Todos os anos, o Pavilhão da Agricultura Familiar na Expointer consagra-se como uma vitrine de sucesso, inovação e excelência, onde histórias de vencedores revelam o potencial extraordinário das agroindústrias familiares gaúchas. Contudo, o brilho e a fartura expostos nas prateleiras do pavilhão revelam uma realidade profundamente distinta daquela vivenciada por grande parte das propriedades rurais do Rio Grande do Sul e do Brasil. Enquanto uma parcela dos agricultores caminha de vento em popa, muitos outros lutam diariamente para garantir a própria subsistência e a sucessão nas propriedades. Debater esse contraste exige colocar no centro da mesa duas questões estruturais: os modelos de produção e os modelos de comercialização, temas que ganham força nos debates promovidos por entidades como a Fetag e a Fetraf durante os dias de feira.
Para compreender esse abismo, é preciso analisar a disparidade na dimensão das áreas rurais. De um lado, encontram-se médias, grandes e gigantes propriedades que superam centenas ou milhares de hectares; de outro, pequenas unidades de 5, 10, 15 ou 20 hectares. A maior parte dos estabelecimentos do Estado caracteriza-se pela agricultura familiar, limitada a até quatro módulos fiscais, uma média de cerca de 20 hectares por propriedade, sem ultrapassar 100 hectares em nenhuma região. Para essas pequenas unidades, o modelo de produção predominante baseado na monocultura de grãos comercializados de forma in natura tornou-se inviável e insustentável. A isso somam-se as marcantes disparidades edafoclimáticas: enquanto regiões privilegiadas colhem de 70 a 100 sacas de soja por hectare, outras patinam em médias de 30 sacas. Fica evidente que a salvação da lavoura não reside na insistência de um modelo produtivo engessado, mas na escolha de alternativas adequadas a cada realidade.
Os debates trazidos à tona por pesquisas de organizações como a Fetraf escancaram essa fratura ao apontarem que 55% das pequenas propriedades tendem a não ter sucessão familiar, uma vez que os produtores já não vislumbram perspectivas para novos investimentos. Muitas unidades, consideradas tecnicamente “quebradas” há anos, sobrevivem artificialmente à base de políticas públicas assistenciais, mas continuam estagnadas por não mudarem o sistema produtivo. Nesses fóruns de discussão, aponta-se que a saída para a pequena propriedade passa obrigatoriamente pela diversificação e pela agregação de valor: seja plantando milho para alimentar animais e comercializar proteína e derivados como ovos e leite, seja migrando para a pluriatividade com o turismo rural, ou transformando o local em uma agroindústria familiar. A eficácia dessa guindada é corroborada por dados da Fetag, que revelam que 95% das agroindústrias presentes no pavilhão da Expointer estão com as dívidas em dia ou sequer possuem endividamento, contrastando com a crise financeira que sufoca o campo tradicional.
Avançar para além do diagnóstico exige que o debate econômico e social na Expointer se desdobre em ações concretas e sistêmicas. Nesse cenário, o papel das entidades representativas, sindicais e do cooperativismo ganha uma urgência ímpar. O cooperativismo gaúcho, historicamente essencial para o desenvolvimento agrário, não pode continuar financiando o fim dos pequenos estabelecimentos ao incentivar e comprar exclusivamente grãos, o que empurra o agricultor para um caminho sem saída. É imprescindível que as cooperativas ampliem o escopo de produtos adquiridos da agricultura familiar, de forma individual ou coletiva. Paralelamente, os sindicatos e os serviços de extensão rural precisam intensificar a formação e a mobilização, garantindo que os produtores tenham clareza sobre os diagnósticos de suas terras e sobre as transformações necessárias para assegurar um futuro viável.
Nessa rede de apoio, as universidades e os Institutos Federais presentes em todas as regiões do estado (somando-se à atuação fundamental das instituições de ensino superior comunitárias e das escolas técnicas municipais e estaduais), cumprem um papel estratégico indispensável. Ao unirem ensino, pesquisa e extensão, essas instituições trazem o rigor científico e a inovação tecnológica para o chão da realidade, auxiliando na transição dos sistemas produtivos, na qualificação da gestão e no suporte direto às agroindústrias e aos novos arranjos de mercado.
Por fim, toda essa articulação acadêmica, sindical e cooperativa ganha efetividade quando encontra respaldo no Estado e nas políticas públicas. É central que o poder público não atue de forma isolada, mas que essas políticas circulem e se moldem pelos horizontes estabelecidos coletivamente pelos atores sociais. Em suma, é imperativo que as diretrizes estatais sejam idealizadas, criadas e executadas em total harmonia com os anseios das organizações sociais, sindicais e cooperativas, garantindo que o desenvolvimento rural brote e floresça a partir das reais necessidades de quem vive e sustenta a terra.
Foto de capa: Divulgação Emater/RS-Ascar


