Da REDAÇÃO
Uma pesquisa nacional realizada pela Ipsos para o Global Fund for a New Economy (GFNE) revela um dado politicamente importante para a eleição de 2026: o eleitorado brasileiro permanece fortemente dividido quando avalia o governo Lula, mas essa polarização diminui bastante quando a discussão passa dos partidos e candidatos para propostas econômicas concretas.
Medidas associadas à proteção do trabalho, maior presença do Estado, tributação dos mais ricos, controle de preços de setores essenciais e redução da influência dos mercados financeiros recebem apoio que ultrapassa o eleitorado tradicional da esquerda. Em alguns casos, são majoritárias até entre pessoas que desaprovam Lula ou votaram em Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições presidenciais.
A pesquisa ouviu 2 mil brasileiros com 18 anos ou mais, das classes A, B e C, entre 22 de junho e 16 de julho de 2026. As entrevistas foram realizadas por painel on-line da Ipsos, com amostra por cotas e ponderação baseada em dados oficiais do IBGE/PNAD.
Uma nova agenda econômica amplia o eleitorado da centro-esquerda
Um dos experimentos mais interessantes do levantamento comparou diferentes plataformas políticas sem apresentá-las como programas de candidatos reais.
Na primeira experiência, uma plataforma definida pelos pesquisadores como de “centro-esquerda tradicional” recebeu 46%, contra 39% de uma plataforma de “direita genérica”. Outros 15% não escolheram nenhuma delas.
Quando a plataforma da direita foi confrontada com outra, denominada “Nova Economia”, o resultado mudou de forma expressiva: 59% preferiram a Nova Economia e apenas 27% ficaram com a direita. A vantagem passou de sete para 32 pontos percentuais.

A diferença não está simplesmente em tornar o programa mais à esquerda. Está também na escolha das prioridades e na maneira como elas são formuladas.
A plataforma de Nova Economia defendia aumento do salário mínimo para atender melhor às necessidades básicas, medidas para impedir aumentos excessivos de preços de alimentos, combustíveis e medicamentos, reconhecimento do trabalho de cuidado, direitos para trabalhadores informais e de aplicativos, imposto sobre patrimônios superiores a R$ 10 milhões e combate ao crime organizado com inteligência e corte de suas fontes de financiamento.
A agenda também cresce entre quem desaprova Lula
O resultado mais importante talvez apareça entre os eleitores que desaprovam o governo.
Quando a direita genérica é confrontada com a centro-esquerda tradicional, ela vence nesse grupo por 65% a 23%.
Contra a Nova Economia, porém, sua vantagem praticamente desaparece: 45% para a direita e 40% para a Nova Economia.
Entre os entrevistados que declararam ter votado em Bolsonaro tanto em 2018 quanto em 2022 ocorre movimento semelhante. A plataforma tradicional da centro-esquerda obtém apenas 19%, diante de 75% da direita. A Nova Economia sobe para 30%, enquanto a direita cai para 59%.
Isso não significa que esses eleitores estejam dispostos a votar em Lula. O teste mede preferência entre programas hipotéticos, não candidatos. Mas indica que a rejeição político-partidária à esquerda é significativamente maior do que a rejeição a várias políticas econômicas normalmente associadas a ela.
O custo de vida continua no centro da insatisfação
Entre os entrevistados que fazem avaliação negativa da economia brasileira, 63% apontam os preços e o custo de vida elevados como uma das razões principais.
Depois aparecem impostos altos, com 57%; salários e renda familiar insuficientes para cobrir os gastos, com 47%; preocupação com dívida pública e gastos governamentais, com 32%; e juros e custos do crédito elevados, com 28%.

A situação ajuda a explicar por que indicadores macroeconômicos favoráveis nem sempre se transformam automaticamente em aprovação política. Para grande parte do eleitorado, a economia é percebida pelo supermercado, pela conta de luz, pelo aluguel, pela parcela da dívida e pelo que sobra do salário.
Há também uma diferença importante entre a percepção individual e a percepção do país. 42% avaliam positivamente sua própria situação financeira, enquanto somente 32% dão avaliação positiva à economia brasileira.
A visão da economia passa pelo filtro político
A avaliação do desempenho econômico está fortemente relacionada à posição política.
Entre os entrevistados que aprovam Lula, 59% consideram positiva a situação econômica brasileira. Entre os que desaprovam o governo, apenas 14% fazem a mesma avaliação.
A diferença também aparece quando se considera o comportamento eleitoral passado. Entre os eleitores que votaram no PT em 2018 e 2022, 55% fazem avaliação positiva da economia brasileira. Entre os que votaram em Bolsonaro nas duas eleições, são somente 17%.
Isso sugere que a percepção da economia não é construída apenas pelas condições materiais das famílias. Identidade partidária, informação recebida e avaliação política também exercem influência importante.
Brasileiros veem um sistema econômico favorável aos mais ricos
Outro bloco de perguntas investigou crenças mais gerais sobre a economia.
A conclusão dos pesquisadores é clara: há percepção de que “o sistema é enviesado”. Entre diferentes afirmações oferecidas aos entrevistados, a que recebeu maior concordância foi a de que o sistema econômico brasileiro beneficia principalmente os ricos e poderosos.
Ao mesmo tempo, a afirmação segundo a qual as pessoas pobres permanecem pobres porque não querem trabalhar foi a mais rejeitada: 58% a escolheram como aquela de que mais discordavam.
A percepção de favorecimento aos ricos não está restrita aos apoiadores do governo. A própria pesquisa registra convergência entre quem aprova e quem desaprova Lula sobre esse diagnóstico.
Benefícios sociais continuam vistos como necessários
O levantamento também testou percepções sobre programas como Bolsa Família, Pé-de-Meia e Gás do Povo.
A principal conclusão é que os benefícios sociais são considerados necessários. A afirmação de que esses programas ajudam as famílias a pagar despesas básicas e acessar bens e serviços antes inacessíveis aparece como a de maior concordância.
Já a ideia de que o próximo governo deveria acabar com a maioria desses programas é fortemente rejeitada. 50% indicaram essa afirmação como aquela de que mais discordavam.
Há diferenças políticas importantes. Entre os que desaprovam Lula cresce a percepção de que benefícios sociais reduziriam a vontade de trabalhar. Mesmo assim, segundo a Ipsos, também nesse grupo permanece a percepção da necessidade de continuidade dos programas.
Juros aproximam eleitores que divergem sobre Lula
A pesquisa encontra um ponto de convergência particularmente relevante em relação às taxas de juros.
Os pesquisadores registram que tanto apoiadores quanto opositores do governo consideram os juros brasileiros elevados e percebem necessidade de maior controle sobre eles.
O resultado se repete entre eleitores com trajetórias partidárias opostas: quem votou consistentemente no PT e quem votou consistentemente contra o partido manifestam apoio à ideia de maior controle dos juros pelo governo.
A preocupação torna-se ainda mais concreta quando relacionada às dívidas. 65% concordam principalmente com a afirmação de que as altas taxas de juros são a principal razão pela qual muitos brasileiros não conseguem quitar suas dívidas.
E essa percepção praticamente não muda segundo o histórico eleitoral: chega a 69% entre eleitores consistentes do PT, 65% entre os que votaram consistentemente contra o partido e 63% entre os demais.
Governo forte encontra apoio além da esquerda
A pesquisa também contraria a ideia de que exista na sociedade brasileira uma preferência predominante por um Estado mínimo.
Entre diferentes afirmações, 47% escolheram como aquela de maior concordância a defesa de que o Brasil precisa de um governo forte, capaz de investir no desenvolvimento de longo prazo e orientar o crescimento econômico.
Em sentido contrário, 35% indicaram a proposta de reduzir o Estado e deixar o setor privado conduzir o crescimento como aquela da qual mais discordavam.
O mais significativo é que esse resultado novamente ultrapassa a divisão governo-oposição. A Ipsos conclui que tanto quem aprova quanto quem desaprova Lula percebe a necessidade de um Estado forte impulsionando a economia e manifesta resistência à redução do papel estatal.
Mercado financeiro não deve comandar as decisões, diz maioria
O resultado aparece também quando os entrevistados precisam optar diretamente entre atender ao mercado financeiro ou priorizar a população.
56% afirmam que o governo deve priorizar aquilo que considera melhor para os brasileiros comuns, mesmo que os mercados reajam negativamente. Apenas 24% dizem que o governo deve seguir as recomendações dos mercados financeiros.
A taxação das grandes fortunas também obtém maioria: 53% defendem que grandes fortunas sejam tributadas para financiar investimentos públicos, enquanto 27% consideram que isso prejudicaria a economia.
Já a flexibilização dos limites de gastos para ampliar investimentos em saúde e educação divide mais o eleitorado: 43% defendem limites mais flexíveis, enquanto 40% preferem regras rigorosas para controlar gastos e evitar dívidas.

Petrobras e preços dos combustíveis produzem maiorias expressivas
Alguns dos resultados mais claros aparecem quando o assunto é Petrobras.
66% defendem que Petrobras e governo controlem os preços dos combustíveis para mantê-los estáveis e acessíveis, contra apenas 20% favoráveis à vinculação dos preços ao mercado internacional.
E 59% defendem que o Estado mantenha o controle de empresas estratégicas como a Petrobras, enquanto somente 22% preferem sua privatização.
São resultados que mostram o limitado apoio popular a uma agenda de privatização irrestrita e de preços definidos exclusivamente pelo mercado.
Fim da escala 6×1 tem apoio até entre opositores
Poucas propostas testadas apresentam maioria tão ampla quanto o fim da escala 6×1.
73% dos entrevistados apoiam o fim do regime de seis dias de trabalho por um de descanso e a redução da jornada máxima semanal para 40 horas sem diminuição salarial. Apenas 13% se opõem.

Entre quem aprova Lula, o apoio chega a 92%. Mais significativo para a disputa política é que 60% dos que desaprovam o governo também são favoráveis à proposta.
O mesmo acontece entre eleitores que votaram contra o PT em 2018 e 2022: 54% apoiam o fim da escala 6×1, contra 30% que se opõem.
Isenção do Imposto de Renda é conhecida e valorizada
Outra política com elevado reconhecimento é a nova regra do Imposto de Renda.
81% dos entrevistados já conheciam a isenção para rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5 mil e a redução do imposto para rendimentos de até R$ 7.350.
Embora apenas 39% identifiquem que a medida se aplica a alguém de sua residência, 69% consideram a mudança importante ou muito importante.
Até entre os que desaprovam Lula, 61% consideram a nova regra importante ou muito importante.
O resultado reforça outro problema político do governo: uma medida pode obter aprovação expressiva sem que essa avaliação se transforme automaticamente em apoio ao presidente.
Política externa pragmática também encontra maioria
O estudo pesquisou ainda qual orientação o Brasil deveria adotar em suas relações internacionais.
Metade dos entrevistados — 50% — prefere que o país mantenha relações com todos os países, independentemente de alinhamento político, priorizando as vantagens comerciais para o Brasil.
A preferência específica por fortalecer relações com os Estados Unidos aparece com 13%. Outros 13% preferem fortalecer BRICS e países vizinhos da América Latina; 7% priorizam a China; e 5%, países europeus.
Também aqui há convergência: a opção por uma política externa pragmática, baseada nos interesses econômicos brasileiros e não em alinhamentos automáticos, é majoritária tanto entre quem aprova quanto entre quem desaprova Lula.
O problema pode estar menos nas propostas do que na forma de apresentá-las
Tomados em conjunto, os resultados sugerem uma conclusão política importante para a centro-esquerda e, em particular, para a campanha de Lula.
Existe uma parcela significativa do eleitorado que rejeita o governo, o PT ou a esquerda tradicional, mas não necessariamente rejeita políticas associadas a maior proteção dos trabalhadores, fortalecimento da ação estatal e redução do poder econômico dos grupos mais ricos.
A pesquisa mostra apoio majoritário ao fim da escala 6×1, à tributação das grandes fortunas, à manutenção de empresas estratégicas sob controle estatal, à atuação pública sobre os preços dos combustíveis e à prioridade aos brasileiros comuns diante das pressões dos mercados financeiros.
Mostra também desconfiança em relação ao funcionamento da economia, percepção de que o sistema beneficia os ricos e forte preocupação com preços, salários, dívidas e juros.
Por isso, a dificuldade da centro-esquerda pode não estar apenas no conteúdo de suas propostas. Pode estar também na linguagem empregada para apresentá-las e na capacidade de relacioná-las diretamente aos problemas cotidianos da população.
O experimento da Ipsos é especialmente revelador nesse aspecto. A centro-esquerda tradicional vence a direita por sete pontos. Uma plataforma que fala mais diretamente em salário, preços, direitos, concentração de riqueza e condições concretas de vida vence a mesma direita por 32 pontos.
A diferença é grande demais para ser ignorada em uma campanha eleitoral.
Fonte: Pesquisa Percepções sobre a Economia Brasileira, realizada pela Ipsos para o Global Fund for a New Economy (GFNE), com 2 mil entrevistas realizadas entre 22 de junho e 16 de julho de 2026 e divulgada em agosto de 2026.
Créditos: Ipsos / Global Fund for a New Economy (GFNE).
Nota de transparência editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para pesquisa, organização de informações e apoio à redação. O texto final é de responsabilidade da equipe da RED.
Ilustração da capa: Crédito RED IA.

