É preciso sacudir pelas entranhas os cegos que não querem ver e os surdos que não querem ouvir. Entre outras razões, porque não queremos que o Brasil se transforme num país de mudos.
(Astrojildo Pereira).
Estamos a pouco mais de um mês das eleições mais importantes do Brasil e mais do que nunca a advertência acima na epígrafe do intelectual orgânico brasileiro é tão atual. Mais do que escolher um dos lados de uma eleição polarizada é preciso ter clareza quanto ao desafio que temos pela frente, para que além de elegermos o próximo presidente da República o comprometamos com os rumos a serem dados ao país.
Na realidade, há dois desafios a serem conjugados no mesmo tempo histórico. Um deles é de ordem política e institucional e consiste na defesa intransigente de nossa soberania diante de ameaças veladas ou não. Não é possível hesitar sobre isso, tampouco submetermos a ditames de ordem imperialista, que conta com respaldo de correntes antipatrióticas, existentes nas representações de uma denominada extrema-direita, cujo caráter e valores estão mais definidos como um novo surto fascista entre nós, se apresentam em mais de uma candidatura. A candidatura à reeleição de Lula enfrenta os seus oponentes cujo denominador comum é o alinhamento dentro e fora do país com interesses que a rigor não têm a ver com o povo brasileiro, mesmo quando investem no tema da segurança pública, pois seus planos recorrerem a apelos externos, quando não soluções violentas e antidemocráticas. É um fascismo distinto do surto original nesse aspecto.
Um outro desafio é o dos eventos extremos decorrentes do aquecimento global, que por sua vez se encontra inteiramente vinculado ao modo de produção e à lógica capitalista, que expande cada vez mais os fatores que conduzem aos severos problemas ambientais já presentes entre nós. Trata-se de um desafio político tendo em vista a desídia dos seus principais responsáveis, os representantes do grande capital.
O filósofo e economista Kohei Saito, em seu livro O Capital no Antropoceno, editado no Brasil pela Boitempo, sintetizou em sua obra o que segue: “…o capitalismo trata os humanos como ferramentas da acumulação de capital e considera a natureza um mero objeto sujeito ao saque”. Sua análise segue uma linha interpretativa inspirada na perspectiva marxista que considera que a humanidade está a atravessar uma fase na qual a melhor leitura para definir os mais recentes eventos extremos decorre da cobiça desenfreada do capitalismo, daí a substituição do antropoceno (era geológica centrada no ser humano) para o capitaloceno (era geológica dominada pela ação do capital), isto é, não é o ser humano, mas a prevalência da lógica do capital que agride a natureza em busca da acumulação desenfreada.
Tal como na política cujas forças da regressão, reacionárias que são, fazem questão de ignorar a desigualdade social a criar contingentes humanos excluídos dos bens produzidos pela humanidade, no que se refere à questão ambiental há uma atitude de desprezo para as advertências da ciência, tudo para manter intacta as estruturas vigentes. Trata-se de uma atitude suicida desse modo de produção acalentado pelos rentistas e os grandes conglomerados capitalistas. Com isso, desprezam o risco que se corre da extinção da humanidade, pois o que importa para quem se beneficia da rentabilidade do capital é somente com o presente.
Logo, se levarmos a sério esse próximo processo eleitoral, como deve ser o comportamento dos eleitores em seu dever de cidadania, é preciso exercitar os nossos sentidos para despertarmos conscientemente diante de um cenário que aponta para direções não apenas distintas como opostas, frente ao qual se deve optar de maneira efetiva e construtiva.
Pela primeira vez e impossível de ser mascarada estamos diante do estágio terminal de uma economia dominada pela ideologia do lucro incessante a destruir o meio ambiente e causar os horrores que estão por acontecer de forma ainda mais intensa. E essa progressiva tendência que decorre de seu próprio modo de ser irá, com alguma certeza, se estender ao longo do século XXI arrastando os bens e recursos naturais. Tendência já diagnosticada por naturalistas e demais estudos científicos e representada por uma política dominante dos que exploram os recursos humanos e em especial a força de trabalho para se enricarem muito além da conta de suas necessidades.
O despertar das consciências em face das duas ameaças que precisam ser eliminadas, a do entreguismo antipatriótico de uma candidatura estimulada pelo que há de mais retrógrado, no que diz respeito a escolha do próximo governo; e, por outro lado, associar essa escolha às tarefas a serem empreendidas e contribuir para a redução dos instrumentos que têm concorrido para o mal-estar da relação entre a humanidade e a natureza, de modo que a civilização construída até aqui não seja destruída pela ganância de uns poucos não se importando sequer com os seus próprios descendentes.É preciso sacudir pelas entranhas os cegos que não querem ver e os surdos que não querem ouvir. Entre outras razões, porque não queremos que o Brasil se transforme num país de mudos.
(Astrojildo Pereira).
Estamos a pouco mais de um mês das eleições mais importantes do Brasil e mais do que nunca a advertência acima na epígrafe do intelectual orgânico brasileiro é tão atual. Mais do que escolher um dos lados de uma eleição polarizada é preciso ter clareza quanto ao desafio que temos pela frente, para que além de elegermos o próximo presidente da República o comprometamos com os rumos a serem dados ao país.
Na realidade, há dois desafios a serem conjugados no mesmo tempo histórico. Um deles é de ordem política e institucional e consiste na defesa intransigente de nossa soberania diante de ameaças veladas ou não. Não é possível hesitar sobre isso, tampouco submetermos a ditames de ordem imperialista, que conta com respaldo de correntes antipatrióticas, existentes nas representações de uma denominada extrema-direita, cujo caráter e valores estão mais definidos como um novo surto fascista entre nós, se apresentam em mais de uma candidatura. A candidatura à reeleição de Lula enfrenta os seus oponentes cujo denominador comum é o alinhamento dentro e fora do país com interesses que a rigor não têm a ver com o povo brasileiro, mesmo quando investem no tema da segurança pública, pois seus planos recorrerem a apelos externos, quando não soluções violentas e antidemocráticas. É um fascismo distinto do surto original nesse aspecto.
Um outro desafio é o dos eventos extremos decorrentes do aquecimento global, que por sua vez se encontra inteiramente vinculado ao modo de produção e à lógica capitalista, que expande cada vez mais os fatores que conduzem aos severos problemas ambientais já presentes entre nós. Trata-se de um desafio político tendo em vista a desídia dos seus principais responsáveis, os representantes do grande capital.
O filósofo e economista Kohei Saito, em seu livro O Capital no Antropoceno, editado no Brasil pela Boitempo, sintetizou em sua obra o que segue: “…o capitalismo trata os humanos como ferramentas da acumulação de capital e considera a natureza um mero objeto sujeito ao saque”. Sua análise segue uma linha interpretativa inspirada na perspectiva marxista que considera que a humanidade está a atravessar uma fase na qual a melhor leitura para definir os mais recentes eventos extremos decorre da cobiça desenfreada do capitalismo, daí a substituição do antropoceno (era geológica centrada no ser humano) para o capitaloceno (era geológica dominada pela ação do capital), isto é, não é o ser humano, mas a prevalência da lógica do capital que agride a natureza em busca da acumulação desenfreada.
Tal como na política cujas forças da regressão, reacionárias que são, fazem questão de ignorar a desigualdade social a criar contingentes humanos excluídos dos bens produzidos pela humanidade, no que se refere à questão ambiental há uma atitude de desprezo para as advertências da ciência, tudo para manter intacta as estruturas vigentes. Trata-se de uma atitude suicida desse modo de produção acalentado pelos rentistas e os grandes conglomerados capitalistas. Com isso, desprezam o risco que se corre da extinção da humanidade, pois o que importa para quem se beneficia da rentabilidade do capital é somente com o presente.
Logo, se levarmos a sério esse próximo processo eleitoral, como deve ser o comportamento dos eleitores em seu dever de cidadania, é preciso exercitar os nossos sentidos para despertarmos conscientemente diante de um cenário que aponta para direções não apenas distintas como opostas, frente ao qual se deve optar de maneira efetiva e construtiva.
Pela primeira vez e impossível de ser mascarada estamos diante do estágio terminal de uma economia dominada pela ideologia do lucro incessante a destruir o meio ambiente e causar os horrores que estão por acontecer de forma ainda mais intensa. E essa progressiva tendência que decorre de seu próprio modo de ser irá, com alguma certeza, se estender ao longo do século XXI arrastando os bens e recursos naturais. Tendência já diagnosticada por naturalistas e demais estudos científicos e representada por uma política dominante dos que exploram os recursos humanos e em especial a força de trabalho para se enricarem muito além da conta de suas necessidades.
O despertar das consciências em face das duas ameaças que precisam ser eliminadas, a do entreguismo antipatriótico de uma candidatura estimulada pelo que há de mais retrógrado, no que diz respeito a escolha do próximo governo; e, por outro lado, associar essa escolha às tarefas a serem empreendidas e contribuir para a redução dos instrumentos que têm concorrido para o mal-estar da relação entre a humanidade e a natureza, de modo que a civilização construída até aqui não seja destruída pela ganância de uns poucos não se importando sequer com os seus próprios descendentes.
Foto de capa: Matheus Pigozzi / Agência Pública


