Especialista em Brasil e América Latina, Peter Birle diz que pressão de Washington busca influenciar a eleição de 2026 e alerta para os riscos de um segundo governo da extrema direita
Da REDAÇÃO
O governo de Donald Trump está tentando interferir na eleição presidencial brasileira para favorecer a vitória de Flávio Bolsonaro.
A avaliação é do cientista político alemão Peter Birle, diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e um dos principais especialistas europeus em Brasil e América Latina.
Em entrevista à BBC News Brasil, publicada nesta sexta-feira, 12 de setembro, Birle não trata a ofensiva de Washington contra o governo Lula — tarifas, sanções, revogação de vistos e ataques políticos — como simples divergência diplomática.
Para ele, existe um objetivo eleitoral.
“Acho que Trump está tentando influir na eleição, porque eles querem um governo Bolsonaro e fazem tudo para que isso aconteça.”
E faz um alerta particularmente importante:
“É muito preocupante. E mais ainda porque muitas vezes funciona.”
Trump quer mudar o governo brasileiro
Birle considera a política de Washington contra o governo Lula “muito agressiva” e adverte que a ofensiva pode crescer com a aproximação da eleição.
“Talvez ainda não de forma tão aberta quanto na Argentina, mas é uma política muito agressiva contra o governo Lula. E não sabemos o que ainda pode acontecer nos próximos meses.”
O precedente argentino é importante.
Antes das eleições legislativas de outubro de 2025, Trump condicionou abertamente a ajuda financeira dos Estados Unidos a um resultado favorável às forças políticas ligadas ao presidente Javier Milei.
Birle resume:
“Eles deixaram claro que, se os argentinos não votassem nos partidos próximos de Milei, não haveria ajuda. E funcionou.”
Para o cientista político, uma vitória de Flávio Bolsonaro produziria uma mudança radical na relação do Brasil com Washington:
“Com um governo Bolsonaro, isso mudaria completamente: eles desejam outra relação com Washington.”
A questão ultrapassa, portanto, as divergências entre Lula e Trump. O que está em disputa é também a orientação internacional que o Brasil adotará depois das eleições.
A pressão pode produzir o efeito contrário
A interferência externa nem sempre funciona como pretendido.
Birle recorda a eleição argentina de 1946, quando os Estados Unidos tentaram impedir a vitória de Juan Domingo Perón.
A intervenção do embaixador estadunidense Spruille Braden acabou transformada pelos peronistas em uma questão de soberania nacional. O lema “Braden ou Perón” ajudou a mobilizar o eleitorado. Perón venceu.
No Brasil, admite Birle, a pressão de Trump também pode provocar reação.
“Não é uma política inteligente da parte de Trump, porque cria mais resistência do que uma postura construtiva geraria.”
Há uma razão histórica para isso. A busca por autonomia internacional não nasceu com Lula nem pertence exclusivamente à esquerda brasileira.
“O Brasil não é só o governo Lula. O país tem uma ideia do seu próprio lugar no mundo, do tratamento que merece.”
Assim, aquilo que pretende enfraquecer Lula pode terminar fortalecendo um discurso de defesa da soberania nacional.
Democracia saiu do centro da campanha
Outro alerta de Birle diz respeito à própria natureza da eleição de 2026.
Em 2022, a preservação da democracia estava no centro da disputa contra a continuidade do governo Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, embora a polarização permaneça elevada, outros assuntos assumiram o primeiro plano.
“As perguntas que dominam a campanha não são a democracia ou o risco de autoritarismo, mas a economia, a segurança pública, o crime organizado.”
Birle avalia que houve melhora democrática e socioeconômica nos primeiros anos do terceiro governo Lula em comparação com o período final do governo Bolsonaro.
Mas reconhece uma dificuldade central para o presidente: os indicadores econômicos não necessariamente correspondem à percepção cotidiana dos eleitores.
“Os números macroeconômicos não são ruins, mas a percepção da população, sobretudo neste ano, é outra.”
Por isso, considera a eleição aberta:
“As pesquisas indicam um provável segundo turno entre Lula e Flávio, com certa vantagem de Lula, mas sem garantia. Fica muito em aberto.”
América Latina virou “um campo muito à direita”
A eleição brasileira ocorre ainda em um continente profundamente diferente daquele encontrado por Lula em seus primeiros governos.
“A América Latina hoje é um campo muito à direita.”
Embora Lula tenha recuperado parte da presença internacional do Brasil, Birle considera que não conseguiu reconstruir o regionalismo latino-americano existente na primeira década deste século.
Trump, por sua vez, não buscaria relações estáveis e de longo prazo com os países da região.
“Ele quer acordos, quer gente que concorde com ele em tudo, como Milei. É uma política muito transacional.”
Nesse ambiente, o resultado da eleição brasileira pode alterar significativamente o equilíbrio político da América Latina.
O risco de um segundo governo da extrema direita
É neste ponto que Birle faz seu alerta institucional mais importante.
A apresentação relativamente moderada de Flávio Bolsonaro durante a campanha não significa, segundo ele, que um eventual governo seguiria necessariamente a mesma linha.
“Flávio pode fazer muitas coisas das quais agora não fala, porque tenta aparecer como mais moderado.”
Birle chama a atenção para um padrão observado em experiências internacionais de governos de extrema direita e cita a Hungria e o próprio Trump:
“É no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais.”
Embora Flávio nunca tenha ocupado a Presidência, a análise considera um eventual governo seu como continuidade política do ciclo iniciado por Jair Bolsonaro.
E Birle aponta uma consequência que considera provável:
“Com ele na Presidência, haveria uma anistia, e não só para ele. Não sabemos o que pode acontecer depois.”
STF foi fundamental para conter Bolsonaro
Birle também aborda o papel do Supremo Tribunal Federal.
“É verdade que o Supremo foi muito importante para defender a democracia durante o governo Bolsonaro.”
O pesquisador afirma não considerar que a Corte tenha ultrapassado suas competências, embora reconheça que sua crescente politização pode trazer riscos.
“Não tenho a impressão de que tenha passado das suas competências, mas entendo a discussão de que uma politização forte do tribunal também traz riscos.”
Sua conclusão sobre a experiência brasileira das últimas décadas, entretanto, é positiva:
“O Brasil tem muitas conquistas, e as instituições democráticas sobreviveram ao governo Bolsonaro.”
É justamente aí que está a principal advertência da entrevista.
O Brasil chega à eleição de 2026 com a defesa da democracia menos presente no centro do debate público do que estava há quatro anos.
Ao mesmo tempo, o governo da maior potência do continente procura, na avaliação de Birle, influenciar o resultado da eleição em favor da volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.
A democracia brasileira resistiu à primeira experiência. A história internacional, adverte o cientista político alemão, recomenda não subestimar os riscos de uma segunda.
Fonte: entrevista de Peter Birle a João Caminoto, da BBC News Brasil, publicada em 12 de setembro de 2026 e reproduzida pela Folha de S.Paulo.
Entrevista completa:
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/trump-tenta-interferir-na-eleicao-brasileira-e-o-preocupante-e-que-muitas-vezes-isso-funciona-diz-cientista-politico-alemao.shtml
Ilustração da capa: A mão de Donald Trump paira sobre o Brasil e a urna eletrônica, simbolizando a tentativa de interferência do governo estadunidense na eleição brasileira denunciada pelo cientista político Peter Birle. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

