Fico constrangido em discordar de Paulo Nogueira Batista em vários pontos manifestados por ele no artigo “A Era do Obscurantismo”. Ele é nacionalista e isso não é pouca coisa no campo progressista e democrático onde grande parte perdeu esta dimensão quase que imediatamente ao advento do neoliberalismo. Pior, muitos foram de mala e cuia viraram a casaca para a direita com, para dizer o mínimo, uma velocidade suspeita assim que surfar na onda do momento virou aderir ao discurso neoliberal de direita. Um destes apressadinhos em debandar para o outro lado, até foi mais longe e vaticinou ser a onda neoliberal uma nova renascença. Como muitos fazem copiar e colar pegaram o lado negativo deste termo na realidade europeia e o transpuseram ipsis literis a nossa realidade. O que é absurdo e impróprio. Aqui no latino américa é imperativo, para quem é do campo de esquerda progressista e democrática, ser nacionalista. Fico perplexo quando percebo pessoas que admiro como Roberto Schwarz achar irrelevante esta questão.
Não por acaso esta visão de mundo da esquerda foi capaz de negativar o termo populista. Francisco Weffort, então um dos intelectuais mais poderosos do PT, foi o autor desta façanha com seu livro ‘O Populismo na Política Brasileira”. Quase desnecessário informar que este ex- trotskista ferrenho foi um dos que se bandearam para a direita dita liberal, que na verdade virou neoliberal, outra coisa bem diferente do que é ser liberal. Na esteira deste, se engataram todos os discursos da direita, em especial na mídia tradicional, núcleo ideológica, que quando há um desvio da ação política em benefício do povo de um governo de qualquer ideologia, tacha de populismo como se isso fosse algo terrível, abominável. Quem quiser ler uma visão crítica que questiona de modo bem fundamentado esta visão negativa do populismo, recomendo o livro “A Razão Populista” do argentino Ernesto Laclau.
Minha crítica pontual dirige- se a sua generalização da crítica a cultura ocidental e a supervalorização de dados quantitativos. Para isso, usa o artificio de ironizar a civilização Ocidental através da fala de Mahatma Gandhi, um ícone respeitável da história mundial. O fato das civilizações como a chinesa, a indiana e a iraniana serem mais antigas não a qualificam como civilizações mais avançadas. Gosto muito do dito por Nietzsche ao romper com Schopenhauer ao afirmar que este seguia civilizações milenares, cansadas, esgotadas da vida.
Ao criticar o racismo ocidental coloca todos nós ocidentais no mesmo saco. Evidente que existe racismo no ocidente. Como também foi aqui e não nas tais civilizações indiana e iraniana que se erigiu um pensamento antirracista e civilizatório. Aliás, nestas duas civilizações impera ainda um fundamentalismo religioso arcaico que coloca a mulher em posição inferior e indigna. Crítica que não nos impede de condenar o ataque dos EUA ao Irã sem nenhuma justificativa crível.
Quando argumenta que “Os povos antes colonizados ou semicolonizados não reconhecem mais a superioridade dos brancos. Não aceitam mais os esquemas coloniais ou neocoloniais de exploração impostos pelos europeus e estadunidenses. Querem ter os seus direitos aceitos, na prática e não apenas em tese.”, estou plenamente de acordo. No entanto, ao apontar os interesses do ocidente na Amazônia ele incorre no mesmo discurso da extrema direita que reza termos o direito de fazermos o que quiser com ela porque foram eles que com a revolução industrial iniciaram o processo de destruição do meio ambiente. Como se isso apontasse interesses sórdidos nos que lutam pelo meio ambiente e tivéssemos um salvo-conduto para fazer o que quiser com a Amazônia. A propósito, o que vemos mais na Amazônia, especialmente em Manaus- estive lá várias vezes e mesmo recentemente a trabalho- são chineses. Portanto, não são só os famigerados brancos ocidentais que a cobiçam.
A análise que ele faz do processo imigratório é menos permeado de generalização. Aparece no seu artigo, pela primeira vez, a atribuição a direita como condutora deste processo racista e fascista. Como o cacoete entorta a boca, como se diz, ele mesmo nesta análise ponderada e bem fundamentada não deixa de generalizar ao atribuir a “elites cosmopolitas ocidentais” que “pouco se importam com questões culturais e tiram partido da disponibilidade de mão de obra barata que a imigração traz.” Como assim, elites cosmopolitas ocidentais? Ele está falando de elites capitalistas de empresários ocidentais, não é? Por que coloca de contrabando todo o mundo empenhado neste desdém a questão cultural e a tirar partido da mão de obra barata dos imigrantes? De ser partidário a esta política de extrema direita. Sobre isso dá para dizer que os chineses, os mocinhos de hoje, suponho, também tiram partido de mão de obra barata e se lixam para a questão cultural. O que não significa ser contrário ao papel fundamental da China na criação de um mundo multipolar e do BRIC, por tabela.
Quando aborda a questão do papel de bode expiatório para os muçulmanos e outros não-brancos como causa do declínio do ocidente não sinaliza que este é um pensamento da extrema direita ocidental. Fica no ar a ideia de que é algo presente em toda a cultura decadente ocidental. Tanto que ao iniciar o parágrafo que sucede esta abordagem, entra de chofre na análise da nova direita e europeia, não fazendo nenhuma conexão com o dito no parágrafo anterior sobre o pensamento acerca do bode expiatório.
E conclui sua análise, sobre as questões antes abordadas, dizendo “Em suma, Europa e Estados Unidos, antes na vanguarda do Iluminismo ou Enlightenment, patrocinam com afinco um movimento em sentido contrário. O século XVIII ficou conhecido como o “Século das Luzes”; o século XXI, a julgar pelas suas décadas iniciais, entrará para a história como o “Século das Sombras”.” Creio, posso estar equivocado, que faltou nesta conclusão especificar que se refere a governos estabelecidos cuja tendencia é de extrema direita.
No caso da questão Palestina, penso que ele acerta ao classificar como genocídio o que está acontecendo. Agora ao afirmar que ninguém mais acredita na existência de um Ocidente de princípios e valores, ele força a mão. Como se os governos que apoiam Israel o apoiassem de modo automático e igual ao apoio de Trump. Não conheço muito esta questão. No entanto, mesmo entre governos de extrema direita como o de Meloni, existem diferenças significativas, sobre esta questão e sobre outras como a guerra na Ucrania. Esta mania de colocar tudo no mesmo saco é, como diz o ditado popular, “Jogar a água do banho com o bebê junto”.
Ao terminar o artigo, volta a pensar o Brasil e a serenidade, apontando com propriedade nosso potencial “por suas dimensões, por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do planeta, por sua tradição de abertura ao mundo, inclusive por seu pacifismo, o brasileiro pode ter um papel de salvação mundial. O próprio sentimento de inferioridade e a própria tendência ao pacifismo, devidamente reconfigurados, nos preparam para exercer esse papel.” enfim, o potencial nosso para encontrar caminhos racionais, soberanos e democráticos para a solução de nossos problemas.
Foto de capa: IA

