perguntam √©: 1) como √© definida a expectativa de infla√ß√£o futura para que, dada a infla√ß√£o passada, atinja-se a meta do ano? e 2) como √© avaliada a consist√™ncia da pol√≠tica monet√°ria com vistas ao atingimento da meta? Sabemos todos que o instrumento de pol√≠tica monet√°ria √© a taxa de juros. O que poucos parecem saber √© que a moderna teoria da infla√ß√£o ‚Äď mesmo no campo da ortodoxia! ‚Äď n√£o associa a efic√°cia da eleva√ß√£o da taxa de juros sobre a infla√ß√£o diretamente e primordialmente com depress√£o da demanda. Este impacto tamb√©m existe. Mas ele √© limitado e se associa, fundamentalmente, com a depress√£o dos investimentos capitalistas (pelo confronto entre lucros futuros prospectivos e ganhos financeiros imediatos). O impacto dos juros sobre a demanda de consumo √© m√≠nimo: quem, por Deus, deixa de adquirir algum bem de consumo por que a taxa b√°sica de juros foi elevada em meio ponto ou em um ponto percentual? Na verdade, o principal impacto dos juros sobre a infla√ß√£o √© indireto e passa pela taxa de c√Ęmbio. Com a eleva√ß√£o dos juros (e, por extens√£o, do diferencial da taxa interna e externa), amplia-se o fluxo de divisas para o pa√≠s. Parte dessas divisas excedentes √© colocada no mercado com vistas a valorizar o real e depreciar o d√≥lar, o que leva √† depress√£o dos pre√ßos dos bens importados e exportados. Mais: os economistas do Bacen t√™m absoluta clareza de que esse √© o impacto central dos juros sobre a infla√ß√£o. Se destrincharmos a parafern√°lia matem√°tica que determina a expectativa de infla√ß√£o futura a cada taxa de juros encontraremos uma vari√°vel chave, √† qual todas as demais est√£o subordinadas: a taxa de c√Ęmbio.¬† ¬≤As taxas negativas de varia√ß√£o do VAB em dois anos do primeiro mandato de Dilma Roussef √© uma das provas mais contundentes da inconsist√™ncia da tese (t√£o difundida entre economistas do PT) de que ‚Äútudo ia bem na economia brasileira durante os tr√™s mandatos populares e a inflex√£o na pol√≠tica econ√īmica adotada por Dilma a partir de 2015 √© totalmente incompreens√≠vel. A verdade √© que a performance da economia como um todo e, em especial, a performance da IT, vinha caindo ao longo dos governos petistas. Qualquer teste de correla√ß√£o entre passagem do tempo e taxas de varia√ß√£o do PIB e dos VABs setoriais demonstra este fato de forma cabal. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e n√£o necessariamente a posi√ß√£o editorial da RED. Se voc√™ concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para¬†redacaositered@gmail.com¬†. Ele poder√° ser publicado se atender aos crit√©rios de defesa da democracia.

O Projeto Nacional do Governo Jo√£o Goulart: 1¬į Ciclo de Forma√ß√£o da Juventude Trabalhista do PTB
Pol√≠tica na Veia | 73 | As insatisfa√ß√Ķes de Lula com minist√©rios
Bolsonarismo moderado existe? | com Guilherme Casar√Ķes | 225
AFRO GUETO URBANO

Vídeos de Parceiros

Ver todos vídeos de parceiros >

Vídeos da RED

RIO GRANDE DO SUL: CRISE OU OPORTUNIDADE? | Brasília Já #083
NEM A TRAG√ČDIA NO SUL IMPEDIR√Ā A VOTA√á√ÉO DOS VETOS PRESIDENCIAIS | Bras√≠lia J√° #082
ETREVISTA COM F√ĀTIMA TORRI | Esta√ß√£o Prata da Casa – 09/04/2024
GOVERNO MAL AVALIADO PELO BRASI | Brasília Já #080
Nossos parceiros

Elei√ß√Ķes Municipais

Com a

Fique por dentro,
acesse agora!