Durante grande parte do século XX, os Estados Unidos construíram uma das estruturas de poder mais abrangentes da história contemporânea. A sua influência ultrapassou as fronteiras nacionais e estendeu-se ao domínio militar, económico, financeiro, tecnológico, diplomático e cultural. Depois da Segunda Guerra Mundial, Washington assumiu uma posição central na reconstrução da ordem internacional e, com o fim da Guerra Fria, essa posição pareceu atingir o seu ponto máximo. Os EUA emergiram como a principal superpotência mundial, sem um adversário capaz de desafiar, de forma imediata, a sua supremacia. Entretanto, o século XXI revelou as contradições dessa hegemonia. A ascensão da China, o fortalecimento de outras economias emergentes, a expansão dos BRICS, a crescente utilização de moedas nacionais no comércio internacional e o desgaste da influência militar e diplomática norte-americana indicam que o poder do país já não possui o mesmo caráter incontestado de décadas anteriores. A hegemonia americana perdeu sua capacidade de impor unilateralmente a sua vontade ao restante mundo.
O imperialismo norte-americano não pode ser entendido apenas através da ocupação territorial. Ao contrário dos antigos impérios europeus, os Estados Unidos construíram uma estrutura de influência baseada numa combinação de bases militares, alianças estratégicas, instituições financeiras, empresas multinacionais, domínio tecnológico, influência cultural e poder monetário. A ordem criada após 1945 (Bretton Woods) permitiu a Washington estabelecer uma rede global de alianças e instituições que garantiram aos EUA uma posição privilegiada na definição das regras do comércio e das finanças internacionais.
O dólar tornou-se uma das principais ferramentas dessa estrutura. A centralidade da moeda norte-americana permitiu aos EUA exercer influência sobre o sistema financeiro global. O fato de grande parte do comércio internacional, das reservas cambiais e das operações financeiras utilizar o dólar conferiu a Washington uma vantagem que ultrapassou a dimensão económica. Sanções, restrições financeiras e controlo sobre determinadas infraestruturas internacionais tornaram-se instrumentos de pressão geopolítica. Durante décadas, essa combinação de poder financeiro e militar contribuiu para sustentar a posição dos EUA como centro da ordem mundial.
Porém, o mesmo mecanismo que produziu poder começou a produzir resistência. A utilização cada vez mais intensa de sanções económicas levou alguns países a procurar alternativas para reduzir a sua exposição ao sistema financeiro dominado pelos EUA. A lógica é simples: quanto maior for a dependência de uma infraestrutura controlada por uma potência estrangeira, maior será a vulnerabilidade diante de decisões políticas dessa potência. Assim, a busca por autonomia financeira passou a fazer parte das estratégias de países que desejam reduzir a influência de Washington.
É nesse contexto que devem ser compreendidos a expansão dos BRICS, o aumento do comércio em moedas nacionais e o desenvolvimento de sistemas alternativos de pagamentos. O BRICS Pay, por exemplo, reside na alternativa de criar mecanismos que permitam aos países participantes realizar suas transações sem depender de uma moeda intermediária dominante. Quanto mais alternativas surgirem, menor será a necessidade de depender exclusivamente do sistema liderado pelos EUA.
A ascensão da China constitui o maior desafio estrutural à hegemonia americana. A China não é apenas uma potência económica; tornou-se uma das principais forças industriais, tecnológicas e comerciais do planeta. A sua enorme capacidade produtiva, a dimensão do mercado interno, a crescente influência sobre cadeias de abastecimento e a expansão das relações comerciais com África, Ásia, América Latina e Médio Oriente conferem a Pequim uma capacidade de projeção global que dificilmente existia algumas décadas atrás.
A importância dessa transformação está no facto de a China oferecer aos países parceiros uma alternativa económica que não depende necessariamente da mesma estrutura política e financeira associada aos Estados Unidos. Pequim investe em infraestruturas, comércio, energia, tecnologia e transportes em diferentes regiões do mundo. Ao mesmo tempo, procura ampliar a utilização internacional do renminbi e fortalecer os seus próprios sistemas financeiros. O resultado é a formação gradual de um espaço económico no qual a influência chinesa cresce independentemente das estruturas tradicionais do poder americano.
Essa realidade revela uma mudança essencial: muitos países já não aceitam a ideia de que precisam escolher permanentemente entre uma esfera de influência norte-americana e outra potência. O mundo está a tornar-se mais complexo. Países emergentes procuram negociar simultaneamente com diferentes centros de poder, escolhendo parceiros de acordo com interesses económicos e estratégicos. Essa autonomia é precisamente uma das características da ordem multipolar que começa a substituir a lógica de predominância absoluta de uma única potência.
O declínio do imperialismo americano também pode ser observado no campo militar. Durante décadas, os EUA possuíram uma capacidade extraordinária de projetar força em praticamente qualquer região do mundo. A extensa rede de bases militares, alianças e grupos de intervenção permitiu a Washington exercer influência global. Contudo, as experiências militares de décadas recentes demonstraram que superioridade tecnológica e poder de fogo não garantem vitórias políticas. As guerras do Afeganistão e do Iraque são exemplos particularmente significativos. O problema do imperialismo é precisamente esse: ocupar ou destruir é relativamente mais simples do que construir uma ordem política estável que seja aceite pela população local. A superioridade militar pode vencer batalhas, mas não consegue produzir legitimidade. Quando os resultados políticos ficam muito aquém dos objetivos anunciados, a credibilidade da potência interveniente é afetada.
Outro elemento fundamental da erosão da hegemonia americana é a transformação tecnológica. Durante décadas, os EUA estiveram na vanguarda de praticamente todas as grandes revoluções tecnológicas contemporâneas. Mas essa liderança já não é mais exclusiva. A China desenvolveu grandes capacidades em telecomunicações, inteligência artificial, veículos elétricos, energia renovável, comércio digital e infraestruturas tecnológicas. Outros países também aumentaram a sua capacidade de inovação. A consequência é uma dispersão gradual do poder tecnológico. Essa dispersão possui enorme significado geopolítico. Quem controla tecnologias estratégicas controla, também, cadeias de produção, informação, comunicações e infraestruturas críticas. Se a superioridade tecnológica deixar de estar concentrada num único país, a capacidade desse país de impor regras unilateralmente diminui.
O império americano, portanto, enfrenta uma contradição. Para preservar a sua influência global, precisa manter uma presença militar, financeira e diplomática. Essa presença possui custos elevados. Quanto maior a quantidade de recursos necessários para sustentar uma rede global de compromissos, maior a pressão sobre as finanças e sobre a política interna. O poder imperial contém uma espécie de paradoxo: a própria dimensão da estrutura que sustenta a hegemonia pode contribuir para criar as condições da sua erosão.
Por isso, a questão central não será simplesmente saber se os EUA deixarão de ser uma superpotência. O mundo está a tornar-se diversificado e economicamente complexo para permanecer submetido a uma única lógica de poder. A expansão dos BRICS é uma expressão dessa transformação. O futuro provavelmente não será americano nem exclusivamente chinês. Será multipolar, competitivo e marcado pela disputa entre diferentes centros de poder. O mundo está a mudar, e a maior transformação talvez seja precisamente esta: pela primeira vez em décadas, os EUA precisam enfrentar um cenário em que o seu poder já não é mais absoluto.
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