Presidente tem 39% contra 33% de Flávio Bolsonaro; variações estão dentro da margem de erro de dois pontos e levantamento foi realizado quando a campanha mal havia começado
A pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 21 de agosto, mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança da disputa presidencial, com 39% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro (PL). Mais do que uma mudança significativa na correlação de forças, os números revelam, até agora, um quadro de estabilidade.
Na pesquisa anterior, divulgada em 24 de julho, Lula tinha 40% e Flávio, 32%. Agora, Lula aparece com um ponto percentual a menos e Flávio com um ponto a mais.
É preciso cautela ao interpretar essas oscilações.
A margem de erro do Datafolha é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Uma variação de apenas um ponto percentual entre duas pesquisas não permite afirmar que um candidato efetivamente perdeu ou ganhou votos. Tanto os 40% anteriores de Lula quanto os atuais 39%, assim como os 32% anteriores e os atuais 33% de Flávio Bolsonaro, são estatisticamente compatíveis com um cenário de estabilidade.
É verdade que, aritmeticamente, a diferença entre os dois passou de oito para seis pontos. Mas transformar automaticamente essa redução em tendência de queda de Lula e crescimento de Flávio seria ir além do que os dados permitem afirmar.
Um ponto para cada lado não significa uma tendência
Esse cuidado é ainda mais necessário porque a redução da distância resulta de duas oscilações mínimas ocorridas simultaneamente: Lula variou um ponto para baixo e Flávio, um ponto para cima.
A soma aritmética produz uma redução de dois pontos na distância entre eles. Estatisticamente, porém, não se pode simplesmente somar essas oscilações e concluir que ocorreu uma movimentação equivalente do eleitorado de um candidato para o outro.
Para caracterizar uma tendência consistente seria necessário observar a repetição do movimento em novas rodadas — preferencialmente também em levantamentos de outros institutos.
No segundo turno, a cautela deve ser a mesma. Lula aparece com 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior eram 48% a 43%. Mais uma vez, Lula oscilou apenas um ponto, enquanto Flávio permaneceu exatamente no mesmo patamar.
O dado central, portanto, não é uma queda significativa de Lula nem uma arrancada de Flávio Bolsonaro. O que o Datafolha mostra neste momento é uma disputa polarizada e estatisticamente estável, com Lula na liderança.
E a campanha praticamente ainda não começou para o grande público
Há outro elemento fundamental para interpretar a pesquisa: o momento em que ela foi realizada.
As entrevistas ocorreram entre 18 e 20 de agosto, apenas alguns dias depois do início formal da campanha eleitoral, em 16 de agosto. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa somente em 28 de agosto.
Também é apenas agora que a propaganda eleitoral oficial nas redes sociais começa a ganhar intensidade e organização.
Isso significa que o levantamento registra muito mais a situação herdada da pré-campanha do que eventuais efeitos da campanha propriamente dita.
É justamente nas próximas semanas, com a propaganda eleitoral, os programas de rádio e televisão, as redes sociais, os debates e a intensificação das agendas dos candidatos, que uma parcela muito maior da população começará a acompanhar efetivamente a eleição.
Um dado do próprio levantamento ajuda a dimensionar esse quadro: na pesquisa espontânea, 32% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar.
Trata-se de um contingente muito elevado e de uma indicação adicional de que a escolha presidencial permanece pouco cristalizada para parcela expressiva do eleitorado.
Projetar o resultado de outubro a partir de oscilações de um ponto percentual registradas em agosto seria, portanto, prematuro.
Lula chega à campanha depois de forte exposição negativa
O contexto imediatamente anterior à pesquisa também precisa ser considerado.
Nas últimas semanas, Lula e seu governo foram submetidos a forte exposição negativa nos grandes veículos de comunicação em razão de reportagens sobre Fábio Luís Lula da Silva. Suspeitas, informações provenientes de investigações, relações pessoais e empresariais e interpretações sobre o significado desses elementos receberam ampla repercussão e foram frequentemente apresentadas em associação direta com o presidente.
É importante distinguir, entretanto, o que está sendo investigado daquilo que já foi efetivamente demonstrado. A existência de investigações envolvendo Fábio Luís não comprova, por si mesma, as condutas que lhe são atribuídas, muito menos eventual participação ou responsabilidade do presidente da República. Essa diferença é essencial tanto do ponto de vista jurídico quanto jornalístico.
Esse contexto é particularmente relevante para interpretar o Datafolha. Durante o período imediatamente anterior ao levantamento, Lula enfrentou uma sequência de notícias negativas de grande repercussão, antes que sua própria campanha tivesse à disposição os principais instrumentos de comunicação eleitoral para apresentar sua agenda, responder aos ataques e disputar diretamente a interpretação dos acontecimentos.
Não é possível estabelecer uma relação causal entre essa cobertura e o resultado da pesquisa. Mas é igualmente inadequado ignorar o ambiente informativo no qual os eleitores foram entrevistados.
Sob essa perspectiva, a passagem de Lula de 40% para 39% — apenas um ponto percentual, dentro de uma margem de erro de dois pontos — dificilmente pode ser apresentada como evidência de perda efetiva de apoio. Depois de semanas de exposição predominantemente negativa, a estabilidade estatística também pode ser lida como indicação da resistência de seu eleitorado.
Flávio também não rompe seu patamar
A mesma prudência deve ser aplicada ao desempenho de Flávio Bolsonaro.
Passar de 32% para 33% não caracteriza, por si só, crescimento eleitoral consistente. A oscilação também está inteiramente dentro da margem de erro.
Até agora, Flávio permanece próximo de um terço do eleitorado, enquanto as demais candidaturas continuam muito distantes dos dois primeiros colocados.
Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e os demais concorrentes permanecem em patamares muito inferiores aos de Lula e Flávio.
A chamada terceira via, portanto, continua sem conseguir romper a polarização entre Lula e o bolsonarismo.
Essa é uma questão importante também para um eventual segundo turno. Parte significativa dos votos hoje distribuídos entre candidaturas de direita tende a tornar-se objeto de uma disputa decisiva caso Lula e Flávio sejam os dois finalistas.
A eleição começa agora
Talvez essa seja a conclusão mais importante do Datafolha de 21 de agosto.
A pesquisa não mostra uma arrancada de Flávio Bolsonaro nem uma queda significativa de Lula. Mostra uma fotografia essencialmente estável no momento em que a campanha começa a sair dos círculos mais politizados e alcançar o conjunto da sociedade.
Lula continua liderando.
Flávio Bolsonaro continua consolidado como seu principal adversário.
Os demais candidatos continuam muito atrás.
E quase um terço dos eleitores ainda não sabe espontaneamente em quem votar.
Com margem de erro de dois pontos percentuais, oscilações de um ponto para cima ou para baixo devem ser tratadas como aquilo que são: movimentos insuficientes, isoladamente, para demonstrar uma mudança real na preferência do eleitorado.
Há ainda uma particularidade importante nesta fotografia. Lula atravessou as semanas anteriores ao levantamento sob intensa cobertura negativa dos grandes meios de comunicação, enquanto a campanha eleitoral propriamente dita e seus principais instrumentos de comunicação ainda não haviam entrado plenamente em funcionamento. Mesmo nesse ambiente, sua intenção de voto permaneceu estatisticamente estável e ele conservou a liderança.
A partir do início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão e da intensificação da campanha nas redes sociais, começa uma etapa diferente da disputa. Será então possível observar se Lula amplia sua vantagem, se Flávio consegue efetivamente crescer ou se algum dos demais candidatos rompe o baixo patamar em que se encontra.
Por enquanto, o Datafolha recomenda menos dramaticidade e mais precisão.
A eleição permanece aberta, Lula continua na frente e as oscilações registradas até agora são pequenas demais para sustentar a existência de uma nova tendência.
A pesquisa ouviu 2.058 eleitores em 127 municípios entre 18 e 20 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi contratado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04496/2026.


