Mendonça aplica critérios diferentes a Flávio e Lula no TSE

Decisões de André Mendonça no TSE revelam tratamento diferente a acusações envolvendo Flávio Bolsonaro e Lula/PT e levantam dúvidas sobre o equilíbrio na disputa eleitoral.
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 9:00
Editado em 31 de agosto de 2026 às 21:15
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Ministro mandou retirar publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro ao crime organizado, mas rejeitou pedido contra vídeo do próprio candidato que colocava o PT ao lado do PCC e do Comando Vermelho; plenário do TSE derrubou sua posição por 5 votos a 2

Da REDAÇÃO

Um vídeo da campanha de Marcelo Freixo (PT-RJ) a deputado federal recupera episódios documentados da trajetória política de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro: homenagens a policiais posteriormente acusados ou condenados por crimes graves, a contratação de familiares de Adriano da Nóbrega em seu gabinete e alianças com personagens que mais tarde passaram a ser investigados.

Os fatos têm interesse público, especialmente porque Flávio disputa a Presidência apresentando o combate ao crime organizado como uma de suas principais bandeiras. Mas o vídeo também chama a atenção para outra questão: o tratamento dado pelo ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a acusações envolvendo Flávio e Lula.

Em junho, Mendonça determinou a retirada de publicações dos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) que relacionavam Flávio Bolsonaro ao crime organizado.

Pouco depois, diante de um vídeo publicado pelo próprio Flávio que colocava o PT visualmente ao lado do PCC e do Comando Vermelho, o ministro adotou outro critério: rejeitou o pedido para retirá-lo do ar.

O plenário do TSE posteriormente derrubou sua decisão por 5 votos a 2. Mendonça foi um dos dois ministros que votaram para manter o vídeo de Flávio.

O que as publicações contra Flávio mostravam

As postagens retiradas por decisão de Mendonça reuniam personagens e episódios relacionados à trajetória de Flávio e utilizavam a expressão “Flávio Bolsonaro e relações com o crime organizado”.

Parte substancial dos fatos mencionados é documentada.

Levantamento publicado pelo UOL em 2022 pelas jornalistas Juliana Dal Piva e Elenilce Bottari constatou que Flávio e Carlos Bolsonaro propuseram homenagens a pelo menos 16 policiais posteriormente denunciados pelo Ministério Público do Rio como integrantes de organizações criminosas.

Entre eles estava o major Edson Raimundo dos Santos, homenageado por Flávio em 2008 e posteriormente condenado a 13 anos e sete meses de prisão pela tortura, morte e desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza.

Outro homenageado foi o major Ronald Paulo Alves Pereira, que recebeu uma moção de louvor proposta por Flávio em 2004 e, anos depois, foi apontado em investigação como chefe de milícia na região da Muzema e preso na Operação Intocáveis.

O caso mais conhecido é o de Adriano da Nóbrega, ex-capitão da PM apontado pelo Ministério Público como liderança do chamado Escritório do Crime.

Flávio homenageou Adriano duas vezes, com uma moção em 2003 e com a Medalha Tiradentes em 2005. A mãe e a então mulher de Adriano também trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Segundo o senador, ambas haviam sido indicadas por Fabrício Queiroz.

Flávio argumentou que as homenagens ocorreram antes das acusações contra esses policiais.

Dos antigos homenageados aos aliados recentes

O vídeo de Freixo também menciona dois aliados políticos mais recentes de Flávio: Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.

Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, foi indiciado pela Polícia Federal em investigação sobre suspeita de vazamento de informações sigilosas que teria beneficiado integrantes do Comando Vermelho.

Castro tornou-se alvo de investigações da PF, entre elas a que apura investimentos de cerca de R$ 3 bilhões do Rioprevidência em negócios relacionados ao Banco Master. Uma das frentes da investigação apura a atuação de Daniel Vorcaro junto ao fundo e a eventual existência de um acerto político envolvendo o então governador.

Nenhum desses fatos permite atribuir automaticamente a Flávio os crimes praticados ou investigados em relação a terceiros. Mas as homenagens, nomeações e alianças são atos de sua própria trajetória política e, portanto, estão legitimamente sujeitos ao escrutínio público.

Para Flávio, Mendonça aplicou outra régua

É justamente por isso que chama a atenção a comparação com a decisão de André Mendonça sobre um vídeo publicado pelo próprio Flávio Bolsonaro.

Na animação produzida com inteligência artificial, Flávio aparece pilotando uma aeronave militar contra embarcações identificadas como “CV” e “PCC”. Em seguida, aparece uma embarcação com a sigla “PT”, inserida na mesma representação.

A legenda reforçava a associação ao anunciar que Flávio daria uma “péssima notícia” ao CV, ao PCC e ao PT.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu a retirada do vídeo.

Mendonça negou.

Era o mesmo ministro que havia determinado a remoção de publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro ao crime organizado.

O plenário do TSE, entretanto, reformou sua decisão e mandou retirar o vídeo por 5 votos a 2. Mendonça e Nunes Marques foram os únicos votos pela manutenção.

O contraste é objetivo: quando a associação ao crime organizado atingiu Flávio, Mendonça determinou a retirada; quando Flávio colocou o PT ao lado do PCC e do Comando Vermelho, o ministro permitiu que o conteúdo permanecesse no ar.

Nem todas as decisões favoreceram Flávio

Mendonça também tomou decisões contrárias a conteúdos bolsonaristas. Em junho, por exemplo, determinou a retirada de uma publicação do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) que afirmava haver suspeitas de financiamento de campanhas petistas por organizações criminosas.

Em outros casos envolvendo propaganda do PL contra Lula, porém, determinou apenas a suspensão do impulsionamento pago, sem retirar as publicações das redes.

O precedente de Sóstenes impede afirmar que Mendonça sempre tenha decidido em benefício de Flávio ou contra Lula. Não elimina, entretanto, a diferença de tratamento nos dois casos diretamente comparáveis envolvendo associações com PCC, Comando Vermelho e crime organizado.

A mesma régua para os dois lados?

O vídeo de Marcelo Freixo que motivou esta reportagem é uma peça de campanha eleitoral, e sua origem deve ficar clara para o leitor. A RED não localizou, até a publicação, decisão judicial específica determinando sua retirada.

Mas a condição de propaganda eleitoral não elimina a relevância dos fatos documentados que apresenta.

Flávio Bolsonaro homenageou policiais posteriormente acusados ou condenados por crimes graves; homenageou duas vezes Adriano da Nóbrega; manteve sua mãe e sua então mulher no gabinete; e teve entre seus aliados políticos personagens posteriormente atingidos por investigações policiais.

São fatos que merecem ser conhecidos e confrontados com o discurso de um candidato que faz do combate ao crime organizado uma de suas principais bandeiras.

O problema levantado pelas decisões de André Mendonça é outro: por que uma associação de Flávio Bolsonaro com o crime organizado justificou a retirada de publicações, enquanto uma peça do próprio Flávio colocando o PT ao lado do PCC e do Comando Vermelho pôde permanecer no ar por decisão do mesmo ministro?

O plenário do TSE rejeitou essa diferença de tratamento no segundo caso e derrubou a posição de Mendonça por 5 votos a 2.

Em uma eleição presidencial, decisões da Justiça Eleitoral definem também quais informações e acusações chegam ao eleitor. Por isso, a aplicação da mesma régua aos diferentes candidatos não é uma questão secundária: é parte da garantia de equilíbrio da própria disputa eleitoral.

Crédito do vídeo: Marcelo Freixo / campanha eleitoral 2026.

Nota da RED: O vídeo que motivou esta reportagem é uma peça de propaganda eleitoral de Marcelo Freixo (PT-RJ), candidato a deputado federal. A RED realizou checagem independente das principais informações utilizadas no material. Até a publicação, não foi localizada decisão judicial específica determinando a retirada desse vídeo.


Assista ao vídeo de Marcelo Freixo

Vídeo de campanha de Marcelo Freixo.

Atenção: o vídeo acima é uma peça de campanha eleitoral de Marcelo Freixo (PT-RJ), candidato a deputado federal, e não uma produção jornalística da RED.

Como explicado na reportagem, a RED checou separadamente as principais informações factuais utilizadas no material.

Ao assistir ao vídeo, deve-se considerar que relações políticas, homenagens ou nomeações documentadas não constituem, por si mesmas, prova de participação de Flávio Bolsonaro nos crimes atribuídos a terceiros. A responsabilidade penal é individual, e investigados ou acusados não podem ser tratados como condenados.

Há também limites estabelecidos pela Justiça Eleitoral para afirmações que atribuam diretamente a Flávio vínculo com organizações criminosas. Até a publicação desta reportagem, a RED não localizou decisão judicial específica contra este vídeo de Marcelo Freixo.

Crédito: Marcelo Freixo / campanha eleitoral 2026.

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