Reindustrialização Brasileira | Por Fernando Nogueira da Costa

Brasil precisa de uma estratégia própria para se reindustrializar.
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 11:07
Editado em 31 de agosto de 2026 às 11:07

Para uma análise estratégica rigorosa da reindustrialização brasileira, a sequência Economia Positiva – diagnóstico estrutural – análise de possibilidades – Economia Normativa – escolha política é metodologicamente muito mais sólida em lugar de começar pela preferência ideológica e procurar depois os fatos capazes de justificá-la. Entre “o que é” e “o que deveria ser” deve entrar “o que é possível fazer, dadas as restrições estruturais e as alternativas estratégicas”.

O primeiro passo seria o da Economia Positiva. isto é, descobrir onde o Brasil realmente está. A investigação deveria começar sem pressupor a priori nem o Brasil “precisa abrir-se mais” nem “precisa necessariamente substituir importações”. A primeira pergunta deveria ser empírica: qual é a estrutura produtiva brasileira realmente existente e como ela se modificou nas últimas décadas?

Isso exige abandonar indicadores isolados, como simplesmente a participação da indústria de transformação no PIB. Seria necessário acompanhar conjuntamente: participação setorial no valor adicionado e no emprego; produtividade por setor; investimento e formação bruta de capital; intensidade tecnológica; dispêndios empresariais em P&D; propriedade nacional ou estrangeira das empresas; origem do capital e destino dos lucros; coeficientes de importação e exportação; conteúdo importado da produção doméstica; valor adicionado doméstico incorporado às exportações; importação de máquinas, componentes, software e propriedade intelectual; patentes, tecnologia licenciada e pagamentos de royalties; posição das empresas brasileiras nas Cadeias Globais de Valor.

Esse último ponto é especialmente relevante. Os indicadores da OCDE distinguem participação para trás (backward participation), isto é, insumos estrangeiros incorporados às exportações brasileiras, e participação para frente (forward participation), quando valor adicionado brasileiro entra nas exportações de outros países. A OCDE observa a inserção brasileira para trás nas CGVs é relativamente baixa diante de vários pares.

Portanto, a questão não pode ser reduzida a “industrialização versus desindustrialização”. É necessário se perguntar: qual lugar ocupa o Brasil na divisão internacional do trabalho?

Segundo a  abordagem da complexidade, a unidade de análise relevante deixou de ser apenas “o setor industrial”. A análise da Velha Ciência Econômica foca Agricultura,  Indústria e Serviços como três setores separados. Hoje, as fronteiras são muito menos nítidas.

Por exemplo, uma empresa como a Embraer, fabricante de aviões, depende simultaneamente de engenharia, software, eletrônica, materiais avançados, serviços financeiros, logística, telecomunicações, universidades para preparação de pessoal e pesquisa científica, propriedade intelectual e fornecedores internacionais. Há uma crescente “servicificação” da manufatura, isto é, o peso crescente dos serviços incorporados às exportações industriai

Por isso, uma política industrial eficaz não deveria procurar simplesmente elevar a participação estatística da “indústria de transformação”. Deveria aumentar a densidade tecnológica e produtiva do sistema econômico brasileiro.

Também é preciso cartografar o poder empresarial global A hipótese de concentração em poucas transnacionais é pertinente nos segmentos situados na fronteira tecnológica, embora sua intensidade varie muito entre setores.

Uma análise positiva deveria mapear, cadeia por cadeia: quem controla: projeto; tecnologia; patentes; padrões técnicos; componentes estratégicos; plataformas digitais; financiamento; marcas; distribuição mundial.

É perfeitamente possível fabricar fisicamente grande parte de um produto no Brasil e capturar apenas parcela pequena do valor gerado, caso tecnologia, software, propriedade intelectual, componentes críticos e comercialização pertençam a empresas estrangeiras. Portanto, industrialização física não significa necessariamente autonomia tecnológica e apropriação doméstica do valor.

Entre Economia Positiva e Normativa existe um campo chamado de Economia Estratégica. Seria o estudo das possibilidades abertas pelas condições objetivas encontradas. Só então aparece a questão-chave: “o que poderíamos fazer?”

Diagnostica-se a situação observada empiricamente, verifica-se qual é a restrição, levanta-se as alternativas possíveis e daí se deduz as consequências prováveis. Por exemplo, se semicondutores de última geração exigem escala gigantesca, ecossistemas tecnológicos previamente acumulados e investimentos bilionários, logo, será pouco razoável pretender reproduzir integralmente Taiwan ou Coreia.

Mas pode ser perfeitamente racional procurar posições especializadas em design, encapsulamento, semicondutores de potência, chips para agronegócio, dispositivos médicos e eletrônica automotiva. Isso já é outra concepção de planejamento.

Não se trata de dizer: “o Brasil fabricará tudo.” Trata-se de perguntar: em quais elos de quais cadeias o país possui capacidades existentes ou potencialmente capazes de serem construídas para gerar vantagens cumulativas? Trata-se de um planejamento indicativo, adaptativo e seletivo.

A Economia Normativa aparece somente depois desse diagnóstico. Vem então a pergunta:  “qual Brasil queremos construir? No caso, não existe resposta puramente científica porque entram juízos de valor.

Por exemplo, quanto uma gestão governamental de um mandato de quatro anos estará disposta a sacrificar no presente em favor de autonomia tecnológica futura, segurança energética, soberania sanitária, empregos de maior produtividade, redução de desigualdades regionais, descarbonização e defesa nacional, obtidos em longo prazo?

Os economistas podem concordar inteiramente com os dados positivos e chegar a escolhas normativas diferentes. Esse é justamente o ponto onde a Economia encontra a Política.

Deveríamos evitar a formulação do conflito simplesmente como “neoliberalismo submisso aos EUA × desenvolvimentismo aliado aos BRICS”. Essa polarização captura uma disputa política real, mas, como categoria analítica, corre o risco de reproduzir o reducionismo binário a ser superado pelo “terceiro incluído”.

Uma estratégia neoliberal tende a enfatizar: abertura, competição internacional por investimento estrangeiro, livre-mercado e integração às CGVs. Uma estratégia desenvolvimentista tende a enfatizar: política industrial,  financiamento estatal, conteúdo tecnológico nacional, empresas estratégicas e planejamento.

Mas a economia mundial real é muito mais complexa. Os próprios Estados Unidos, sobretudo desde as rupturas geopolíticas recentes, utilizam política industrial, subsídios, compras governamentais e restrições tecnológicas. A China combina: planejamento estatal, empresas públicas, empresas privadas, capital estrangeiro, mercados e exportações. Logo, “mercado versus Estado” já não descreve adequadamente nenhuma grande potência – e o “terceiro incluído” entre esse reducionismo binário é a sociedade, no caso, brasileira.

Em consequência  o “terceiro incluído” seria a estratégia pragmática nacional. Em vez de EUA × BRICS, o estratégico é pensar Brasil-Estados Unidos- União Europeia-China-BRICS-América do Sul com alianças variáveis conforme cada tecnologia, mercado, financiamento, energia, defesa, alimentos, mudança climática. Isso significa substituir alinhamento automático por autonomia estratégica.

Os dados comerciais deixam claro a razão disso ser importante: em maio de 2026, a China absorveu cerca de 32,9% das exportações brasileiras, enquanto os Estados Unidos absorveram aproximadamente 9,7%. Seria economicamente imprudente construir uma estratégia de desenvolvimento como se o Brasil tivesse de escolher exclusivamente um dos dois polos.

Na verdade, o planejamento industrial brasileiro atual já se aproxima parcialmente dessa concepção O plano chamado Nova Indústria Brasil não está estruturado simplesmente por setores tradicionais, mas por seis “missões”: agroindústria sustentável, complexo industrial da saúde, infraestrutura e mobilidade, transformação digital, bioeconomia e transição energética e tecnologias relacionadas à defesa da soberania nacional.

Em 2026, o próprio MDIC mantém como primeiro objetivo estratégico “promover a reindustrialização do país”, incluindo transformação digital, semicondutores, serviços tecnológicos e monitoramento das cadeias produtivas. Isso já representa avanço conceitual sobre a velha política de simplesmente privillegiar o “setor industrial”.

Mas permanece a questão decisiva da avaliação: as políticas estão efetivamente aumentando capacidades tecnológicas nacionais, produtividade e valor adicionado doméstico, ou apenas subsidiando investimentos a ocorrerem de qualquer maneira? Essa pergunta deve permanecer positiva e verificável.

Portanto, há cinco etapas. A primeira é a da Economia Positiva: o que existe? A segunda é a da Economia Estruturalista: como chegamos até aqui e quais relações sistêmicas sustentam essa configuração? A terceira é a da Economia Estratégica: o que é tecnicamente, financeiramente e geopoliticamente possível transformar? A quarta é a da Economia Normativa: qual transformação social desejamos? Finalmente,  a quinta é a da Economia Política: qual coalizão social possui poder para implementá-la e quem ganha ou perde com ela?

Essa sequência supera a velha separação entre Economia Positiva e Normativa e adota uma contribuição importante da Nova Ciência Econômica. A Ciência Econômica convencional tenta encerrar-se no primeiro estágio: “o economista explica os meios; a sociedade escolhe os fins.” Mas isso é insuficiente para sistemas complexos emergente de interações entre múltiplos fatores.

Os meios alteram os próprios fins, os resultados redistribuem poder e essa redistribuição modifica as decisões posteriores. Os economistas têm de compreender, portanto, uma retroalimentação entre estrutura produtiva – interesses econômicos – poder político – política econômica – investimentos – inovação – nova estrutura produtiva – novos interesses…

Por isso, a reindustrialização não é simplesmente uma questão de escolher uma política industrial tecnicamente correta. É um processo de coevolução entre tecnologia, empresas, Estado, trabalhadores, sistema financeiro, relações internacionais e instituições.

Substitui o binarismo “neoliberalismo pró-EUA × desenvolvimentismo pró-BRICS” por uma pergunta de nível superior: qual combinação dinâmica de mercado, Estado, capital nacional, empresas transnacionais, financiamento público e privado, integração às cadeias globais e construção seletiva de autonomia tecnológica maximiza desenvolvimento, soberania e bem-estar social do Brasil?

Este seria o “terceiro incluído”: não uma equidistância política entre EUA e BRICS, mas uma estratégia nacional autônoma, embora integrada à inexorável globalização, de maneira não submissa. Seria construída a partir do diagnóstico positivo da posição concreta do Brasil no sistema mundial e submetida posteriormente à escolha democrática dos fins normativos.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Fernando Nogueira da Costa
Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].

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