Quando entrar na cabine de votação, o brasileiro não estará escolhendo apenas presidente, governador, senadores e deputados.
Estará decidindo algo maior: que país queremos construir e a serviço de quem queremos colocar o Estado brasileiro?
Essa é uma questão central das eleições de 2026.
Nossa enorme desigualdade não é obra do destino nem existe porque pobres trabalham pouco ou algumas famílias seriam naturalmente mais empreendedoras. Ela foi construída por decisões sobre terra, trabalho, educação, propriedade, crédito, infraestrutura e direitos.
Foram decisões políticas. E somente outras decisões políticas poderão mudar seus resultados.
A liberdade chegou. As oportunidades, não
Depois de quase quatro séculos de escravidão, o Brasil libertou os escravizados sem lhes assegurar terra, educação ou condições materiais para uma vida autônoma.
Nas cidades, libertos e seus filhos engrossaram uma população pobre que sobrevivia de biscates, serviços ocasionais e ocupações instáveis. E aconteceu uma inversão brutal: o Estado que não lhes ofereceu condições de integração passou a tratar a falta de ocupação regular como caso de polícia. O Código Penal de 1890 estabeleceu pena para a chamada “vadiagem”, atingindo justamente quem não possuísse profissão, ofício ou meios de subsistência reconhecidos.
Depois de séculos obrigados a trabalhar de graça, negros libertos e seus filhos podiam ser perseguidos porque não encontravam trabalho regular.
A exclusão vinha de antes. No Rio Grande do Sul, a legislação provincial de 1837 chegou a proibir de frequentar escolas públicas não apenas os escravizados, mas também os “pretos ainda que sejam livres ou libertos”. A proibição aos negros livres seria posteriormente retirada, mas revela como a desigualdade chegou a ser inscrita na própria lei.
Nos Estados Unidos, a Abolição tampouco trouxe igualdade. A tentativa de distribuir terras aos libertos no Sul, simbolizada pela promessa dos “40 acres”, foi em grande parte revertida. Racismo, segregação e violência continuariam por gerações.
Havia, porém, uma diferença importante. O Homestead Act de 1862 permitia reivindicar até 160 acres — cerca de 65 hectares — de terras públicas a cidadãos e também a imigrantes que já tivessem declarado formalmente a intenção de se naturalizar estadunidenses. Negros também puderam recorrer posteriormente a esse mecanismo, embora enfrentassem enormes obstáculos.
A expansão para o Oeste envolveu expulsão e violência contra povos indígenas. Mesmo assim, milhões de famílias tiveram uma possibilidade decisiva: transformar trabalho em propriedade.
Quando o esforço encontra oportunidades
No Brasil, parte dos imigrantes europeus também encontrou oportunidades que os libertos não tiveram.
No Sul e no Espírito Santo, governos organizaram colônias e abriram caminhos para a pequena propriedade. Em São Paulo, a imigração foi estimulada e, em determinados períodos, financiada pelo poder público.
Mas a vantagem não terminava na terra.
Comunidades de imigrantes criaram sociedades de socorro mútuo, associações, escolas e redes de parentes, vizinhos e conterrâneos. Por elas circulavam informações sobre empregos, ajuda e relações comerciais. Trabalhadores encontravam colocações; comerciantes, artesãos e pequenos empresários encontravam fornecedores e clientes.
Os imigrantes trabalharam duramente. Não se trata de negar seu esforço, mas de compreender que trabalho prospera quando encontra oportunidades, patrimônio, educação e redes que o sustentem.
Para grande parte da população negra, o ponto de partida foi radicalmente diferente — e seus efeitos atravessaram gerações. Em 2023, estavam abaixo da linha de pobreza 35,5% dos pretos e 30,8% dos pardos, contra 17,7% dos brancos, enquanto os indicadores sociais continuam registrando desvantagens da população negra em educação, trabalho, renda e condições de vida.
Quem consegue transformar trabalho em propriedade, negócio e educação transmite vantagens aos filhos. Quem trabalha apenas para sobreviver recomeça todos os dias.
Algumas gerações depois, as condições iniciais desaparecem da memória:
“Minha família chegou pobre, trabalhou e venceu.”
Daí para concluir que quem não venceu não trabalhou existe apenas um passo.
A vantagem histórica transforma-se em mérito — e a falta de oportunidades, em suposta falta de esforço.
E o trabalhador virou “preguiçoso”
O preconceito contra os nordestinos reproduziu mecanismo semelhante.
Milhões deixaram o Nordeste em busca de trabalho. Foram para os seringais amazônicos, as lavouras paulistas, as fábricas e a construção civil. Ajudaram a erguer Brasília.
Atravessaram milhares de quilômetros procurando trabalho.
E foram chamados de preguiçosos.
Primeiro com o negro e depois com o nordestino repetiu-se a inversão: coloca-se uma população nas piores posições sociais e depois sua pobreza é apresentada como prova de incapacidade.
A história pesa. Mas pesa também o que uma sociedade decide fazer com ela.
Países mudam quando decidem mudar
A experiência internacional mostra isso.
A Coreia do Sul realizou uma profunda reforma agrária antes de sua arrancada industrial e depois investiu em educação, planejamento, crédito, indústria e tecnologia.
A China seguiu outro caminho, combinando mercado e empresas privadas com planejamento, bancos e empresas públicas, infraestrutura e política industrial. Desde o início das reformas, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema, segundo o Banco Mundial.
Nenhum dos dois países é modelo político para o Brasil. Ambos viveram ou vivem experiências autoritárias. Mas demonstram algo fundamental: não ficaram esperando o mercado decidir sozinho seu futuro.
Os países europeus mostram a outra parte: tributação, previdência, saúde, educação e proteção social reduzem fortemente a desigualdade produzida pelo mercado.
Não existe milagre. Existem escolhas políticas.
Estado para quê? Estado para quem?
O Brasil também comprova isso.
O Cerrado não se tornou potência agrícola espontaneamente. Foram necessários estradas, crédito, pesquisa, correção dos solos e novas tecnologias. Embrapa e universidades públicas ajudaram a criar oportunidades aproveitadas por agricultores, empresas e trabalhadores.
Celso Furtado compreendeu o essencial: crescer não bastava. Era preciso transformar estruturas que reproduziam pobreza e desigualdade.
Por isso, “Estado ou mercado?” é uma falsa escolha.
A verdadeira pergunta é: Estado para quê? E para quem?
É isso que estará na urna
Aqui a história encontra as eleições de 2026.
O presidente orienta as grandes políticas nacionais, mas não governa sozinho. O Congresso decide orçamento, impostos, direitos e investimentos. Por isso importam deputados federais e senadores.
Governadores comandam educação, segurança, infraestrutura e políticas de desenvolvimento. As assembleias aprovam orçamentos, legislam e fiscalizam. Por isso importam governadores e deputados estaduais.
Não faz sentido eleger um presidente para realizar determinado projeto e entregar o Congresso a quem pretende impedi-lo.
Não existe voto menor nesta eleição.
O Brasil precisa voltar a pensar grande
Precisamos de um Estado social porque saúde, educação, alimentação digna e proteção na velhice devem ser direitos, não favores.
E de um Estado desenvolvimentista porque o Brasil precisa de infraestrutura, ciência, tecnologia, reindustrialização, agricultura moderna, transição energética, desenvolvimento regional, bons empregos e melhores salários.
Isso não significa combater a iniciativa privada.
O pequeno empresário precisa de crédito e consumidores. A indústria, de infraestrutura e mercado. O agricultor, de pesquisa e financiamento. O trabalhador, de emprego, salário e proteção.
Um país que cresce e distribui oportunidades interessa a todos eles.
E esse Estado precisa ser democrático. Nossa ditadura já demonstrou que Estado forte não significa necessariamente Estado social ou justo.
O desafio é construir uma maioria
A desigualdade também se protege colocando aqueles que estão embaixo e no meio uns contra os outros: o trabalhador contra quem recebe benefício social; o pequeno empresário contra o trabalhador; o sulista contra o nordestino; o branco pobre contra o negro.
Enquanto brigam entre si, pouco se discute sobre a concentração da renda, do patrimônio, das oportunidades e do poder.
O desafio é construir uma maioria de trabalhadores, setores médios, pequenos e médios empresários, agricultores, jovens e todos os que precisam de um país que cresça e distribua oportunidades.
É para isso que lideranças populares são fundamentais: transformar necessidades dispersas numa esperança compartilhada e numa ideia de país.
Cada voto ajudará a escolher um país
A eleição de 2026 decidirá se continuaremos tratando nossa desigualdade como fatalidade ou se voltaremos a enfrentá-la como um problema político.
Outros países fizeram escolhas que mudaram suas histórias. Nós também podemos fazer as nossas.
Precisamos de um Estado social que transforme necessidades em direitos; de um Estado desenvolvimentista que articule empresas, trabalhadores, ciência e investimento; e de uma maioria democrática capaz de sustentar esse projeto.
Não precisamos escolher entre desenvolvimento e justiça social. Precisamos fazer da justiça social uma força do desenvolvimento e do desenvolvimento um instrumento da justiça social.
Da Presidência da República à Assembleia Legislativa, escolher candidatos em 2026 será também escolher que Brasil queremos construir.
Ilustração da capa: O voto de 2026 coloca em disputa diferentes projetos de país e o papel do Estado na redução das desigualdades e na criação de oportunidades. Crédito: Ilustração gerada por inteligência artificial / RED.


