Lula precisa apostar contra as bets | Por Castigat Ridens

O governo Lula regulamentou as bets, mas elas continuam drenando bilhões da renda das famílias. Enquanto Lula hesita em partir para uma ofensiva mais dura, a oposição percebe a oportunidade e tenta ocupar uma bandeira de forte apelo popular.
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 14:59
Editado em 19 de agosto de 2026 às 14:59

O governo aumenta salários, transfere renda e estimula o consumo. Depois aceita que as bets disputem esse dinheiro com o supermercado, a farmácia e as contas do mês. Se Lula não enfrentar o problema agora, a oposição agradece

Há coisas que só a política do toma-lá-dá-cá consegue transformar em normalidade.

O Estado faz um esforço gigantesco para aumentar o salário mínimo, criar empregos, transferir renda, reduzir a pobreza e colocar algum dinheiro no bolso de quem vive apertado.

Depois, contempla, regulamenta e tributa uma indústria cuja prosperidade depende justamente de retirar uma parte desse dinheiro do bolso dessas mesmas pessoas.

É uma espécie de política pública de renda com vazamento incorporado.

E o governo Lula precisa decidir se pretende continuar tentando consertar o vazamento ou finalmente fechar a torneira.

As bets cresceram de tal maneira que já não estamos discutindo apenas entretenimento, futebol ou o direito de alguém perder alguns reais tentando adivinhar quem fará o primeiro gol.

Estamos falando de um gigantesco negócio instalado no orçamento das famílias brasileiras.

E a oposição já percebeu o tamanho da oportunidade. Caiado entrou por uma porta. Zema escancarou a outra.

Ronaldo Caiado anunciou que pretende utilizar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para rastrear operações suspeitas envolvendo bets e fintechs, combater lavagem de dinheiro e restringir a publicidade.

Romeu Zema foi além: prometeu que, se eleito presidente, seu primeiro ato será acabar com as bets.

Pode-se discutir o alcance da proposta de Caiado e a sinceridade da promessa de Zema. O que não se pode discutir é a esperteza política de ambos.

Enquanto o governo regulamenta, Caiado promete bater e Zema banir.

O eleitor entende perfeitamente a diferença.

Regulamentamos o cassino. Que alívio

Seria injusto dizer que o governo Lula nada fez.

Fez bastante.

Depois da legalização das apostas de quota fixa em 2018, no governo Michel Temer — aquelas em que o apostador já sabe, ao fazer a aposta, quanto poderá receber se acertar —, e da ausência de regulação durante o governo Bolsonaro, a Lei nº 14.790, sancionada em 2023, estabeleceu o marco regulatório que permitiu ao governo organizar um mercado que havia crescido sem controle.

Vieram a Secretaria de Prêmios e Apostas, autorizações, fiscalização, bloqueio de empresas clandestinas, restrições aos beneficiários do Bolsa Família e do BPC, mecanismos de autoexclusão e novas regras para publicidade.

Tudo muito necessário.

E insuficiente.

Porque toda essa arquitetura parte de uma premissa bastante conveniente para as empresas: as bets são uma atividade econômica normal, vieram para ficar e cabe ao Estado torná-las civilizadas.

O problema é que talvez não exista cassino civilizado quando ele cabe dentro do bolso.

Uma máquina que nunca fecha

As antigas casas de jogo tinham limites físicos. Havia uma porta para entrar, um lugar para chegar e alguma distância entre o impulso e a aposta.

As bets aboliram tudo isso.

A aposta está disponível 24 horas por dia, a poucos toques de distância. Viaja no ônibus com o trabalhador, entra no intervalo do serviço, acompanha o jogo de futebol, chega à cama e pode disputar os últimos reais da conta bancária antes mesmo que eles cheguem ao supermercado.

Não é apenas uma mudança tecnológica. É uma transformação radical na capacidade de capturar dinheiro.

Estudo do Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de brasileiros fizeram apostas entre janeiro e agosto de 2024, movimentando em média R$ 20,8 bilhões por mês em transferências para empresas do setor.

Parte importante desse dinheiro retorna sob a forma de prêmios.

Naturalmente.

Se ninguém ganhasse de vez em quando, o negócio não funcionaria.

A engrenagem depende precisamente da combinação entre pequenas vitórias, expectativa permanente e perdas sucessivas.

No conjunto, porém, a casa ganha.

E o dinheiro que fica na casa não compra arroz, feijão, remédio, roupa, sapato nem material escolar. Não paga a prestação atrasada. Não circula no mercadinho do bairro.

Sai da economia cotidiana e entra numa máquina especializada em transformar esperança em receita empresarial.

Lula dá. A bet leva

Aqui aparece uma contradição que o governo deveria ter percebido há muito tempo.

Lula construiu sua trajetória presidencial sobre uma ideia muito simples: aumentar a renda de quem tem pouco movimenta toda a economia.

Aumenta-se o salário mínimo.

Amplia-se o emprego.

Transfere-se renda.

Facilita-se o crédito.

Estimula-se o consumo.

E então aparece no celular uma indústria inteira dizendo ao trabalhador que seus R$ 50 podem virar R$ 500 antes do jantar.

É difícil imaginar uma política mais contraditória.

O governo trabalha para colocar dinheiro na base da pirâmide enquanto permite que uma poderosa máquina privada trabalhe 24 horas por dia para capturá-lo.

Depois comemora a arrecadação tributária.

É uma contabilidade curiosa.

O PT já encontrou a porta de saída

Há ainda um detalhe especialmente embaraçoso.

A solução radical que o governo parece hesitar até em discutir já foi apresentada pelo próprio PT.

Em abril, o líder da bancada petista na Câmara, Pedro Uczai, apresentou o PL 1.808/2026, propondo a proibição das bets no Brasil.

Não é uma proibição ornamental.

O projeto alcança operação, oferta, publicidade, patrocínio, promoção e intermediação das apostas. Prevê bloqueio de sites e aplicativos, interrupção dos pagamentos e medidas contra operadores estrangeiros direcionados ao mercado brasileiro.

Portanto, ninguém precisa convocar uma comissão de sábios para descobrir uma alternativa.

Ela está protocolada na Câmara.

Falta vontade política para transformá-la em prioridade.

E enquanto Brasília pensa…

Há centenas de projetos sobre apostas acumulados no Congresso.

Um quer restringir publicidade. Outro pretende proteger crianças. Outro discute patrocínios. Outro tenta impedir determinadas formas de pagamento.

O Congresso brasileiro descobriu uma técnica extraordinária para enfrentar problemas urgentes: apresentar centenas de soluções e não aprovar nenhuma decisiva.

Mas o governo federal não precisa assistir sentado.

Pode endurecer a fiscalização, apertar autorizações, atacar os fluxos financeiros ilegais, restringir drasticamente publicidade e patrocínios e usar sua capacidade política para obrigar o Congresso a discutir uma legislação realmente severa.

Pode também avaliar instrumentos jurídicos de urgência dentro dos limites constitucionais.

O que não pode é repetir que o assunto é complexo.

Claro que é.

Governar consiste, entre outras coisas, em resolver problemas complexos.

O maravilhoso imposto sobre a desgraça

Há uma razão fiscal para a tolerância com as bets que precisa ser enfrentada sem rodeios.

Elas arrecadam.

E governos gostam de arrecadação.

Mas existe uma diferença entre receita tributária e riqueza social.

Quando alguém deixa R$ 200 numa plataforma de apostas, uma parcela poderá aparecer mais tarde nas estatísticas fiscais.

Os mesmos R$ 200 poderiam ter ido ao supermercado, à farmácia, à loja de roupas, ao restaurante, ao cabeleireiro ou ao pequeno comércio.

Também gerariam atividade econômica e impostos.

Com uma diferença razoavelmente importante:

teriam comprado alguma coisa.

A arrecadação produzida pelas bets precisa ser confrontada com a renda retirada do consumo, o endividamento, a dependência e os custos sociais e sanitários.

Do contrário, chegaremos à brilhante conclusão de que qualquer desastre é aceitável desde que pague imposto.

A oposição acaba de descobrir o óbvio

Dois candidatos da direita identificaram uma bandeira capaz de mobilizar famílias endividadas, igrejas, profissionais de saúde, entidades de defesa do consumidor e setores do comércio e da produção prejudicados pela drenagem do consumo.

Para Lula, o recado deveria ser suficiente.

O governo que aumenta o salário mínimo, transfere renda e combate a pobreza corre o risco de entregar à direita o discurso de proteção da renda popular contra as apostas.

Há uma saída radical sobre a mesa. E ela não nasceu com Caiado nem com Zema.

Nasceu na bancada do PT.

Falta o governo perceber que, na política como nas bets, quem demora demais pode descobrir que a banca já levou a melhor.

Está na hora de parar de apostar

O governo Lula precisa assumir a liderança dessa discussão imediatamente.

Não no próximo mandato.

Não depois das eleições.

Não quando os 230 e tantos projetos que circulam pelo Congresso finalmente encontrarem uma comissão disposta a decidir alguma coisa.

Agora.

E precisa colocar a proibição sobre a mesa.

Se a regulamentação não consegue impedir que as bets capturem renda familiar, estimulem dependência e retirem bilhões do consumo, não há razão para tratar o banimento como extravagância.

O argumento da arrecadação tampouco justifica a hesitação. O dinheiro recolhido em impostos precisa ser confrontado com aquele retirado do consumo, com o endividamento das famílias e com os custos sociais e sanitários produzidos pela expansão das apostas.

Lula ainda pode assumir a dianteira.

Mas precisa agir agora.

Continuar apostando que é possível administrar indefinidamente o problema talvez seja a pior aposta que Lula poderia fazer.


Ilustração da capa: A casa sempre ganha – Crédito: RED Imagem gerada por IA.

Sobre o autor

Castigat Ridens
Castigat Ridens
'Castigat Ridens' é um pseudônimo criado a partir da expressão latina 'Castigat ridendo mores', que significa 'corrige os costumes rindo' ou 'critica a sociedade pelo riso', muito usada no contexto da comédia como instrumento de crítica social."

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