O Brasil voltou a crescer gerando empregos. Agora é preciso gerar bons empregos | Por Clemente Ganz Lúcio

País amplia o emprego formal, mas precisa avançar na qualidade do trabalho.
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 8:00
Editado em 19 de agosto de 2026 às 18:03

O Brasil chega ao meio de 2026 com uma notícia que merece ser compreendida em toda a sua dimensão econômica, social e política. Os novos dados da RAIS Mensal, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego[1], mostram que o estoque de vínculos formais de trabalho alcançou 62,9 milhões em junho. Desde janeiro de 2023 foram acrescidos 10,1 milhões de vínculos, expansão de 19,1%. Somente nos primeiros seis meses deste ano, o crescimento foi de 2,46 milhões de vínculos, ou 4,1%.

Não se trata apenas de um número expressivo. Trata-se da confirmação de uma mudança importante na dinâmica do mercado de trabalho brasileiro e, ao mesmo tempo, da abertura de uma nova etapa de desafios. Depois de anos em que desemprego elevado, informalidade, baixos salários e precarização marcaram profundamente a vida dos trabalhadores, o país voltou a experimentar um ciclo no qual crescimento econômico, geração de ocupações e ampliação do emprego formal caminham juntos.

É preciso compreender as bases que sustentaram esse resultado.

A primeira delas foi a retomada do crescimento econômico. A economia brasileira cresceu 3,2%, 3,4% e 2,3% em 2023, 2024, 2025 respectivamente. Crescimento econômico importa porque não há geração sustentada de empregos sem uma economia que produza, invista, consuma e amplie sua capacidade produtiva.

Mas importa observar também de onde veio esse crescimento. A expansão recente combinou diferentes motores: crescimento do consumo das famílias, recuperação da renda do trabalho, política de valorização do salário mínimo, transferências de renda, crédito, investimento público e privado, políticas industriais, expansão dos serviços e desempenho das exportações.

Há aqui uma relação virtuosa que precisa ser valorizada. Mais emprego gera renda. Mais renda sustenta consumo. O consumo movimenta as empresas, amplia a produção e cria demanda por novos trabalhadores. A formalização, por sua vez, aumenta a proteção social, fortalece a arrecadação previdenciária, o FGTS e o FAT e dá maior segurança às famílias para planejar consumo, moradia, educação e investimento. Foi essa a mensagem que o Presidente Lula transmitiu no lançamento dos resultados no MTE recentemente.

Portanto, emprego e crescimento não são dois fenômenos independentes. O trabalho é simultaneamente resultado e motor do desenvolvimento.

Um resultado extraordinário que precisa ser bem compreendido

Os 10,1 milhões de vínculos formais adicionais desde janeiro de 2023 constituem um resultado extraordinário, mas sua composição precisa ser observada cuidadosamente.

Os dados da RAIS Mensal mostram dois grandes movimentos. De um lado, os vínculos celetistas, inclusive temporários, cresceram cerca de 4,75 milhões, passando de 43,4 milhões para 48,15 milhões. Esse é um indicador particularmente importante da capacidade da economia de gerar empregos formais no setor privado.

De outro lado, a estatística registra expansão ainda maior entre os agentes públicos com cerca de 5,1 milhões de vínculos no período, alcançando 14,3 milhões em junho de 2026. Coerentemente, o conjunto formado por administração pública, educação, saúde e serviços sociais aparece como responsável por 6,03 milhões dos vínculos adicionais.

Esse segundo movimento precisa ser analisado com cautela. Estamos tratando de vínculos registrados pela RAIS Mensal, construída a partir das informações do eSocial e não simplesmente de pessoas que ingressaram no serviço público. O material divulgado pelo MTE não permite, por si só, separar quanto dessa forte expansão corresponde, efetivamente, à criação de novos postos de trabalho e quanto pode estar relacionado à ampliação da cobertura e incorporação de vínculos públicos aos registros administrativos. Essa distinção é essencial para uma leitura rigorosa dos números.

A necessidade dessa cautela fica ainda mais evidente quando observamos apenas o período recente. Entre dezembro de 2025 e junho de 2026, os empregos formais privados cresceram em cerca de 920 mil vínculos, enquanto os agentes públicos registraram expansão de aproximadamente 1,5 milhão de vínculos ou 11,9%, em apenas seis meses. É uma variação de magnitude excepcional, que recomenda aprofundar a análise metodológica antes de atribuí-la integralmente à criação de novos postos de trabalho.

Feita essa ressalva, permanece um resultado muito robusto: o estoque de vínculos celetistas cresceu cerca de 4,75 milhões desde janeiro de 2023. É uma expansão expressiva do emprego formal associada ao novo ciclo de crescimento da economia brasileira.

O crescimento alcançou diferentes setores e regiões

Os serviços lideraram em números absolutos. Segundo o MTE, o setor acrescentou 8,45 milhões de vínculos desde janeiro de 2023 e ampliou sua participação de 56,5% para 60,8% do mercado formal. Uma parcela expressiva desse resultado, como vimos, está associada à administração pública, educação, saúde e serviços sociais.

Mas houve crescimento também nos setores diretamente relacionados à produção. A indústria adicionou 832 mil vínculos e alcançou 9,15 milhões. A construção incorporou outros 357 mil. Comércio e agropecuária também apresentaram expansão.

Esse espalhamento importa porque uma estratégia de desenvolvimento não pode depender exclusivamente de um setor. Precisamos de uma economia diversificada, capaz de articular indústria, agricultura, serviços, infraestrutura, economia digital e serviços públicos, criando cadeias produtivas densas e empregos de diferentes níveis de qualificação.

A distribuição territorial também chama a atenção. Todas as regiões apresentaram crescimento do estoque formal. Em números absolutos, o Sudeste acrescentou 3,78 milhões de vínculos e o Nordeste, 2,69 milhões. Proporcionalmente, entretanto, Norte, Centro-Oeste e Nordeste cresceram mais rapidamente.

Há ainda uma transformação relevante na composição desse mercado. O estoque de vínculos ocupados por mulheres cresceu mais rapidamente que o dos homens. A participação feminina passou de 44,5% para 46,4% do total formal. Também houve expansão entre jovens e trabalhadores mais velhos e forte crescimento dos vínculos de pessoas com ensino médio e superior.

São movimentos importantes. Mas eles nos levam à pergunta que deve orientar a próxima etapa: que empregos estamos criando e que empregos queremos criar?

Da quantidade à qualidade: o desafio dos bons empregos

Gerar empregos é fundamental. Gerar bons empregos deve ser o objetivo estratégico. Um bom emprego não pode ser definido somente pela existência de uma ocupação. Deve combinar remuneração adequada, direitos, proteção previdenciária, saúde e segurança, jornada compatível com uma vida digna, oportunidades de formação e progressão profissional, igualdade de oportunidades, liberdade sindical e capacidade de representação e negociação coletiva.

Essa agenda torna-se ainda mais importante diante das profundas transformações tecnológicas em curso. Inteligência artificial, automação, plataformas digitais e novas formas de organização empresarial estão modificando ocupações e tarefas em velocidade extraordinária. A questão não é impedir a mudança tecnológica, mas definir socialmente como os ganhos de produtividade produzidos por ela serão distribuídos.

Parte desses ganhos deve chegar aos trabalhadores na forma de melhores salários, redução da jornada, qualificação profissional, ambientes de trabalho mais seguros e melhores condições de vida.

Por isso, o avanço do emprego formal deve dialogar com outras agendas que estão hoje no centro do debate trabalhista brasileiro: redução da jornada para 40 horas, garantia de dois dias de descanso semanal, fortalecimento da negociação coletiva, proteção aos trabalhadores de plataformas, formação profissional permanente e políticas de saúde e segurança capazes de enfrentar inclusive os novos riscos físicos e psicossociais associados às transformações tecnológicas.

A informalidade continua sendo um problema estrutural

O crescimento do emprego formal não deve esconder uma característica histórica do mercado de trabalho brasileiro. Ainda temos milhões de trabalhadores vivendo à margem da proteção trabalhista e previdenciária.

A informalidade continua atingindo parcela muito elevada da população ocupada. Isso significa milhões de empregados sem carteira, trabalhadores domésticos sem registro e trabalhadores por conta própria sem cobertura adequada. Portanto, formalizar continua sendo uma das maiores políticas sociais que o Brasil pode realizar.

A formalização protege o trabalhador no presente e no futuro. Dá acesso à Previdência, ao FGTS, ao seguro-desemprego quando devido, à proteção contra acidentes, à licença maternidade  e a um conjunto de direitos construídos ao longo de décadas. Mas ela também sustenta o sistema de proteção social e importantes instrumentos de financiamento do desenvolvimento.

Reduzir a informalidade exige crescimento econômico, fiscalização, inclusão produtiva, políticas voltadas às pequenas empresas, crédito, formação profissional e ampliação da produtividade. Exige também construir portas de entrada para que trabalhadores autônomos e por conta própria tenham proteção social adequada às suas formas reais de inserção produtiva.

A pejotização não pode produzir informalidade legalizada

É nesse contexto que o país precisa enfrentar com clareza a pejotização fraudulenta. Existe uma diferença fundamental entre empreendedorismo verdadeiro e transformar artificialmente um trabalhador subordinado em empresa individual apenas para retirar direitos e reduzir custos trabalhistas.

Quando existe autonomia empresarial efetiva, organização própria do trabalho, capacidade de estabelecer preços, assumir riscos e prestar serviços de maneira independente, estamos diante de uma atividade econômica legítima. Outra coisa completamente diferente é substituir um emprego por uma pessoa jurídica quando continuam presentes, na realidade, características típicas de uma relação de emprego. Nesse caso não estamos modernizando as relações de trabalho. Estamos apenas transferindo riscos da empresa para o trabalhador.

E há uma contradição que precisa ser explicitada: enquanto o país comemora a extraordinária expansão do emprego formal, não pode permitir que outra porta seja aberta para retirar trabalhadores dessa mesma formalidade.

A pejotização fraudulenta reduz direitos individuais, mas seu efeito é também coletivo. Ela enfraquece a Previdência Social, diminui depósitos no FGTS, reduz recursos do FAT e afeta inclusive a capacidade de financiamento do desenvolvimento pelo BNDES. Produz ainda concorrência desleal: empresas que cumprem integralmente suas obrigações passam a competir com outras que reduzem artificialmente os custos por meio da fraude trabalhista.

Combater a pejotização fraudulenta, portanto, não significa combater o empreendedorismo. Significa estabelecer segurança jurídica para distinguir relações empresariais legítimas de relações de emprego artificialmente disfarçadas.

Trabalho no centro do desenvolvimento

Os resultados apresentados pelo MTE mostram que o Brasil recuperou uma capacidade fundamental: crescer gerando emprego formal. Agora precisamos dar um passo além.

A meta para os próximos anos deve ser simultaneamente econômica e social: manter o crescimento, elevar o investimento e a produtividade, fazer com que esse avanço produza cada vez mais empregos de qualidade, salários maiores e redução permanente da informalidade e das desigualdades.

Isso exige uma estratégia nacional de desenvolvimento na qual política econômica, política industrial, inovação, inteligência artificial, transição ecológica, educação, formação profissional e política trabalhista estejam articuladas.

O Brasil precisa produzir mais e melhor. Precisa elevar sua produtividade. Precisa aproveitar as oportunidades abertas pela transformação digital e pela economia de baixo carbono. Precisa fortalecer sua indústria e ampliar serviços intensivos em conhecimento. Mas o objetivo final desse esforço deve ser melhorar concretamente a vida das pessoas.

Colocar o trabalho no centro da estratégia de desenvolvimento significa também fortalecer a negociação coletiva e construir processos permanentes de diálogo social entre trabalhadores, empresários e Estado. Diante da velocidade das transformações econômicas e tecnológicas, nenhuma legislação conseguirá antecipar todas as situações. A negociação coletiva deverá ter capacidade crescente para produzir respostas nacionais, setoriais, territoriais e empresariais às mudanças no mundo do trabalho.

Os 10,1 milhões de vínculos formais adicionais registrados desde janeiro de 2023 são uma conquista importante, cuja composição precisa ser corretamente compreendida. Dentro desse resultado, a expansão de cerca de 4,75 milhões de vínculos celetistas constitui evidência particularmente sólida da recuperação do emprego formal privado. Esse resultado não deve ser ponto de chegada. Deve ser uma plataforma para uma ambição maior.

O próximo desafio brasileiro é o de aprimorar a combinação entre crescimento, produtividade e trabalho decente. Isso significa fazer a economia crescer para gerar bons empregos; fazer salários e produtividade crescerem juntos; reduzir vigorosamente a informalidade; combater as formas fraudulentas de contratação; preparar os trabalhadores para as transformações tecnológicas; fortalecer a negociação coletiva e distribuir os ganhos produzidos pelo desenvolvimento.

Essa é a agenda capaz de transformar uma excelente notícia sobre o mercado de trabalho em uma estratégia duradoura de desenvolvimento econômico e social.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Clemente Ganz Lúcio
Sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).

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