Estruturas capazes de fabricar popularidade, atacar adversários e manipular algoritmos estiveram presentes em recentes disputas vencidas pela direita na América do Sul. Em 2026, o risco ronda a eleição brasileira
Da REDAÇÃO*
Imagine milhares de pessoas elogiando simultaneamente um candidato, atacando seu adversário ou repetindo a mesma denúncia.
Agora imagine que boa parte dessa multidão não exista.
Contas falsas, perfis automatizados, inteligência artificial e as chamadas fazendas de robôs permitem que um pequeno grupo produza milhares de interações nas redes e faça uma minoria parecer maioria.
Na política, isso representa muito mais do que fabricar curtidas. Significa tentar manipular a percepção da sociedade e, por meio dela, influenciar a vontade do eleitor.
O alerta ganha importância diante da impressionante mudança no mapa político da América do Sul.
Nos últimos anos, a direita venceu sucessivamente eleições na Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru. Hoje, sete dos 12 países sul-americanos são governados pela direita ou extrema direita.
Não há elementos para afirmar que essas vitórias tenham sido produzidas por robôs. Mas algumas dessas eleições foram acompanhadas por evidências, denúncias ou investigações envolvendo inteligência artificial, contas falsas, redes coordenadas, trolls e fazendas de robôs.
Fabricando relevância artificial
Um personagem ajuda a entender esse novo campo de batalha: o consultor argentino Fernando Cerimedo.
Em entrevista ao jornal La Nación, em 2023, ele admitiu utilizar milhares de trolls e bots para promover Javier Milei.
Segundo Cerimedo, a finalidade era criar “relevância artificial” e enganar o algoritmo: milhares de contas curtem, comentam e compartilham determinado conteúdo; a plataforma interpreta aquela movimentação como interesse do público e pode apresentá-lo a pessoas reais.
Os robôs produzem a primeira onda.
O algoritmo pode transformá-la em audiência real.
O La Nación identificou cerca de 3 mil contas promovendo uma aparição televisiva de Milei, grande parte geograficamente concentrada numa pequena área de Buenos Aires.
A questão torna-se especialmente relevante quando movimentos extraordinários nas redes coincidem com mudanças nas pesquisas. Nesta segunda-feira, 31 de agosto, a BTG/Nexus registrou Augusto Cury (Avante) saltando de 2% para 11% em uma semana, período em que ganhou quase 2,5 milhões de seguidores no Instagram. O crescimento, que não se repetiu na mesma proporção em outras redes, despertou suspeitas entre adversários. Cury recebeu apoio de Pablo Marçal e de influenciadores e sua campanha também utilizou impulsionamento pago e declarado de publicações.
Não existe evidência pública de utilização de robôs ou qualquer mecanismo ilegal pela candidatura de Cury, que nega qualquer manipulação. O episódio apenas mostra a importância de distinguir mobilização espontânea, impulsionamento legal e atividade automatizada.
A direita venceu. E os robôs apareceram
A sequência eleitoral sul-americana é impressionante.
Javier Milei venceu na Argentina; Daniel Noboa, no Equador; Santiago Peña, no Paraguai. Depois vieram Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.
Eles não são politicamente idênticos e nem todos podem ser classificados como extrema direita. Mas o movimento regional é inequívoco: a direita venceu praticamente todas as recentes eleições presidenciais da América do Sul.
Ao mesmo tempo, novas ferramentas de manipulação digital apareceram de diferentes maneiras em várias dessas disputas.
Na Argentina, há uma admissão direta. Cerimedo disse ao La Nación que possuía milhares de trolls e bots e explicou que eram utilizados para promover Milei e fabricar relevância artificial. Contas eram preparadas com meses de antecedência para parecerem autênticas antes de entrar em ação.
No Chile, investigações jornalísticas identificaram redes de bots e trolls dedicadas a atacar adversários de José Antonio Kast. Entre os alvos estiveram Jeannette Jara, da esquerda, e Evelyn Matthei, da direita tradicional. Não há comprovação de que a campanha de Kast comandasse essas redes. O próprio presidente chileno reconheceu conhecer Cerimedo, mas nega ter trabalhado com ele.
No Equador, não se tratou apenas de denúncia partidária. A missão de observação eleitoral da União Europeia registrou campanhas de desinformação amplificadas por publicidade paga e fazendas de bots, além da disseminação de conteúdos produzidos por inteligência artificial.
Na Colômbia, uma investigação identificou 2.300 contas distribuídas em 22 comunidades anômalas atuando nas publicações dos principais candidatos. Aproximadamente um em cada dez comentários analisados apresentava características de bots, contas coordenadas ou das chamadas “bodegas”. Nesse caso, as redes artificiais atuavam em diferentes campos políticos.
Na Bolívia, o nome de Cerimedo reaparece. Ele atuou como assessor do presidente Rodrigo Paz e, depois de sua prisão neste mês, investigadores afirmaram ter encontrado uma pequena estrutura de robôs em imóvel ligado ao consultor. Sua defesa diz que os equipamentos eram modems de telefonia e internet e nega a existência de uma fazenda de robôs.
O Paraguai e o Peru completam a sequência de vitórias da direita, mas não há, até agora, evidências comparáveis às encontradas nos demais países que permitam incluir suas eleições entre os casos documentados de fazendas de robôs.
Não há evidências de que robôs tenham eleito esses presidentes.
Há, porém, evidências suficientes para mostrar que a expansão eleitoral da direita sul-americana ocorreu simultaneamente à presença crescente de IA, bots, trolls, redes coordenadas e campanhas de desinformação no ambiente eleitoral de vários países.
E isso impõe uma pergunta: quanto da opinião pública que apareceu nas redes foi realmente produzido por cidadãos e quanto foi artificialmente fabricado?
Da Argentina para a eleição brasileira
Cerimedo mantém antigas relações com o bolsonarismo.
Depois da vitória de Lula em 2022, participou da campanha para desacreditar o resultado das urnas eletrônicas. Foi indiciado pela Polícia Federal na investigação sobre a tentativa de golpe, embora não tenha sido posteriormente incluído na denúncia da Procuradoria-Geral da República.
Em julho deste ano, participou de transmissão com Eduardo Bolsonaro na qual voltaram a lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral.
Sua ex-companheira, Nadia Beller, afirmou à Folha de S.Paulo que Cerimedo mantinha fazendas de robôs na Bolívia e em Buenos Aires destinadas a operações em diferentes países. Segundo ela, o argentino lhe dissera ainda que “lutaria” pela candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026.
A campanha de Flávio nega qualquer relação com o consultor, e não há comprovação de que Cerimedo trabalhe para sua candidatura.
Mas uma operação digital contra Lula já atravessou a fronteira.
Neste mês, contas argentinas ligadas ao ecossistema político de Cerimedo disseminaram a história de uma suposta “invasão” de imigrantes marroquinos em Santa Catarina, atribuída às políticas do governo Lula.
Até julho, apenas 57 marroquinos haviam solicitado refúgio no estado, 1,86% das solicitações registradas.
Mesmo assim, o Observatório Lupa identificou 13,4 mil menções ao assunto entre 21 e 27 de agosto. Algumas publicações chegaram a 475 mil visualizações.
O impulso inicial veio do La Derecha Diario, veículo argentino fundado por Cerimedo.
Uma narrativa destinada a atingir Lula pode ser produzida ou impulsionada fora do Brasil e chegar a centenas de milhares de eleitores antes que seja devidamente checada.
Dilma, “kit gay” e “mamadeira de piroca”
O Brasil já conhece o poder da desinformação eleitoral.
Em 2018, um estudo da USP e UFMG, com checagem da Agência Lupa, analisou as 50 imagens de maior circulação em 347 grupos públicos de discussão política no WhatsApp durante o primeiro turno. Apenas quatro eram comprovadamente verdadeiras.
Entre as falsidades que marcaram aquela eleição estavam o inexistente “kit gay” e a grotesca “mamadeira de piroca”, apresentados como políticas do PT.
Dilma Rousseff, candidata ao Senado por Minas Gerais, também foi alvo. Uma falsa ficha criminal a apresentava como “terrorista” e pedia que fosse encaminhada “para pelo menos 3 mineiros” para impedir sua eleição.
Na véspera da votação, Dilma ainda liderava as pesquisas. No dia seguinte, terminou em quarto lugar, com 15,17%, e não foi eleita.
Não há elementos para atribuir sua derrota à desinformação. Mas também não sabemos quantos eleitores receberam aquelas falsidades nem que influência tiveram — ou não — sobre a surpreendente virada eleitoral.
Das fake news à fabricação da opinião pública
Em 2020, a Meta removeu uma rede brasileira por comportamento inautêntico coordenado, utilizando contas falsas, duplicadas e páginas que simulavam veículos de comunicação.
A investigação encontrou ligações com pessoas associadas ao então PSL e funcionários dos gabinetes de Anderson Moraes, Alana Passos, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro.
A empresa também identificou contas falsas usadas nas eleições municipais para curtir e comentar publicações de candidatos com uma finalidade clara: fazê-los parecer mais populares do que realmente eram.
Robôs e manipulação digital não são monopólio da extrema direita. Há registros envolvendo diferentes campos políticos.
Mas a experiência recente mostra que a extrema direita latino-americana incorporou intensamente esse ecossistema à sua estratégia, combinando influenciadores, militância organizada, desinformação, trolls, perfis falsos, automação e veículos ideologicamente alinhados.
O verdadeiro alvo é a vontade do eleitor
O maior perigo não está na máquina.
Está no efeito que ela produz sobre pessoas reais.
Se milhares de contas afirmam que um candidato venceu um debate, isso pode parecer a percepção predominante. Se repetem uma acusação, ela pode adquirir aparência de verdade. Se produzem uma avalanche de entusiasmo, um candidato pode parecer mais popular do que realmente é.
Fabricar uma multidão digital significa interferir no ambiente em que cidadãos reais formam suas opiniões.
A inteligência artificial multiplica esse poder. Mil contas já não precisam apenas repetir a mesma frase. Podem produzir textos diferentes, imagens e vídeos, responder perguntas e até conversar com pessoas reais.
Para 2026, o TSE estabeleceu regras específicas sobre perfis automatizados, robôs, inteligência artificial e comportamento inautêntico coordenado. As plataformas precisam prever mecanismos para identificar redes artificiais e atividades anormais de automação.
Mas é uma corrida desigual.
Uma fazenda de robôs pode produzir milhares de mensagens em minutos.
A eleição brasileira acontece, portanto, depois de uma sequência de vitórias da direita na América do Sul e diante de evidências de que IA, bots, trolls, desinformação e redes coordenadas estiveram presentes em várias dessas disputas.
Isso não demonstra que tenham decidido seus resultados.
Demonstra que a manipulação artificial da opinião pública deixou de ser uma hipótese sobre o futuro. Ela já faz parte das eleições do presente.
A propaganda tradicional tentava convencer multidões.
A nova propaganda digital descobriu algo potencialmente mais poderoso: primeiro fabrica a multidão e depois usa essa multidão artificial para tentar convencer pessoas reais.
É aí que as fazendas de robôs deixam de ser uma curiosidade tecnológica e se transformam em instrumentos potenciais de manipulação da vontade do eleitor — e, portanto, em ameaça direta à democracia.
*Pela Redação: BTC.
Veja como funciona uma fazenda de celulares
O vídeo que motivou esta matéria permite visualizar uma estrutura com grande quantidade de celulares sendo controlada simultaneamente.
Assista ao vídeo:
Mas é necessária uma advertência: o vídeo não comprova a existência de uma fazenda pertencente a Fernando Cerimedo ou a qualquer político brasileiro.
Imagens semelhantes foram recentemente atribuídas a uma suposta fazenda de Cerimedo. A agência Aos Fatos verificou que a gravação havia sido publicada originalmente por uma empresa vietnamita em maio de 2025.
A checagem oferece uma pequena aula sobre o próprio problema tratado nesta matéria: uma imagem pode ser verdadeira e a história contada sobre ela ser falsa.
O vídeo deve ser visto como demonstração de como uma fazenda de celulares pode funcionar, e não como prova da propriedade daquela estrutura.
Ilustração da capa: Fazenda de robôs simula engajamento nas redes, amplifica desinformação e pode fabricar uma falsa percepção de apoio político, interferindo no ambiente em que os eleitores formam suas opiniões. Crédito: Ilustração produzida com auxílio de inteligência artificial / RED.

