Como conversar com quem apoia o bolsonarismo — e talvez fazê-lo repensar o voto

Manual que circula sem autoria identificada propõe 20 orientações para o diálogo político. A RED decidiu resumi-lo e publicá-lo por considerar que suas recomendações contribuem para um debate respeitoso, sem provocações mútuas e necessário à preservação da democracia.
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 15:00
Editado em 28 de agosto de 2026 às 14:39
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Da REDAÇÃO*

Circula pelas redes sociais, sem autoria assumida, um “Manual para dialogar com um apoiador do bolsonarismo”. O documento reúne 20 orientações para conversar com pessoas que apoiam esse campo político e apresenta argumentos e contra-argumentos sobre alguns dos temas que mais frequentemente dividem os brasileiros.

A RED não conhece a autoria do manual nem dispõe de informações sobre as circunstâncias em que foi produzido. Ainda assim, decidiu resumi-lo e publicá-lo por considerar que sua orientação geral ultrapassa a disputa entre bolsonaristas e seus adversários: defende um debate político respeitoso, baseado na escuta, na argumentação e na recusa às provocações e agressões mútuas.

Em um país profundamente polarizado, recuperar a possibilidade de conversar com quem pensa diferente é também uma questão democrática. Democracia não pressupõe concordância. Existe justamente para permitir a convivência entre divergências. Essa convivência, porém, torna-se mais difícil quando o adversário político passa a ser tratado como inimigo pessoal.

O manual parte de uma premissa simples: ninguém precisa abandonar suas convicções para conversar, mas dificilmente conseguirá persuadir alguém se começar tratando o interlocutor como alguém que precisa ser derrotado.

Não tente ganhar a discussão

A primeira recomendação talvez seja a mais importante: entrar na conversa querendo compreender o outro, e não vencê-lo.

Em vez de começar enumerando razões pelas quais Bolsonaro ou o bolsonarismo estariam errados, a sugestão é perguntar: “Por que você vê dessa forma?”

A lógica percorre praticamente todo o manual: não chamar o interlocutor de burro ou alienado; não recorrer ao deboche; não transformar “bolsonarista” em uma identidade moral definitiva; não corrigir cada informação equivocada; não despejar dez argumentos ao mesmo tempo.

O documento recomenda também reconhecer que algumas preocupações que levam pessoas ao bolsonarismo podem ser legítimas, ainda que se discorde das respostas oferecidas: medo da violência, desconfiança dos políticos, preocupação com a economia, religião e apego à família.

Reconhecer essas preocupações não significa concordar com as soluções bolsonaristas. Significa encontrar um ponto a partir do qual a conversa possa começar.

Pergunte antes de contestar

Outra recomendação é substituir o sermão por perguntas.

“O que faz você confiar nessa informação?” ou “O que precisaria acontecer para você mudar de ideia?” são exemplos apresentados pelo manual.

O mesmo vale diante de uma informação duvidosa. Em vez de responder imediatamente “isso é fake news”, recomenda-se perguntar: “Onde você viu isso?”

A pessoa pode perceber por conta própria que a informação veio de uma corrente sem fonte ou de um conteúdo pouco confiável. O manual sugere ainda perguntar em qual fonte o interlocutor confiaria e, quando possível, procurar a informação em conjunto.

Também aconselha escolher uma questão por conversa. Uma lista de acusações pode ser percebida como ataque e provocar uma reação defensiva. É melhor identificar o tema que realmente importa para aquela pessoa e aprofundá-lo.

Corrupção: o mesmo critério para todos

A segunda parte do documento trata de argumentos frequentes entre apoiadores de Bolsonaro.

Sobre corrupção, por exemplo, o manual reconhece que os escândalos ocorridos durante governos petistas contribuíram legitimamente para que eleitores desenvolvessem rejeição ao PT.

A resposta sugerida não é negar esses episódios, mas perguntar se o mesmo critério está sendo aplicado aos Bolsonaro.

O documento cita as investigações sobre as chamadas rachadinhas no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro, funcionários fantasmas e o caso das joias recebidas de governos estrangeiros.

O raciocínio é simples: se o combate à corrupção é um critério determinante para escolher candidatos, ele precisa valer para todos.

Bolsonaro, STF e tentativa de golpe

O manual também aborda a alegação de que Jair Bolsonaro teria sido vítima apenas de perseguição política.

A recomendação é separar fato de interpretação.

O documento recorda que Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2025, a 27 anos de prisão pela trama destinada a impedir a posse do presidente eleito em 2022. Destaca também que houve processo, defesa, recursos e divergências entre os ministros.

Pode-se discordar da decisão judicial. Outra coisa é afirmar que Bolsonaro foi condenado sem processo.

A distinção entre fatos verificáveis e interpretações políticas é apresentada como regra útil para outras discussões.

Armas, economia, costumes e religião

A mesma estratégia aparece em outros assuntos.

Sobre armas, o manual recomenda reconhecer a preocupação com segurança pública, mas questionar se o aumento das armas em circulação produziu a redução da violência que seus defensores esperavam.

Na economia, evita comparações simplistas. Reconhece tanto os efeitos extraordinários da pandemia durante o governo Bolsonaro quanto fatores internacionais que influenciaram inflação e preços, sugerindo comparar séries completas de inflação, desemprego e renda.

No debate sobre costumes, propõe separar a discussão sobre currículo escolar e participação dos pais da garantia de direitos civis básicos às pessoas LGBTQ+.

Em relação à religião, lembra que fé e valores cristãos não pertencem a um partido ou campo político. Em vez de simplesmente negar que exista ameaça religiosa, recomenda perguntar concretamente qual direito ou valor o interlocutor acredita estar ameaçado.

E o medo de o Brasil “virar uma Venezuela”?

O temor de que governos de esquerda possam levar o Brasil a uma situação semelhante à venezuelana também aparece no documento.

A resposta sugerida começa reconhecendo que regimes autoritários de esquerda existiram e produziram sofrimento. Mas recomenda comparar essa preocupação com a realidade institucional brasileira: eleições periódicas, imprensa livre, Judiciário independente e alternância de poder.

Em vez de ridicularizar o medo da “venezuelização”, a sugestão é perguntar qual instituição brasileira estaria sendo destruída e por meio de qual ação concreta.

Algo semelhante vale para as urnas eletrônicas. Pedir auditorias e discutir mecanismos de segurança é legítimo numa democracia. Afirmar que uma fraude alterou resultados eleitorais exige evidências.

Nas redes, não há apenas duas pessoas conversando

O manual chama atenção para uma diferença importante entre a conversa privada e as discussões nas redes sociais.

Num debate público, existe uma plateia. Admitir uma dúvida ou reconhecer um argumento do adversário pode ser percebido como derrota diante dos demais integrantes do próprio grupo.

Por isso, longas batalhas públicas tendem a ser pouco produtivas. Quando houver interesse verdadeiro em conversar, o contato privado pode funcionar melhor.

Se a resposta precisar ser pública, o manual recomenda pensar não apenas na pessoa com quem se está discutindo, mas também em quem acompanha silenciosamente a conversa.

Reconheça também os erros do seu lado

Uma das recomendações mais importantes é reconhecer erros do próprio campo político.

Alguém que identifica problemas exclusivamente no adversário perde credibilidade como interlocutor.

Isso significa admitir que nem tudo no governo Bolsonaro foi negativo e nem tudo no governo Lula é positivo. Não se trata de colocar governos ou responsabilidades no mesmo plano, mas de demonstrar que os critérios utilizados para julgar os fatos não mudam conforme o personagem envolvido.

O manual recomenda ainda encerrar a conversa quando os ânimos se alterarem. Preservar uma relação familiar ou uma amizade pode ser mais importante do que demonstrar quem tem razão.

Plantar uma dúvida já pode ser muito

O próprio manual reconhece seus limites. Não se apresenta como neutro: foi elaborado para pessoas que discordam do bolsonarismo e procuram maneiras mais eficazes de conversar com quem continua apoiando esse campo político. Também admite que algumas comparações econômicas e ambientais são objeto de controvérsia e recomenda consultar as fontes originais.

Sua principal mensagem, porém, ultrapassa os argumentos específicos contra o bolsonarismo.

Uma conversa dificilmente transforma uma posição política consolidada em cinco minutos. Persuasão é um processo gradual. Por isso, o documento sugere medir o resultado não pela “conversão” do interlocutor, mas pela possibilidade de fazê-lo considerar algo que antes não havia considerado.

Se, ao final, alguém disser “nunca tinha pensado nisso assim”, a conversa já produziu alguma coisa.

Num país profundamente dividido, talvez não seja pouco. Reaprender a discordar sem transformar divergência em hostilidade é uma tarefa que ultrapassa esta eleição. É parte da preservação da convivência democrática.

* Pela Redação: BTC.


Ilustração da capa: O diálogo político não exige concordância: ouvir, argumentar e respeitar quem pensa diferente são condições para a convivência democrática. Crédito: Ilustração produzida com auxílio de inteligência artificial/RED.

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