É comum ouvir que o povo brasileiro não tem senso crítico e que vota mal. A sentença se repete como diagnóstico, mas inverte causa e consequência. Como no feminicídio, no racismo e na homofobia, dentre outros, culpa-se a vítima por aquilo que o sistema faz com ela. Antes de perguntar por que o eleitor vota como vota, vale perguntar por que as condições para votar de outro modo raramente a ele foram e continuam sendo oferecidas.
A maioria dos brasileiros é socializada em estruturas que não estimulam o pensamento crítico. A família, em sua maioria, reproduz a ideia de que política é coisa suja, a evitar, e que não se discute. A igreja, em suas vertentes majoritárias, reforça obediência às autoridades e desloca a política para o moralismo individual. A escola pouco, ou quase nada, discute poder, classes e interesses. Os meios de comunicação tratam a política como espetáculo e escândalo, raramente explicando a quem servem as decisões do Executivo e do Legislativo. As redes sociais, em vez de ampliar o debate, operam por engajamento emocional e desinformação.
O resultado vem sendo uma cultura política em que participar e exercer a cidadania se resume, no máximo, a votar. Mesmo sindicatos e partidos, que deveriam ser espaços de formação cidadã, em sua imensa maioria, abandonaram a educação política de base; viraram máquinas eleitorais que pedem voto, mas não formam quadros, nem discutem programas.
Assim, não é nada surpreendente que a maioria vote segundo os condicionamentos repassados por essas estruturas, em sua maioria de viés conservador. Inexiste carência de inteligência ou falta de repertório. O voto é dado a partir do medo, do moralismo ou da repetição.
A responsabilidade por esse estado de coisas está longe de ser do eleitor, privado de instrumentos; mas é de quem monopoliza a formação do senso comum e lucra com a sua manutenção.
Há um ciclo vicioso a ser quebrado: vota-se, sem debate amplo, sobre os interesses que candidatos e partidos representam; elegem-se políticos pouco comprometidos com o bem-estar coletivo; aprofunda-se o desencanto; e, desencantado, o eleitor volta a votar sem debate, quando não se abstém ou adere a ‘salvadores da pátria’ de plantão. A cada volta, a culpa recai sobre as vítimas, não sobre os arquitetos da desinformação.
Quebrar esse ciclo exige parar de tratar o eleitor como réu. Exige educação política nas escolas, democratização da mídia, responsabilização das plataformas digitais, e partidos e sindicatos que voltem a formar quem deles participa.
Exige, sobretudo, reconhecer que a ausência de senso crítico é um projeto, não uma falha individual. O brasileiro comum não é ignorante político por escolha própria; é privado das ferramentas do pensamento crítico e, ainda assim, obrigado a decidir. A pergunta ‘por que o povo vota mal?’, precisa ser substituída por ‘quem se beneficia com esse jeito de votar’?
Ao invés de apenas questionar por que o cidadão votou ‘errado’, é preciso perguntar qual participação social precisa ser pensada e operacionalizada para que ele possa compreender, questionar e, livremente, escolher. Enquanto o enfrentamento dessa pergunta continuar sendo adiada, será sempre tentador continuar culpando a vítima pelos resultados de uma estrutura que, há muito tempo, pouco fez para formar cidadãos politicamente críticos.
O ponto central, então, passa a ser reconhecer que: uma democracia não se constrói e, muito menos, se fortalece culpando seus cidadãos pela sua falta de formação política. Essa construção e fortalecimento só acontecerá através da criação de condições para que eles deixem de ser apenas eleitores e se tornem, de fato, sujeitos da política.
Foto de capa: IA



Uma resposta
Realmente precisamos de cursos e encontros gratuitos para formar um consciência social e política à altura do povo brasileiro com sua alegria e sadia desconfiança !