Há um texto que viralizou nas redes sociais e grupos de whatsapp – Em 4 de Outubro de 2026 o Brasil Será Julgado por Si Mesmo -, falsamente atribuído ao General Sérgio Pedro Coelho Lima (autoria já desmentida pelo boatos.org, tendo circulado antes com outras assinaturas, incluindo a de um tal “Jober Rocha” que se adjetiva como “um patriota”).
O texto apresenta um diagnóstico sobre os problemas do Brasil – corrupção, crime organizado, decadência educacional, peso tributário – que é em boa parte real e reconhecível, mas a “receita” implícita (repor no poder o campo político de 2019-2022) não se sustenta, porque aquele governo já foi testado exatamente nesses pontos e não só falhou como agravou os problemas.
Como é um texto que viralizou com falsas atribuições de sua autoria, vale a pena verificar cada um dos temas que aborda:
Corrupção/aparelhamento institucional: orçamento secreto, investigação das rachadinhas, joias sauditas, tentativa de interferência na cúpula da Polícia Federal e a trama golpista que resultou na condenação do ex-presidente e mais sete réus pelo STF (4 a 1).
Crime organizado: decretos de flexibilização de armas colocaram mais de 1 milhão de novas armas em circulação, sem evidência científica de redução da criminalidade, fortalecendo facções e milícias, o que também indica proximidade de setores daquele campo com milícias no Rio, amplamente documentada.
Educação: quatro ministros em quatro anos, cortes bilionários em universidades e pesquisa, escândalo de venda de cargos no MEC.
Carga tributária/tamanho do Estado: reforma tributária prometida em 2018 mas nunca enviada ao Congresso naquele mandato, só aprovada em 2023 no governo seguinte.
Política externa/soberania democrática: viagem a Moscou para reunião com Putin dias antes da invasão da Ucrânia; alinhamento com populistas autoritários.
Confiança institucional: ataques recorrentes e sem provas às urnas eletrônicas por lideranças daquele campo, gerando picos de desinformação.
Detalhe estrutural: em outubro de 2026 não há “governo Bolsonaro” na cédula — ele está inelegível e preso —, então a alternativa oferecida é um herdeiro do mesmo campo, não uma ruptura real.
A frase ao final do texto merece ser levada a sério, mas devolvida com outro significado: “povos também colhem aquilo que decidem tolerar.” Se o eleitor brasileiro conhece – porque já viveu – o resultado desse mesmo projeto político nos mesmos temas que o texto denuncia, e ainda assim decide entregar-lhe de novo o poder, agora sob a liderança escamoteada de um condenado por tentar destruir a própria democracia, é esse pacto consciente com a degradação que deveria assombrar o país.
Julgar o presente é justo. Mas nenhum julgamento é honesto se apaga a memória do que já foi tentado e como tudo terminou. A verdadeira ruptura com o ciclo de decadência não pode vir de quem já teve a chance de romper com ele e, em vez disso, aprofundou exatamente os mesmos problemas que hoje diz combater.
Foto de capa: IA


