O Projeto Michelle e a disputa pela hegemonia no Brasil | Por Benedito Tadeu César

Durante décadas, Antonio Gramsci foi um dos autores mais combatidos pela direita brasileira. Paradoxalmente, a reorganização do PL Mulher por Michelle Bolsonaro revela que parte do campo conservador passou a investir justamente no trabalho permanente de base, elemento central da construção da hegemonia. A partir da investigação de Giullia Chechia e dos estudos de Jacqueline Moraes Teixeira, o artigo analisa como o Projeto Alicerça Brasil recupera métodos de formação de lideranças e organização social, estabelecendo um diálogo histórico com as células do PCB, as Comunidades Eclesiais de Base e os Núcleos de Base do PT. Mais do que um estudo sobre Michelle, a análise discute a disputa contemporânea pela hegemonia na sociedade civil.
Publicado em 14 de julho de 2026 às 16:00
Editado em 14 de julho de 2026 às 11:24

Como parte da direita brasileira passou a utilizar métodos de organização política que, durante décadas, foram associados aos partidos de esquerda.

Durante décadas, Antonio Gramsci, membro do Partido Comunista Italiano no início do século XX, foi tratado como patrimônio intelectual da esquerda. Seus conceitos de hegemonia, sociedade civil, direção moral e cultural e formação de lideranças marcaram cursos de formação política, universidades, sindicatos e movimentos sociais brasileiros, especialmente a partir do final dos anos 1970.

Mais tarde, já no início do século XXI, Gramsci transformou-se em um dos principais alvos da direita brasileira. No imaginário de Olavo de Carvalho, ideólogo apoiador de Bolsonaro, apenas Paulo Freire rivalizou com o pensador italiano como símbolo daquilo que chamava de “hegemonia da esquerda” e de “guerra cultural”.

Há uma ironia histórica nesse percurso.

Enquanto denunciava um suposto “gramscismo” infiltrado nas universidades, na mídia, na cultura e nas instituições, parte da direita acabou descobrindo, pela prática, aquilo que Gramsci procurava explicar teoricamente: em sociedades urbanas e complexas, nenhuma força política conquista e mantém o poder apenas com o uso da força. Antes disso, precisa conquistar a direção intelectual e moral da sociedade, construir organizações permanentes, formar dirigentes, produzir identidade coletiva, ocupar espaços na sociedade civil e transformar determinados valores em senso comum.

Sem jamais aderir ao pensamento de Gramsci — ao contrário, combatendo-o intensamente —, parte da direita passou a compreender empiricamente alguns dos mecanismos que sustentam a construção da hegemonia política.

Na prática partidária, poucos casos ilustram melhor esse fenômeno do que o trabalho desenvolvido por Michelle Bolsonaro à frente do PL Mulher.

A recente crise envolvendo Michelle, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro concentrou a atenção da imprensa como a disputa pela liderança do bolsonarismo. Mas talvez o aspecto politicamente mais relevante esteja em outro lugar.

Em extensa investigação baseada em pesquisa de campo, a jornalista Giullia Chechia, do Canal Meio, mostrou que Michelle liderou a construção de uma estrutura nacional que vai muito além de um departamento partidário convencional. O PL Mulher transformou-se em um espaço permanente de formação política, recrutamento de lideranças e articulação territorial.

A análise dialoga com os estudos da antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora da USP e pesquisadora do Cebrap, que identifica nesse processo a adaptação, ao ambiente partidário, de uma forma de organização consolidada nas igrejas evangélicas: pequenos grupos permanentes de convivência, formação e circulação de responsabilidades. No PL Mulher, essa metodologia ganhou expressão por meio do Projeto Alicerça Brasil, articulando a estrutura institucional da legenda a uma rede nacional de grupos locais voltados à formação política, ao fortalecimento de vínculos pessoais e à mobilização permanente de mulheres conservadoras.

Independentemente do julgamento político que se faça sobre seus objetivos, trata-se de um fenômeno organizacional que merece atenção. Esse talvez seja o principal fato político revelado no conflito da família Bolsonaro, pois indica uma mudança importante na forma como parte da direita brasileira passou a compreender a disputa pelo poder, passando a investir em algo que exige tempo, capilaridade e continuidade: o trabalho permanente de base.

Da célula comunista ao Projeto Alicerça Brasil

O método empregado pelo PL Mulher está longe de constituir uma novidade histórica. O que chama a atenção é quem passou a utilizá-lo.

Desde o final do século XIX, partidos socialistas e comunistas compreenderam que eleições, por si sós, eram insuficientes para construir projetos políticos duradouros. O velho Partido Comunista Brasileiro (PCB), assim como praticamente todas as organizações que viveram longos períodos de clandestinidade impostos pelos governos, estruturava-se por meio de pequenas células distribuídas por bairros, locais de trabalho, escolas e universidades. Elas garantiam a formação de militantes, a circulação de informações, a renovação das lideranças e a sobrevivência da organização mesmo sob intensa repressão.

No campo religioso, outra experiência marcou profundamente a história política brasileira. Inspiradas na Teologia da Libertação e nas conclusões da Conferência de Medellín, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) organizaram milhares de pequenas comunidades católicas em torno da leitura popular da Bíblia, da solidariedade e da justiça e da participação social. Durante a ditadura militar, tornaram-se importantes espaços de resistência democrática e de formação de lideranças populares, contribuindo para aproximar fé, organização comunitária e participação política. Foi desse ambiente religioso que emergiu parte significativa das lideranças fundadoras do Partido dos Trabalhadores no início dos anos 80.

Nos Núcleos de Base do partido articularam-se integrantes de pastorais religiosas, associações de moradores, sindicatos e movimentos sociais. Durante os anos 1980 e boa parte da década seguinte, constituíram um dos principais instrumentos de enraizamento social do partido.

Com o passar do tempo, entretanto, essa estrutura perdeu centralidade. A institucionalização do PT, sua crescente presença nos parlamentos e nos governos e a profissionalização das disputas eleitorais deslocaram parte importante da energia antes dedicada ao trabalho cotidiano de organização de base da sociedade.

É justamente nesse ponto que o Projeto Michelle chama a atenção. Guardadas todas as grandes diferenças ideológicas, ele recupera uma lógica organizacional conhecida: presença permanente nos territórios, proximidade com os problemas do segmento social a que se dirige, formação contínua de lideranças, fortalecimento dos vínculos comunitários e construção de redes capazes de permanecer ativas para além dos ciclos eleitorais.

E nesse ponto reside a principal ironia do processo.

Durante anos, Antonio Gramsci foi apresentado por setores da direita como o grande estrategista da conquista da sociedade civil pela esquerda. Enquanto isso, parte da própria direita passou a construir organizações permanentes, formar novas lideranças, fortalecer vínculos comunitários e ampliar sua presença territorial muito antes da disputa eleitoral.

O paralelo termina aí. As referências ideológicas, os valores defendidos e os projetos políticos permanecem profundamente distintos. O que aproxima essas experiências é a compreensão de que partidos fortes não se constroem apenas nas campanhas eleitorais. Eles dependem de organizações capazes de permanecer vivas quando não há eleição.

Capital social, organização e poder

A literatura clássica da Ciência Política oferece outras chaves para compreender esse fenômeno.

Quando Alexis de Tocqueville visitou os Estados Unidos, na primeira metade do século XIX, concluiu que a força da democracia americana dependia menos de sua Constituição do que da extraordinária capacidade da sociedade de criar associações voluntárias. Igrejas, clubes, cooperativas e organizações comunitárias aproximavam os cidadãos da vida pública e criavam hábitos permanentes de participação. Mais de um século depois, Robert Putnam desenvolveria um argumento semelhante ao formular o conceito de capital social: comunidades capazes de produzir relações estáveis de confiança, cooperação e reciprocidade tendem a apresentar maior capacidade de ação coletiva.

É sob essa perspectiva que a experiência do PL Mulher ganha significado. A estrutura descrita por Giullia Chechia não foi concebida apenas para selecionar candidatas ou organizar campanhas eleitorais. Seu objetivo é construir vínculos permanentes, formar novas lideranças e manter uma presença organizada do partido na sociedade, mesmo nos períodos em que não há eleições.

Essa estratégia ajuda a compreender também os papéis desempenhados por Damares Alves e por Valdemar Costa Neto. A investigação do Canal Meio mostra que parte da metodologia desenvolvida anteriormente no Mulheres Republicanas foi incorporada e ampliada pelo PL Mulher.

Ao mesmo tempo, Valdemar percebeu que fortalecer a organização feminina do partido significava muito mais do que ampliar candidaturas. Segundo levantamento realizado por Giullia Chechia a partir das prestações de contas de 2024, o PL destinou cerca de R$ 16,2 milhões ao PL Mulher — praticamente o dobro do investimento realizado pelo PT em sua secretaria nacional de mulheres e muito acima do mínimo legal destinado à promoção da participação partidária feminina.

O investimento revela que a direção do PL enxergava naquela estrutura um ativo estratégico para ampliar a presença territorial da legenda e fortalecer sua capacidade de eleger parlamentares em todo o país.

Os acontecimentos posteriores ajudam a compreender o peso político que essa estrutura adquiriu. Quando a disputa entre Michelle Bolsonaro e parte da família do ex-presidente passou a ameaçar a unidade do partido, Valdemar Costa Neto optou por uma solução reveladora. Em vez de desmontar o trabalho realizado, preservou a rede construída nos estados e municípios, mas extinguiu a presidência nacional do PL Mulher após a saída de Michelle, evitando que aquele espaço de poder organizacional se transformasse em mais um foco da disputa interna pelo comando do bolsonarismo.

A decisão é coerente com a lógica de um dirigente partidário. Para Jair Bolsonaro, Michelle ou Flávio Bolsonaro, a sucessão presidencial ocupa naturalmente o centro das preocupações. Para Valdemar, entretanto, a eleição para o Palácio do Planalto é apenas uma dimensão da estratégia. Seu objetivo maior é preservar a força institucional do PL, garantindo a eleição da maior bancada possível para a Câmara dos Deputados, o Senado, as assembleias legislativas e as câmaras municipais.

É dessa representação que decorrem recursos públicos, influência institucional, tempo de propaganda em meios de comunicação e capacidade de negociação política. Sob essa ótica, evitar que uma estrutura construída para fortalecer o partido se transformasse em instrumento de uma disputa entre correntes internas tornou-se uma prioridade.

Uma pergunta para os partidos progressistas

A experiência do PL Mulher suscita uma questão que ultrapassa a trajetória de Michelle Bolsonaro ou os conflitos internos do bolsonarismo. Ela recoloca no centro do debate um tema que marcou a história política brasileira durante grande parte do século XX: quem organiza hoje a sociedade civil?

Durante décadas, partidos de esquerda, sindicatos, movimentos populares e comunidades religiosas construíram redes permanentes de formação política e participação social. Foi essa capilaridade que permitiu ao PCB e a outros partidos comunistas que a partir dele se desenvolveram sobreviverem à clandestinidade, permitiu às Comunidades Eclesiais de Base formar milhares de lideranças populares e ao PT consolidar um dos maiores processos de enraizamento social já experimentados por um partido brasileiro.

Ao longo do tempo, entretanto, a crescente institucionalização partidária e a sucessão de disputas eleitorais reduziram a centralidade do trabalho cotidiano de organização de base. Ao mesmo tempo, setores da direita começaram a investir na formação permanente de quadros, na criação de redes territoriais e na construção de vínculos comunitários capazes de sobreviver aos ciclos eleitorais.

Os acontecimentos mais recentes parecem reforçar essa tendência. Depois de deixar a presidência nacional do PL Mulher, Michelle Bolsonaro passou a reorganizar sua atuação em torno do movimento Imparáveis, iniciativa voltada à articulação de candidatas, lideranças religiosas e militantes conservadoras. Independentemente de seus desdobramentos eleitorais, o episódio sugere que o patrimônio político construído nos últimos anos não dependia apenas de um cargo partidário, mas de uma rede de relações, lideranças e formas de organização capaz de sobreviver às mudanças na estrutura formal do partido.

Talvez resida aí a maior ironia da política brasileira contemporânea. Durante décadas, Antonio Gramsci foi apresentado por setores da direita como o principal formulador da hegemonia cultural da esquerda. Enquanto o combatiam, alguns desses mesmos setores passaram a compreender, por caminhos próprios e objetivos políticos inteiramente distintos, uma de suas intuições centrais: organizações permanentes moldam o terreno sobre o qual as eleições são disputadas.

A questão que permanece para os partidos progressistas é menos ideológica do que organizacional. Quem realiza hoje, de forma sistemática, esse trabalho de formação política e presença contínua na sociedade?

A resposta ajudará a compreender não apenas o futuro do bolsonarismo, mas também os desafios da esquerda e da própria democracia brasileira.


Este texto contou com a colaboração de Maria da Graça Pinto Bulhões.

Nota editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de inteligência artificial e revisada e editada pelo autor e pela equipe da Rede Estação Democracia (RED).

Ilustração da capa: O Projeto Michele e a disputa pela hegemonia – Imagem gerada por IA

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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