CORRESPONDENTE POLÍTICO | Renan Santos e as eleições em tempos de Tik Tok

O candidato do Missão cresce no ambiente digital, mas ainda precisa converter viralização em votos.
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 14:00
Editado em 26 de agosto de 2026 às 14:10

Na semana passada, comentamos por aqui como o candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, impressionou durante um almoço com políticos e empresários na Frente Parlamentar pelo Ambiente de Negócios. Ali, não compareceu o Renan lacrador, mas alguém bem mais sóbrio, e que parecia compreender como se dava o jogo da política exercido pelos deputados e senadores que o convidaram para uma sabatina. Na ocasião, comentamos: Renan Santos se livra da lacração ou a lacração ronda seu modo de fazer política? O debate da Band no domingo (23) deu a resposta. A gravata laranja escolhida pelo candidato do Missão brilhava de lacração. Fraldas cheias para representar os adversários ausentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro. Lula chamado de “bêbado”, Flávio Bolsonaro de “cagão”.

Os cortes para as redes estão prontos

Os cortes para as redes estão prontos
Cleitinho: as redes sociais explicamCrédito: Ton Molina/Agência Senado

Então, os cortes de Renan Santos para as redes sociais ficam prontos. Além das fraldas, o cartaz colado em frente ao púlpito vazio de Lula escrito “ladrão”. E outros momentos. No fundo, parece melhor para as pretensões de Renan Santos que Lula e Flávio Bolsonaro tivessem faltado. Ele diria e faria o mesmo se os dois estivessem presentes? Correria o risco de levar deles uma invertida em um ataque mais agressivo? É a eleição em tempos de Tik Tok. E Renan Santos parece à vontade para ela.

Mais bem adaptado ao fluxo digital

Para o diretor de Estratégia do DSC Lab, Tiago Falqueiro, Renan Santos é o candidato mais bem adaptado ao fluxo da produção de conteúdo digital. “Ele posta no tom e sobre o que sabe que viraliza”. Com isso, avalia que Renan “vai ganhando alcance das plataformas, que da mesma forma se alimentam de conteúdos polêmicos e de crítica”. Não por acaso, o Índice Brasil de Performance Digital (iBR), produzido pelo DSC Lab, bota Renan Santos com o segundo melhor desempenho, atrás somente de Flávio Bolsonaro.

“Em outros tempos, seria zero”

Mas isso não parece se refletir em votos: Renan tem ficado entre 4% e 5% nas pesquisas, nos cenários de primeiro turno. “Em outros tempos, ele seria zero”, observa Falqueiro. Para o diretor do DSC Lab, tomando-se que é um candidato que antes era quase desconhecido, “já é uma estratégia de sucesso”. A lacração do candidato do Missão já vai deixando para trás nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

“Vai crescer”

Então, nesse sentido, Tiago Falqueiro avalia que Renan Santos deverá crescer. É um pouco no que acredita o próprio Renan. Que seu desempenho digital irá se refletir mais no seu desempenho no mundo real à medida que as eleições foram se aproximando. Mas Falqueiro reconhece que pode haver diferença do ambiente digital para o real.

Mais estimulado

“A principal diferença que temos é que o ambiente na internet é naturalmente ‘mais estimulado’ que o das pesquisas”, observa Falqueiro. Os públicos dentro dos canais dos candidatos, seus partidos e correntes políticas estão mais propensos ao engajamento, a se moverem, e responderem às provocações. Essas métricas são medidas no iBR.

Menos “incorreto”

Nesse ambiente, considera Falqueiro, Flávio Bolsonaro, embora ainda seja o candidato que apresenta melhor desempenho digital, teria um problema com relação a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. “Flávio não consegue ser o porta-voz do politicamente incorreto como o pai era”, diz Falqueiro. “Tenta se adaptar e perde espaço”.

Importância

Há, porém, alguns outros analistas e observadores – alguns hoje integrados a campanhas de candidatos – que avaliam que o peso do desempenho digital pode estar sendo superestimado, especialmente levando-se em conta uma disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Um ambiente que amorteceria o impacto de outros desempenhos.

Mágica conhecida

Para alguns, as redes sociais hoje já seriam “mágica conhecida”, sem a mesma força de antes. E isso talvez até explique as várias trocas de marqueteiros nas campanhas. O rumo da comunicação desta vez não estaria muito claro. Por outro lado, o senador Cleitinho (Republicanos) lidera a corrida eleitoral em Minas, segundo maior colégio eleitoral.

Cleitinho

Cleitinho parece ser a constatação de que o mundo digital tem sua força. Ele não é um senador ativo. Relatou poucos projetos. Não tem presença importante em comissões. E deveria ter perdido espaço com sua hesitação em ser ou não candidato. Se nada disso aconteceu, a razão maior devem ser seus mais de sete milhões de seguidores.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Renan e as fraldas: a lacração parece irresistível | Reprodução/vídeo

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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