Modelo probabilístico da RED estima Lula com 45,3% e Flávio Bolsonaro com 43,8% no segundo turno. Presidente lidera também no primeiro, mas vitória sem segundo turno é hoje muito improvável
Luiz Inácio Lula da Silva chega ao final de agosto à frente de Flávio Bolsonaro na corrida pela Presidência da República, mas a vantagem está longe de indicar uma eleição definida.
Um modelo de agregação das pesquisas nacionais, desenvolvido para acompanhar semanalmente a disputa eleitoral, estima Lula com aproximadamente 45,3% e Flávio Bolsonaro com 43,8% em um eventual segundo turno — diferença de apenas 1,5 ponto percentual.
Considerada também a divergência existente entre os diferentes institutos, o modelo estima em cerca de 65% a probabilidade de Lula estar efetivamente à frente de Flávio no atual estágio da disputa, contra aproximadamente 35% de probabilidade de o senador estar à frente.
A distinção é fundamental: 65% não é a intenção de voto de Lula nem significa, neste momento, que ele tenha 65% de probabilidade de vencer a eleição em outubro. É uma estimativa probabilística da posição atual dos dois candidatos, calculada a partir das pesquisas disponíveis e da incerteza existente entre elas.
O quadro mostra, portanto, favoritismo de Lula, mas também uma eleição competitiva, na qual uma mudança relativamente pequena do eleitorado pode inverter as posições.
Primeiro turno: Lula lidera, mas está longe dos 50%
No primeiro turno, as pesquisas também colocam Lula na liderança.
O agregador do UOL, que reúne levantamentos presidenciais registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), chegou ao final de agosto com 39,6% para Lula e 33,9% para Flávio Bolsonaro, diferença de 5,7 pontos. Augusto Cury aparece com 4,2%, Ronaldo Caiado com 4,7% e Renan Santos com 3,9%.
Os dois levantamentos divulgados em 31 de agosto mostram diferenças consideráveis.
A AtlasIntel/Bloomberg encontrou 43,4% para Lula e 33,7% para Flávio, com Augusto Cury chegando a 7,8% e Renan Santos a 7,6%. Foram entrevistados 5.014 eleitores entre 25 e 30 de agosto, com margem de erro de um ponto percentual.
Já a BTG/Nexus encontrou, em seu principal cenário, 39% para Lula, 33% para Flávio e 11% para Cury. Foram realizadas 2.005 entrevistas entre 28 e 30 de agosto, com margem de erro de dois pontos.
Há, portanto, uma diferença importante entre liderar o primeiro turno e ter condições de vencê-lo.
Para liquidar a eleição no primeiro turno, Lula precisa obter mais da metade dos votos válidos. Os levantamentos atuais não indicam que ele esteja próximo dessa marca.
Convertidos os resultados disponíveis para votos válidos e considerada a dispersão entre os institutos, Lula aparece atualmente em torno de 42% a 43% dos votos válidos.
Isso o coloca aproximadamente sete a oito pontos abaixo dos 50% necessários.
Se a eleição refletisse o quadro captado atualmente pelas pesquisas, a probabilidade estatística de Lula ultrapassar a barreira dos 50% já no primeiro turno seria inferior a 1%.
Isso não significa que Lula tenha menos de 1% de possibilidade de chegar aos 50% até o dia da eleição. A campanha ainda pode alterar as intenções de voto. O número significa apenas que o estado atual das pesquisas aponta fortemente para a realização de um segundo turno.
O crescimento recente de Augusto Cury também contribui para esse cenário. Quanto maior a parcela de votos destinada aos demais candidatos, mais difícil se torna para Lula — ou para qualquer outro concorrente — alcançar a maioria absoluta dos votos válidos.
Segundo turno é muito mais apertado
É quando a disputa fica restrita a Lula e Flávio Bolsonaro que a vantagem do presidente diminui substancialmente.
O modelo de agregação utilizado pela RED estima:
Lula — 45,3%
Flávio Bolsonaro — 43,8%
Diferença — 1,5 ponto percentual para Lula
Os levantamentos individuais mostram uma dispersão considerável.
A AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 31 de agosto encontrou 47,1% para Lula e 42,6% para Flávio, vantagem de 4,5 pontos. Na rodada anterior da Atlas, Lula tinha 49,2% e Flávio 42,9%, o que mostra redução da distância entre os dois.
A BTG/Nexus, divulgada no mesmo dia, apresentou quadro bem mais apertado: 46% para Lula e 45% para Flávio, diferença de apenas um ponto.
A PoderData/Aya, divulgada em 27 de agosto, também encontrou apenas um ponto de vantagem: 45% a 44% para Lula.
Já a Vox Brasil, divulgada em 29 de agosto, colocou Flávio numericamente à frente, com 45,1% contra 44,5% de Lula, diferença de 0,6 ponto e dentro da margem de erro de 2,15 pontos. Foram entrevistados 2.100 eleitores entre 25 e 27 de agosto.
É justamente essa dispersão — pesquisas que vão de uma vantagem relativamente confortável de Lula a uma pequena vantagem de Flávio — que torna inadequado interpretar a eleição a partir de um levantamento isolado.
Como funciona o agregado da RED
O modelo utilizado pela RED é um modelo próprio de agregação probabilística, inspirado em princípios empregados pelos sistemas modernos de previsão eleitoral, entre eles os popularizados nos Estados Unidos pelo estatístico Nate Silver, mas adaptado às características da eleição brasileira.
As pesquisas não recebem automaticamente o mesmo peso.
A recência é considerada. Levantamentos mais novos recebem maior influência, enquanto o peso das pesquisas diminui progressivamente à medida que envelhecem.
A precisão também conta. Tamanho da amostra e margem de erro influenciam a ponderação, mas com limites para impedir que uma única pesquisa muito grande domine o agregado.
O método de coleta é observado. Pesquisas presenciais, telefônicas e digitais podem alcançar parcelas diferentes do eleitorado e apresentar características próprias.
O modelo também procura impedir que institutos que publiquem levantamentos com maior frequência adquiram peso excessivo apenas pela quantidade de pesquisas realizadas. Duas pesquisas sucessivas da mesma empresa não equivalem a duas observações inteiramente independentes.
Nesta primeira versão, não são aplicadas correções específicas de house effects — tendências persistentes de determinados institutos apresentarem um candidato acima ou abaixo da média. À medida que a campanha produzir séries mais longas, esse componente poderá ser incorporado.
Outro elemento fundamental é a divergência entre os institutos.
Quando pesquisas realizadas praticamente no mesmo período apresentam resultados bastante diferentes — como ocorre atualmente —, isso indica que a incerteza é maior do que aquela sugerida apenas pelas margens de erro individuais.
É dessa combinação entre média ponderada e incerteza que surge a estimativa probabilística.
O que significam os 65%
A diferença entre Lula e Flávio no agregado é pequena: apenas 1,5 ponto.
Ainda assim, Lula aparece com aproximadamente 65% de probabilidade de estar à frente, contra 35% de Flávio.
Não há contradição.
Imagine milhares de resultados possíveis compatíveis com as pesquisas existentes. Como a distribuição está ligeiramente deslocada para o lado de Lula, ele aparece à frente em aproximadamente 65% dessas possibilidades. Flávio aparece à frente nas demais.
Muitas das situações favoráveis a Lula, entretanto, representam vitórias por margens muito pequenas.
Por isso, 65% significa favoritismo, não segurança.
E há uma ressalva ainda mais importante: o cálculo mede o estado atual da disputa. Não incorpora, nesta primeira versão, toda a incerteza decorrente do período que ainda resta até a votação.
Debates, propaganda eleitoral, acontecimentos políticos, desempenho dos candidatos, transferência dos votos dos concorrentes eliminados e mudanças tardias de opinião podem modificar a corrida.
Por essa razão, a RED não apresenta neste momento os 65% como “probabilidade de Lula vencer a eleição”, mas como probabilidade estimada de ele estar à frente de Flávio no quadro atual.
O placar do agregado da RED
Primeiro turno
Lula: cerca de 40%
Flávio Bolsonaro: cerca de 34%
Lula em votos válidos: aproximadamente 42% a 43%
Probabilidade de vitória de Lula no primeiro turno se prevalecesse o quadro atual: inferior a 1%
Segundo turno
Lula: 45,3%
Flávio Bolsonaro: 43,8%
Vantagem de Lula: 1,5 ponto percentual
Probabilidade de Lula estar à frente: aproximadamente 65%
Probabilidade de Flávio estar à frente: aproximadamente 35%
Favoritismo sem eleição decidida
O retrato de 31 de agosto permite duas conclusões simultâneas.
A primeira é que Lula continua sendo o favorito. Lidera o primeiro turno e aparece à frente de Flávio Bolsonaro no agregado do segundo.
A segunda é igualmente importante: a eleição está aberta.
A vantagem estimada de 1,5 ponto no confronto direto é pequena e os institutos apresentam divergências consideráveis. Basta observar que, entre pesquisas divulgadas num intervalo de poucos dias, a Atlas dá Lula 4,5 pontos à frente, Nexus e PoderData dão apenas um ponto e Vox Brasil registra Flávio 0,6 ponto à frente.
No primeiro turno, por outro lado, o cenário atual torna altamente provável a necessidade de uma segunda votação. Lula lidera, mas permanece distante da maioria absoluta dos votos válidos.
Assim, o melhor resumo da corrida presidencial neste final de agosto não é que Lula tenha a eleição encaminhada nem que haja um empate absoluto.
É este:
Lula lidera e é o favorito estatístico, mas a distância para Flávio Bolsonaro é suficientemente pequena para que a eleição permaneça competitiva. E, no quadro atual, o segundo turno é amplamente mais provável do que uma vitória antecipada do presidente.
Nota metodológica
Esta é a primeira edição do Agregado de Pesquisas da RED, que será atualizado semanalmente durante a campanha presidencial.
A estimativa combina pesquisas nacionais registradas no TSE, atribuindo pesos conforme recência, precisão e características dos levantamentos, além de considerar a correlação entre pesquisas do mesmo instituto e a dispersão existente entre diferentes empresas.
Os percentuais probabilísticos não constituem pesquisas de intenção de voto nem previsões determinísticas do resultado eleitoral. São estimativas produzidas pelo modelo a partir das informações disponíveis na data de corte.
Data de corte: 31 de agosto de 2026.
Ilustração da capa: Agregado de pesquisas da RED aponta Lula à frente de Flávio Bolsonaro no segundo turno por apenas 1,5 ponto percentual. Considerada a dispersão entre os levantamentos, o modelo estima em 65% a probabilidade de Lula estar à frente no quadro atual da disputa. Crédito: Ilustração: RED, com uso de inteligência artificial.

