O ouro que já não confia nos Estados Unidos

Holanda e França reduzem reservas de ouro sob custódia em Nova York, enquanto Paul Krugman alerta para a erosão de um dos principais ativos do poder estadunidense: a confiança internacional.
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 9:00
Editado em 6 de setembro de 2026 às 11:56
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Da REDAÇÃO*

Durante décadas, guardar toneladas de ouro nos cofres do Federal Reserve de Nova York significava colocar parte das reservas nacionais sob a proteção da principal potência financeira do planeta.

Agora, alguns países estão fazendo o caminho inverso.

Para o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, o significado vai muito além do destino de algumas toneladas de metal.

“America is no longer trusted” — “Os Estados Unidos já não são confiáveis”, escreveu Krugman em artigo publicado em 4 de setembro em seu Substack, sob o título Ingots We No Longer Trust (“Lingotes nos quais já não confiamos”).

A Holanda começa a tirar o ouro da América do Norte

O Banco Central da Holanda, o De Nederlandsche Bank (DNB), anunciou em 2 de setembro a transferência de cerca de 86 toneladas de ouro mantidas nos Estados Unidos e no Canadá para Londres, numa operação realizada entre março e agosto.

Antes, 31,3% das reservas holandesas estavam em Nova York e 19,7% em Ottawa. Agora, cada cidade conserva 18,5%. A parcela depositada em Londres saltou de 18,1% para 32,1%. Outros 30,8% permanecem na Holanda.

O país possui 612,4 toneladas de ouro, avaliadas em € 72,2 bilhões ao final de 2025.

A explicação oficial é prudente. Diante da “crescente instabilidade geopolítica”, o DNB diz buscar maior diversificação e preparação para crises.

“Com essa transferência, melhoramos a negociabilidade de nossas reservas de ouro. Esperamos nunca precisar utilizá-las, mas precisamos reforçar nossa resiliência e preparação”, afirmou o presidente do banco, Olaf Sleijpen.

Krugman, porém, enxerga na movimentação algo que não aparece no comunicado burocrático do banco central.

Quando a palavra dos Estados Unidos valia ouro

Krugman compara o ouro dos bancos centrais às famosas pedras rai da ilha de Yap, na Micronésia. Algumas são tão grandes que praticamente nunca são movimentadas. A pedra fica onde está; muda apenas seu proprietário.

Algo semelhante ocorre com as reservas internacionais. Bilhões de dólares em lingotes podem permanecer durante décadas nos mesmos cofres. Quando há uma transação, muitas vezes basta mudar contabilmente sua propriedade.

O Federal Reserve de Nova York tornou-se um dos grandes guardiões desse patrimônio mundial porque havia uma garantia aparentemente mais sólida do que as paredes de seus cofres: a palavra do governo dos Estados Unidos e seu respeito ao Estado de Direito.

Krugman resume a mudança:

“Or anyway, that’s the country we used to be.”

“Ou, pelo menos, esse era o país que costumávamos ser.”

O fator Trump

É aqui que o artigo deixa de tratar de ouro e passa a tratar de poder.

Para Krugman, Donald Trump deteriorou a confiança construída ao longo de décadas na previsibilidade institucional dos Estados Unidos. Ele aponta especialmente o desprezo do governo por compromissos internacionais e a imposição de tarifas em conflito com acordos anteriormente firmados pelo próprio país.

Daí sua conclusão provocadora: aquilo que antes pareceria absurdo — um governo estadunidense encontrar um pretexto para se apropriar de ouro estrangeiro depositado nos EUA — deixou, segundo ele, de ser completamente inconcebível.

A distinção é importante: essa é a interpretação de Krugman. O Banco Central holandês não afirma temer um confisco estadunidense. Fala oficialmente em instabilidade geopolítica, diversificação e preparação para crises.

Mas a decisão de reduzir a concentração das reservas em determinado país constitui, por si mesma, uma informação.

A França já retirou o seu

A Holanda não está sozinha.

A França concluiu entre julho de 2025 e janeiro de 2026 uma operação envolvendo 129 toneladas de ouro armazenadas em Nova York, cerca de 5% de suas reservas.

Os lingotes foram vendidos nos Estados Unidos e substituídos por ouro adquirido na Europa e armazenado em Paris. A justificativa francesa foi técnica, e o presidente do Banco da França, François Villeroy de Galhau, negou motivação política.

O resultado concreto, porém, permanece: 129 toneladas deixaram de estar sob custódia em Nova York.

O verdadeiro ativo é a confiança

O impacto financeiro imediato dessas operações é pequeno para uma economia do tamanho da estadunidense.

O impacto simbólico pode ser muito maior.

O poder dos Estados Unidos nunca dependeu apenas de porta-aviões, armas nucleares, PIB ou tamanho de seu mercado financeiro. Dependeu também de um ativo invisível: a convicção de governos, empresas e investidores de que contratos seriam respeitados, instituições continuariam funcionando e as regras não seriam alteradas segundo a conveniência política de quem ocupasse a Casa Branca.

É esse patrimônio que Krugman acredita estar sendo consumido.

“Foreign governments can no longer count on us to obey the most basic rules” — “Governos estrangeiros já não podem contar conosco para obedecer às regras mais básicas”, escreve.

Não se trata, portanto, apenas de ouro.

Trata-se da transformação da percepção internacional sobre os próprios Estados Unidos.

Krugman termina com um alerta: mesmo depois que Trump deixar o poder, serão necessários muitos anos de governos responsáveis e confiáveis para reparar o dano.

Os lingotes podem ser comprados novamente.

Confiança não.

*Pela Redação: BTC.


Crédito de autoria e fonte: Matéria elaborada pela Rede Estação Democracia a partir do artigo “Ingots We No Longer Trust”, de Paul Krugman, publicado em 4 de setembro de 2026 em seu Substack, com informações complementares do De Nederlandsche Bank (Banco Central da Holanda) e da Banque de France (Banco da França).

Ilustração da capa: Entrada do cofre de ouro do Federal Reserve Bank of New York, em Manhattan, onde governos e bancos centrais estrangeiros mantêm parte de suas reservas. Países europeus começam a reduzir o ouro sob custódia em Nova York. Crédito: Federal Reserve Bank of New York / domínio público.

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