Lula pode ganhar outra eleição.
Tomara.
Democracia tem dessas inconveniências: de vez em quando pergunta ao povo.
Mas há uma pergunta mais difícil do que saber quem vencerá:
O que fazer depois da vitória?
Haverá a tentação de comemorar a vitória como se ela fosse o programa.
Não é.
A extrema direita é inquietante. Embora “extrema direita” talvez seja uma categoria excessivamente generosa.
Há ideologia, claro.
Mas, sobretudo, picaretas profissionalizados.
Gente que fez da indignação um ofício e da mentira um método. Proveitoso.
Derrotá-los é importante.
Governar é outra coisa.
Lula representa algo raro na política brasileira. Um operário chegou à Presidência num país que sempre destratou trabalhadores.
Não é pouco.
Mas não basta.
O Brasil continua esperando crescer, industrializar, que o emprego deixe de ser favor e que o salário respire após as contas.
Espera há tanto tempo que a espera já virou registro.
Economistas explicarão que é preciso responsabilidade. Que o crescimento precisa ser sustentável. Que é preciso respeitar as expectativas.
Sobretudo as expectativas de quem vive delas.
Otávio, nosso recorrente economista da Faria Lima, estará tranquilo:
— Tem que ter parcimônia, né.
Parcimônia é uma palavra curiosa.
Quase nunca é pronunciada para quem se empanturra de juros.
Geralmente aparece quando alguém pede crescimento.
O Brasil construiu uma curiosa pedagogia da impossibilidade.
Se a economia cresce, preocupa. Se o salário aumenta, pressiona. Se o desemprego cai, ameaça.
Quando o Estado investe, gasta.
Quando paga juros, honra compromissos.
Tudo muito técnico, muito neutro e devidamente remunerado.
Lula conhece esse país.
Certamente, melhor que seus economistas.
Conhece o Brasil que pega ônibus cedo e parcela o supermercado.
Esse Brasil não pergunta se o resultado convergiu para o centro da banda.
Pergunta se a vida desbrutalizou.
É uma métrica de sobrevivência.
Uma nova vitória de Lula ocorrerá num mundo menos dócil. Soberania voltou ao vocabulário político. Indústria deixou de ser palavrão até nos países que passaram décadas recomendando aos outros que não tivessem uma.
Talvez seja uma oportunidade.
O Brasil já perdeu tantas.
Somos experientes nisso.
Temos recursos, universidades, trabalhadores e mercado interno. O que nos falta, frequentemente, é autorização para pensar.
Estamos sempre esperando o momento correto.
Até para deixar de esperar.
A inflação no lugar.
As contas em ordem.
A confiança do mercado.
Enquanto isso, uma geração padece.
O desenvolvimento fica para a próxima reunião do Copom.
Estabilidade não pode ser o destino de uma economia.
Um paciente perfeitamente estabilizado também pode estar numa UTI.
Se vencer, Lula terá diante de si uma escolha menos eleitoral que histórica.
Administrar melhor os limites.
Ou deslocá-los.
Governar para os pobres não pode significar apenas distribuir melhor o pouco que uma economia quase parada consegue produzir.
É preciso produzir mais e melhor.
Produzir coisas.
E produzir empregos que não precisem vir acompanhados de uma palestra sobre empreendedorismo.
Uma nova vitória de Lula não provará que o Brasil escolheu um projeto de desenvolvimento.
Provará apenas que lhe deu outra oportunidade de escolher.
Ganhar uma eleição permite comemorar por uma noite.
Na manhã seguinte, o país continua lá.
Com suas fábricas — as que restaram.
Com seus trabalhadores — os que restaram.
E com seus juros.
Esses, todos.
Lula poderá permanecer no Planalto.
Mas o Brasil precisa chegar a algum lugar.
Foto de capa: © Ricardo Stuckert/PR
Por que derrotar a extrema direita é apenas o primeiro passo e o verdadeiro desafio de Lula será deslocar os limites do crescimento e da souverania econômica.


