Da Redação*
Mais de dois anos passados da enchente que devastou o Rio Grande do Sul, as grandes obras destinadas a ampliar a proteção contra cheias na Região Metropolitana de Porto Alegre começam a sair do papel. Mas ainda estão longe de oferecer a segurança prevista quando a União destinou R$ 6,5 bilhões ao Estado para esse fim. E a demora ganha contornos ainda mais preocupantes diante do fortalecimento do El Niño e da perspectiva de chuvas acima da média no Sul do país nos próximos meses.
Os recursos foram colocados à disposição por meio do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece), criado no final de 2024. O modelo estabelece que Estado e municípios preparem projetos, realizem licitações e executem as intervenções, enquanto os recursos federais são liberados conforme o avanço das obras.
Durante quase todo o ano de 2025, porém, o dinheiro permaneceu praticamente sem utilização porque os projetos necessários não haviam avançado. Somente neste ano começaram a aparecer de maneira mais concreta contratos e obras de maior porte. Mas com lentidão injusticável.
Em São Leopoldo, por exemplo, a primeira intervenção financiada pelo Firece começou apenas em junho de 2026. O projeto envolve canal de drenagem, bacia de amortecimento e uma nova casa de bombas, com capacidade total de 12 mil litros por segundo. O investimento previsto chega a R$ 69,3 milhões.
Dinheiro existe, mas proteção demora
O problema, portanto, não está na inexistência de recursos. Os R$ 6,5 bilhões foram garantidos pelo governo Lula ainda em dezembro de 2024, para sistemas de diques, casas de bombas, canais e outras estruturas capazes de reduzir os efeitos de novas inundações. O desafio tem sido transformar o dinheiro disponível em projetos concluídos, contratos e, finalmente, obras acontecendo.
O governo de Eduardo Leite argumenta que as intervenções são de grande porte, tecnicamente complexas e precisam considerar novos parâmetros estabelecidos depois da catástrofe de 2024. O secretário estadual da Reconstrução, Pedro Capeluppi, também defende uma atuação integrada entre Estado, União e municípios – o que, aliás, há muito vem sendo proposto ao RS, sem que se concretize. Em audiência realizada em junho, ele reconheceu que o sistema metropolitano precisa de melhorias e afirmou que, em 2024, estruturas existentes não funcionaram integralmente por problemas de manutenção em diques e casas de bombas.
A complexidade técnica, entretanto, convive com uma realidade difícil de ignorar: a maior catástrofe climática da história gaúcha ocorreu há mais de dois anos e parte importante das obras destinadas a impedir que ela se repita ainda está apenas começando a sair do papel.
El Niño aumenta a urgência
O calendário torna essa demora especialmente preocupante. A NOAA, agência meteorológica e oceanográfica dos Estados Unidos, informou em 13 de agosto que o El Niño está se fortalecendo e atribuiu probabilidade superior a 90% de que alcance intensidade muito forte durante o segundo semestre e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/27.
Modelos experimentais da própria NOAA apontam que o fenômeno deverá continuar ganhando força durante a primavera, provavelmente atingindo o pico entre outubro e janeiro. Os 30 cenários simulados pelo sistema SPEAR indicam um episódio capaz de competir com os El Niños mais fortes já registrados.
Para o Sul do Brasil, o El Niño está historicamente associado ao aumento da precipitação. Projeções divulgadas neste mês apontam possibilidade de chuvas acima da média na região, embora a intensidade do fenômeno, isoladamente, não permita prever onde nem quando ocorrerão eventos extremos.
É justamente essa incerteza que deixa uma pergunta urgente para Porto Alegre e os demais municípios metropolitanos: se as chuvas muito volumosas se confirmarem a partir da primavera, haverá tempo para que as obras iniciadas apenas agora proporcionem proteção efetiva à população?
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Enchente de 2024 em Porto Alegre. Crédito: Revista Fapesp

