CORRESPONDENTE POLÍTICO | “O careca não pode atrasar”

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 14:00
Editado em 2 de setembro de 2026 às 11:11

O ministro André Mendonça quer que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, marque uma audiência aberta para debater os novos elementos da investigação sobre o caso Master que envolvem diretamente o ministro Alexandre de Moraes. Se Fachin marcar essa audiência, será a maior lavação da roupa suja da história do poder Judiciário na história da República brasileira. Em sua defesa, Moraes poderá dizer que não agiu para evitar que tal investigação prosseguisse e levasse mesmo o dono do Master, Daniel Vorcaro, à prisão. Mas terá, porém, que explicar por que razão Vorcaro insistemente lhe pedia para interferir nisso, para “bloquear a maldade e sacanagem” contra ele. Mais do que isso, por que foi o último a revisar o contrato de Vorcaro com o escritório de sua esposa, Viviane Barci, que recebia depósitos mensais de R$ 3,4 milhões.

Vorcaro parecia contar com intervenção

Vorcaro parecia contar com intervenção
Por que Fábio Faria mediou a relação entre Moraes e Vorcaro?Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Moraes ainda terá que explicar por que, após um pagamento de R$ 3,4 milhões para Viviane, há uma mensagem do ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro Fábio Faria dizendo: “O careca não pode esperar”. As 218 páginas da Pet 16662, que Mendonça tornou públicas na terça-feira e que detalham o que a Polícia Federal encontrou de conversas com Alexandre de Moraes no celular de Vorcaro parecem demonstrar que o banqueiro contava mesmo com a intervenção do ministro.

“Vai tudo pro saco”

No mesmo dia em que foi preso pela primeira vez, 17/09/2025, Vorcaro mandou uma mensagem para Moraes. Não se sabe o que o ministro respondeu porque ele ativou exclusão automática das mensagens. Mas Vorcaro parecia saber que algo aconteceria e pede a Moraes: “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém do banco fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco”. Andrei e Paulo seriam o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Fabio Faria na mediação

Um dos pontos importantes a se verificar nos próximos dias será o abandono dos corpos aliados pelo caminho. A oposição ligada a Flávio Bolsonaro apertou forte o acelerador. Lembrará que Fábio Faria, que cobra que “o careca não pode esperar”, foi ministro de Jair Bolsonaro? Por outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá segurar um ministro do STF que não indicou?

Fachin

Também na mesma linha de possíveis corpos abandonados pelo caminho, a grande incógnita no momento é como se comportará Edson Fachin e os demais ministros do Supremo. Quando o caso Master apontou as baterias para Dias Toffoli, foi ele quem articulou a saída negociada pela qual Toffoli deixu a relatoria do caso Master.

Saída

Ao agir assim, jogou o Master no colo de Mendonça. O que poderá fazer agora? Há saída negociada diante da quantidade de evidências apontadas na relação de Vorcaro com Moraes? Fará a tal sessão pública que deseja Mendonça? Havia até quem especulasse o contrário: a retirada de Mendonça da relatoria, o que parece muito improvável.

Política

Uma saída de Mendonça poderia ser dar diante do argumento de que ele estaria politizando a investigação, ao soltar informações aos poucos e constranger Moraes. Difícil é sustentar uma argumentação nessa linha. Politizar não seria tentar evitar que tal investigação avançasse? Não foi o que se acusou Toffoli de fazer?

Consequências

Um ponto, no entanto, que a investigação precisa avançar é quanto a que consequências efetivamente Vorcaro conseguiu obter a seu favor com a rede de proteção que teria comprado. Ele tinha gente dentro do Banco Central, mas não evitou a intervenção do banco. Tinha gente no Judicário, mas não evitou o processo contra ele e sua prisão.

Promiscuidade

O que, porém, as 218 páginas da Pet 16662 escancaram é como se opera a promiscuidade da troca de favores entre quem tem interesses e as autoridades. Discutia-se a possibilidade de levar o filho de Paulo Gonet, Pedro Gonet, com tudo pago para uma viagem a Londres para um seminário sobre o poder Judiciário. Iriam também advogados.

Ética

As mensagens chegam a falar do pagamento do leasing de um jatinho para Viviane Barci, além do dinheiro do contrato que seu escritório fechou com Vorcaro. Há algum tempo, Fachin propôs um código de ética para os ministros. Foi duramente rechaçado. Somente Cármen Lúcia ficou do seu lado. Algo precisa ser imediatamente rediscutido.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: No plenário do Supremo, vai se lavar a roupa suja. | Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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