N.I.N.A. e desafios à soberania nacional | Por Arlindo Villaschi

Da crítica ao mito da IA à necessidade de regulação socioambiental: por que o Brasil precisa pautar a tecnologia e a soberania nas urnas e no debate democrático.
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 16:00
Editado em 4 de setembro de 2026 às 14:01

A chamada Inteligência Artificial (IA) se tornou uma das principais narrativas tecnológicas da atualidade. Por isso, vale destacar o alerta do neurocientista Miguel Nicolelis, segundo o qual há uma diferença fundamental entre a propaganda em torno da IA e aquilo que efetivamente existe.

Para ele, a expressão ‘inteligência artificial’ é, em si, enganosa. Primeiro porque, mais do que uma inteligência independente, o que acontece é uma poderosa aceleração dos processos de automação, processamento e reprodução de informações. Segundo, porque os sistemas atuais não são propriamente inteligentes, no sentido humano. Terceiro, tampouco são artificiais no sentido de algo autônomo em relação à sociedade.

São, antes de qualquer coisa, sistemas computacionais construídos, treinados e alimentados por enormes quantidades de dados produzidos por seres humanos, dependentes de infraestrutura física, energia, trabalho humano e decisões econômicas e políticas. Ou seja, não são nem inteligentes, nem artificiais (N.I.N.A.).

Assim, a questão central deixa de ser meramente tecnológica e precisa ser analisada levando em conta o modelo econômico e político que determina quem a controla, para que ela é utilizada e quem se apropria de seus benefícios. E há que se destacar que a atual corrida pela IA ocorre no Ocidente sob forte lógica especulativa.

Empresas disputam investimentos bilionários, capacidade computacional, dados, chips, profissionais especializados e infraestrutura, enquanto gestores de grandes fundos financeiros ampliam sua participação nessas corporações e ganham fortunas fazendo inversões financeiras em praticamente todos os setores relevantes da economia. Forma-se, assim, o perigoso conluio entre senhores feudais tecnológicos e um limitado número de gestores de fundos financeiros. O resultado é um reduzido número de empresas e gestores de fundos, que concentram recursos estratégicos capazes de influenciar mercados, governos, relações de trabalho, circulação de informações e até o debate público.

As consequências desse conluio são custos econômicos, sociais, ambientais e políticos que não aparecem nos discursos triunfalistas sobre inovação. Por um lado, grandes data centers demandam enormes quantidades de energia e água, além de equipamentos, terrenos e redes de infraestrutura.

Por outro, a automação pode aprofundar a precarização do trabalho, substituir determinadas atividades, sem garantir mecanismos adequados de transição profissional, e ampliar a concentração de renda e de riqueza. O paradoxo é evidente: vende-se a imagem de uma tecnologia capaz de democratizar o conhecimento, enquanto sua infraestrutura e seus meios de produção permanecem cada vez mais concentrados.

Entendidas essas consequências, dentre outras, as reações de governos e sistemas judiciários têm sido insuficientes, até o momento. Processos contra grandes plataformas — como o caso envolvendo o Facebook nos Estados Unidos e outras iniciativas em diferentes países e continentes —, demonstram possibilidades de enfrentamento dessas plataformas pelo poder público.

Enfrentamento, como o da União Europeia e países como o Brasil, que buscam estabelecer regras, multas e mecanismos de responsabilização. Ainda assim, quando as sanções representam apenas uma fração dos ganhos obtidos pelas empresas, o efeito financeiro e político tende a ser limitado. Se uma multa é incorporada ao custo operacional de uma corporação e não altera significativamente seu modelo de negócios, ela deixa de ser efetivamente um mecanismo de contenção.

Por isso, a resposta democrática não pode depender exclusivamente de multas posteriores às violações. É necessário diversificar os instrumentos de regulação e, sobretudo, atingir as bases materiais que sustentam a concentração de poder. Uma dessas medidas é estabelecer critérios rigorosos para a instalação e expansão de grandes data centers, considerando o consumo de energia, a elevada utilização de água, os impactos territoriais e as contrapartidas sociais. Não se trata de frear o desenvolvimento tecnológico, mas de impedir que sociedades arquem com os custos socioambientais de empreendimentos, cujos benefícios são privatizados e concentrados nas mãos de poucas pessoas.

Ao mesmo tempo, é fundamental estimular processos nacionais e públicos de apropriação tecnológica e inovação. Países e territórios não podem limitar-se ao papel de consumidores de plataformas produzidas por grandes corporações estrangeiras. Universidades, institutos de pesquisa, empresas nacionais, cooperativas e governos precisam desenvolver modelos, aplicações e infraestruturas próprias, utilizando a IA — ou melhor, os sistemas automatizados de processamento e geração de informação — segundo necessidades socioambientais e econômicas definidas democraticamente.

Essa estratégia precisa ser acompanhada de educação digital e formação política. Não basta ensinar a população a utilizar ferramentas de IA; necessário se faz que ela compreenda quem produz essas tecnologias, quem controla os dados e como funcionam seus modelos de negócio.

É preciso construir a compreensão de quais são seus impactos sobre o meio ambiente e o mundo do trabalho e de que maneira podem interferir na democracia. Uma cidadania digital efetiva exige conhecimento sobre tecnologia, economia, poder e direitos.

E, mais importante, há que se criar massa crítica que entenda que a questão IA vai muito além de sua dimensão tecnológica; que o cerne da questão é civilizatório. A concentração de poder econômico e político nas mãos de meia dúzia de bilionários do Vale do Silício, representa uma ameaça à soberania nacional, à democracia e à própria noção de cidadania. O Brasil, como país periférico no sistema global de produção tecnológica, tem que ir muito além do papel de mero consumidor passivo das inovações e das externalidades negativas, geradas pelos feudos tecnológicos.

Por isso, as eleições de 2026 se apresentam como uma oportunidade ímpar e inadiável para que o tema ocupe o centro do debate político no país. Debate que vai muito além de uma pauta técnica, geralmente circunscrita a especialistas. Debate que precisa entender que a questão IA atravessa a vida de cada cidadão. Seja porque afeta o futuro do trabalho e a forma como a renda gerada por suas atividades é distribuída. Seja porque ela tem implicações diretas sobre a qualidade da educação, a proteção da propriedade intelectual nacional, a preservação ambiental, a integridade da informação e a própria capacidade cognitiva das futuras gerações.

É imperativo que candidatos a todos os cargos eletivos — da presidência da República às assembleias legislativas estaduais — sejam confrontados com perguntas objetivas. Dentre essas: como e porquê regular a atuação das big techs em território nacional; como estados e União devem fomentar o desenvolvimento tecnológico soberano; como proteger quem trabalha da automação predatória; como garantir que os dados e a produção intelectual dos brasileiros não sejam apropriados sem compensação; como garantir investimentos suficientes para a educação digital crítica.

A sociedade civil organizada — com destaque para sindicatos, associações científicas, universidades, movimentos sociais, conselhos profissionais e a imprensa independente — tem o dever histórico de pautar essa agenda. Não basta replicar o debate raso entre os que se colocam a favor e contra a IA, como se fosse uma força da natureza. É preciso trazer à luz os interesses econômicos, as relações de poder, os custos ambientais e os impactos sociais que o marketing tecnológico insiste em ocultar.

O Brasil, que já desperdiçou o ciclo de expansão da internet, sem construir soberania digital significativa, não pode repetir o equívoco com a inteligência artificial. O momento é de organização, de esclarecimento e de ação política. Podemos — e devemos — decidir, coletivamente, o tipo de futuro que queremos construir.

Que 2026 seja, portanto, o ano em que a cidadania brasileira desperta para o engodo e exige participação sobre tema de seu mais relevante interesse. O futuro não está escrito em código de máquina; ele precisa ser forjado através do debate democrático plural e diverso, e pela vontade política de um povo que não pode ser reduzido a dados, seja enquanto consumidor ou como mão-de-obra descartável. A tecnologia deve servir à vida, e não o contrário.

Essa é a batalha política do nosso tempo. O Brasil precisa protagonizá-la com ampla participação social, em nome de sua soberania.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Arlindo Villaschi
Professor de Economia.

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