Em 2026, vamos escolher muito mais do que candidatos | Por Benedito Tadeu César

Da escravidão às desigualdades atuais, oportunidades foram distribuídas de forma profundamente desigual. Nas eleições de 2026, o voto para presidente, governador, senador e deputados também decidirá qual papel o Estado terá na construção de um país mais justo e desenvolvido.
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 12:00
Editado em 2 de setembro de 2026 às 11:13

Quando entrar na cabine de votação, o brasileiro não estará escolhendo apenas presidente, governador, senadores e deputados.

Estará decidindo algo maior: que país queremos construir e a serviço de quem queremos colocar o Estado brasileiro?

Essa é uma questão central das eleições de 2026.

Nossa enorme desigualdade não é obra do destino nem existe porque pobres trabalham pouco ou algumas famílias seriam naturalmente mais empreendedoras. Ela foi construída por decisões sobre terra, trabalho, educação, propriedade, crédito, infraestrutura e direitos.

Foram decisões políticas. E somente outras decisões políticas poderão mudar seus resultados.

A liberdade chegou. As oportunidades, não

Depois de quase quatro séculos de escravidão, o Brasil libertou os escravizados sem lhes assegurar terra, educação ou condições materiais para uma vida autônoma.

Nas cidades, libertos e seus filhos engrossaram uma população pobre que sobrevivia de biscates, serviços ocasionais e ocupações instáveis. E aconteceu uma inversão brutal: o Estado que não lhes ofereceu condições de integração passou a tratar a falta de ocupação regular como caso de polícia. O Código Penal de 1890 estabeleceu pena para a chamada “vadiagem”, atingindo justamente quem não possuísse profissão, ofício ou meios de subsistência reconhecidos.

Depois de séculos obrigados a trabalhar de graça, negros libertos e seus filhos podiam ser perseguidos porque não encontravam trabalho regular.

A exclusão vinha de antes. No Rio Grande do Sul, a legislação provincial de 1837 chegou a proibir de frequentar escolas públicas não apenas os escravizados, mas também os “pretos ainda que sejam livres ou libertos”. A proibição aos negros livres seria posteriormente retirada, mas revela como a desigualdade chegou a ser inscrita na própria lei.

Nos Estados Unidos, a Abolição tampouco trouxe igualdade. A tentativa de distribuir terras aos libertos no Sul, simbolizada pela promessa dos “40 acres”, foi em grande parte revertida. Racismo, segregação e violência continuariam por gerações.

Havia, porém, uma diferença importante. O Homestead Act de 1862 permitia reivindicar até 160 acres — cerca de 65 hectares — de terras públicas a cidadãos e também a imigrantes que já tivessem declarado formalmente a intenção de se naturalizar estadunidenses. Negros também puderam recorrer posteriormente a esse mecanismo, embora enfrentassem enormes obstáculos.

A expansão para o Oeste envolveu expulsão e violência contra povos indígenas. Mesmo assim, milhões de famílias tiveram uma possibilidade decisiva: transformar trabalho em propriedade.

Quando o esforço encontra oportunidades

No Brasil, parte dos imigrantes europeus também encontrou oportunidades que os libertos não tiveram.

No Sul e no Espírito Santo, governos organizaram colônias e abriram caminhos para a pequena propriedade. Em São Paulo, a imigração foi estimulada e, em determinados períodos, financiada pelo poder público.

Mas a vantagem não terminava na terra.

Comunidades de imigrantes criaram sociedades de socorro mútuo, associações, escolas e redes de parentes, vizinhos e conterrâneos. Por elas circulavam informações sobre empregos, ajuda e relações comerciais. Trabalhadores encontravam colocações; comerciantes, artesãos e pequenos empresários encontravam fornecedores e clientes.

Os imigrantes trabalharam duramente. Não se trata de negar seu esforço, mas de compreender que trabalho prospera quando encontra oportunidades, patrimônio, educação e redes que o sustentem.

Para grande parte da população negra, o ponto de partida foi radicalmente diferente — e seus efeitos atravessaram gerações. Em 2023, estavam abaixo da linha de pobreza 35,5% dos pretos e 30,8% dos pardos, contra 17,7% dos brancos, enquanto os indicadores sociais continuam registrando desvantagens da população negra em educação, trabalho, renda e condições de vida.

Quem consegue transformar trabalho em propriedade, negócio e educação transmite vantagens aos filhos. Quem trabalha apenas para sobreviver recomeça todos os dias.

Algumas gerações depois, as condições iniciais desaparecem da memória:

“Minha família chegou pobre, trabalhou e venceu.”

Daí para concluir que quem não venceu não trabalhou existe apenas um passo.

A vantagem histórica transforma-se em mérito — e a falta de oportunidades, em suposta falta de esforço.

E o trabalhador virou “preguiçoso”

O preconceito contra os nordestinos reproduziu mecanismo semelhante.

Milhões deixaram o Nordeste em busca de trabalho. Foram para os seringais amazônicos, as lavouras paulistas, as fábricas e a construção civil. Ajudaram a erguer Brasília.

Atravessaram milhares de quilômetros procurando trabalho.

E foram chamados de preguiçosos.

Primeiro com o negro e depois com o nordestino repetiu-se a inversão: coloca-se uma população nas piores posições sociais e depois sua pobreza é apresentada como prova de incapacidade.

A história pesa. Mas pesa também o que uma sociedade decide fazer com ela.

Países mudam quando decidem mudar

A experiência internacional mostra isso.

A Coreia do Sul realizou uma profunda reforma agrária antes de sua arrancada industrial e depois investiu em educação, planejamento, crédito, indústria e tecnologia.

A China seguiu outro caminho, combinando mercado e empresas privadas com planejamento, bancos e empresas públicas, infraestrutura e política industrial. Desde o início das reformas, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema, segundo o Banco Mundial.

Nenhum dos dois países é modelo político para o Brasil. Ambos viveram ou vivem experiências autoritárias. Mas demonstram algo fundamental: não ficaram esperando o mercado decidir sozinho seu futuro.

Os países europeus mostram a outra parte: tributação, previdência, saúde, educação e proteção social reduzem fortemente a desigualdade produzida pelo mercado.

Não existe milagre. Existem escolhas políticas.

Estado para quê? Estado para quem?

O Brasil também comprova isso.

O Cerrado não se tornou potência agrícola espontaneamente. Foram necessários estradas, crédito, pesquisa, correção dos solos e novas tecnologias. Embrapa e universidades públicas ajudaram a criar oportunidades aproveitadas por agricultores, empresas e trabalhadores.

Celso Furtado compreendeu o essencial: crescer não bastava. Era preciso transformar estruturas que reproduziam pobreza e desigualdade.

Por isso, “Estado ou mercado?” é uma falsa escolha.

A verdadeira pergunta é: Estado para quê? E para quem?

É isso que estará na urna

Aqui a história encontra as eleições de 2026.

O presidente orienta as grandes políticas nacionais, mas não governa sozinho. O Congresso decide orçamento, impostos, direitos e investimentos. Por isso importam deputados federais e senadores.

Governadores comandam educação, segurança, infraestrutura e políticas de desenvolvimento. As assembleias aprovam orçamentos, legislam e fiscalizam. Por isso importam governadores e deputados estaduais.

Não faz sentido eleger um presidente para realizar determinado projeto e entregar o Congresso a quem pretende impedi-lo.

Não existe voto menor nesta eleição.

O Brasil precisa voltar a pensar grande

Precisamos de um Estado social porque saúde, educação, alimentação digna e proteção na velhice devem ser direitos, não favores.

E de um Estado desenvolvimentista porque o Brasil precisa de infraestrutura, ciência, tecnologia, reindustrialização, agricultura moderna, transição energética, desenvolvimento regional, bons empregos e melhores salários.

Isso não significa combater a iniciativa privada.

O pequeno empresário precisa de crédito e consumidores. A indústria, de infraestrutura e mercado. O agricultor, de pesquisa e financiamento. O trabalhador, de emprego, salário e proteção.

Um país que cresce e distribui oportunidades interessa a todos eles.

E esse Estado precisa ser democrático. Nossa ditadura já demonstrou que Estado forte não significa necessariamente Estado social ou justo.

O desafio é construir uma maioria

A desigualdade também se protege colocando aqueles que estão embaixo e no meio uns contra os outros: o trabalhador contra quem recebe benefício social; o pequeno empresário contra o trabalhador; o sulista contra o nordestino; o branco pobre contra o negro.

Enquanto brigam entre si, pouco se discute sobre a concentração da renda, do patrimônio, das oportunidades e do poder.

O desafio é construir uma maioria de trabalhadores, setores médios, pequenos e médios empresários, agricultores, jovens e todos os que precisam de um país que cresça e distribua oportunidades.

É para isso que lideranças populares são fundamentais: transformar necessidades dispersas numa esperança compartilhada e numa ideia de país.

Cada voto ajudará a escolher um país

A eleição de 2026 decidirá se continuaremos tratando nossa desigualdade como fatalidade ou se voltaremos a enfrentá-la como um problema político.

Outros países fizeram escolhas que mudaram suas histórias. Nós também podemos fazer as nossas.

Precisamos de um Estado social que transforme necessidades em direitos; de um Estado desenvolvimentista que articule empresas, trabalhadores, ciência e investimento; e de uma maioria democrática capaz de sustentar esse projeto.

Não precisamos escolher entre desenvolvimento e justiça social. Precisamos fazer da justiça social uma força do desenvolvimento e do desenvolvimento um instrumento da justiça social.

Da Presidência da República à Assembleia Legislativa, escolher candidatos em 2026 será também escolher que Brasil queremos construir.


Ilustração da capa: O voto de 2026 coloca em disputa diferentes projetos de país e o papel do Estado na redução das desigualdades e na criação de oportunidades. Crédito: Ilustração gerada por inteligência artificial / RED.

Sobre o autor

Benedito Tadeu César - ChatGPT Image 14_02_2026, 18_08_34
Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para [email protected] . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático