Da REDAÇÃO
Lula voltou à Vila Euclides e Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana. Os demais candidatos disputam espaço entre os favoritos, mas a largada da campanha revelou algo maior: duas concepções de democracia, soberania, diversidade e inserção do Brasil no mundo.
A campanha presidencial começou neste domingo, 16 de agosto, com duas imagens que sintetizam muito mais do que uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
Lula voltou à Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Flávio foi a Copacabana, no Rio de Janeiro.
Os dois procuraram suas origens. Mas encontraram passados muito diferentes.
A Vila Euclides remete às greves operárias que desafiaram a ditadura militar, à reorganização da sociedade civil, ao novo sindicalismo e à redemocratização.
Copacabana tornou-se um dos grandes palcos do bolsonarismo: o lugar das manifestações de massa, do culto político a Jair Bolsonaro, dos ataques ao Supremo Tribunal Federal e da contestação recorrente às instituições e ao sistema eleitoral.
Não são apenas dois cenários.
São duas concepções de país.
Um volta à própria história. O outro, à história do pai
A diferença começa pelas biografias.
Lula estava na Vila Euclides no final dos anos 1970. Liderou aquelas assembleias, enfrentou a ditadura, foi preso, participou da criação do PT, perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a primeira e chegou três vezes à Presidência da República.
Ao escolher o lema “Onde tudo começou”, não precisou tomar emprestada a história de ninguém.
Flávio enfrenta outro problema. Copacabana é um símbolo político construído fundamentalmente por Jair Bolsonaro. Foi o pai quem transformou a praia carioca em palco privilegiado de seu movimento.
A presença de Jair atravessou o lançamento da candidatura do filho. Um áudio do ex-presidente foi reproduzido durante o ato, e sua situação política ocupou parte importante dos discursos.
A força de Flávio está exatamente aí — e também sua vulnerabilidade.
O sobrenome lhe entrega um eleitorado que outros candidatos levariam anos para construir. Mas impõe uma pergunta que acompanhará toda a campanha: quem é Flávio Bolsonaro quando Jair Bolsonaro deixa de ser o centro da cena?
Lula precisa provar que sua longa história ainda pode produzir futuro.
Flávio precisa demonstrar que pode transformar uma herança política em projeto próprio.
Autonomia de um lado, alinhamento do outro
Talvez o contraste mais importante esteja na política externa.
Lula colocou a soberania nacional no centro do lançamento. Associou-a à industrialização, à tecnologia, à defesa nacional e à exploração dos minerais estratégicos.
Ao falar das terras raras, defendeu que o Brasil não se limite a extrair riquezas e exportá-las, mas desenvolva tecnologia e capacidade industrial para processá-las internamente.
É uma concepção de soberania que ultrapassa fronteiras e bandeiras. Um país é efetivamente soberano quando dispõe de capacidade econômica, tecnológica, militar e diplomática para tomar suas próprias decisões.
Essa orientação aparece também na política externa: relações com Estados Unidos, China, Europa, América Latina, África e demais regiões definidas pelos interesses brasileiros, sem alinhamento automático a qualquer potência.
Flávio representa uma orientação bastante diferente.
Desde o início de sua caminhada presidencial, aproximou-se intensamente de Donald Trump e dos Estados Unidos. Viajou repetidamente ao país, reuniu-se com o presidente estadunidense e procurou transformar essa proximidade em ativo político.
O contraste tornou-se ainda mais evidente diante das pressões econômicas e políticas de Washington sobre o Brasil. Flávio chegou a reconhecer publicamente que as tarifas impostas pelos Estados Unidos pretendiam pressionar o governo Lula.
A questão, portanto, deixou de ser abstrata.
De um lado, um governo que apresenta a resistência às pressões externas como defesa da autonomia brasileira.
Do outro, uma candidatura que busca proximidade política justamente com o governo da potência que exerce essas pressões.
O nacionalismo de bandeira
Surge daí uma das maiores contradições do bolsonarismo.
Poucos movimentos políticos brasileiros fizeram uso tão intenso dos símbolos nacionais. Bandeiras, camisas verde-amarelas, referências às Forças Armadas e exaltações à pátria tornaram-se marcas de seus atos.
Mas patriotismo e soberania não são sinônimos.
O nacionalismo corre o risco de transformar-se em fachada quando a exaltação dos símbolos nacionais convive com alinhamento político a interesses de uma potência estrangeira.
Lula percebeu esse espaço.
Na Vila Euclides, as cores nacionais ganharam destaque e foram associadas à soberania econômica, à industrialização, às terras raras e à capacidade brasileira de decidir seus próprios rumos.
Depois de anos durante os quais o bolsonarismo procurou monopolizar o verde e amarelo, a própria ideia de patriotismo entrou na disputa eleitoral.
Adversários ou inimigos
Existe uma diferença ainda mais profunda.
Lula carrega todas as contradições de quase meio século de vida política, mas sua trajetória está vinculada à redemocratização brasileira.
Perdeu eleições e reconheceu resultados. Venceu e governou dentro das instituições. Foi sucedido por adversários e voltou ao poder pelas urnas.
Seu campo político é heterogêneo. Reúne esquerda, centro, setores da centro-direita, sindicalistas, empresários, ambientalistas, movimentos sociais e diferentes tradições religiosas.
Essa diversidade produz conflitos. É precisamente isso que ocorre numa democracia pluralista.
Flávio é herdeiro de uma tradição política distinta.
O bolsonarismo construiu parte importante de sua identidade transformando adversários em inimigos. Ministros do Supremo, jornalistas, movimentos sociais, partidos e organizações da sociedade civil foram sucessivamente convertidos em alvos de uma guerra política permanente.
Diante da derrota política em 2022, partiu para a tentativa de um golpe de Estado.
Essa diferença é fundamental.
Numa democracia, adversários precisam ser derrotados nas urnas.
Quando passam a ser tratados como inimigos, surge a tentação de eliminá-los politicamente e, muitas vezes, até fisicamente.
A fronteira entre essas duas concepções é também a fronteira que separa o conflito democrático da lógica autoritária.
A diversidade também estará na urna
O contraste aparece igualmente nos valores sociais.
A coalizão reunida em torno de Lula incorpora movimentos feministas, negros, indígenas, ambientalistas, sindicatos, organizações LGBTQIA+, movimentos populares e diferentes setores religiosos.
Isso não significa que todas as suas reivindicações sejam atendidas pelo governo. Significa reconhecer sua legitimidade para existir, organizar-se e disputar espaço na esfera pública.
O bolsonarismo construiu parcela importante de sua identidade justamente na reação a essas transformações sociais.
O combate às políticas de gênero, a resistência aos direitos LGBTQIA+, os ataques ao feminismo e a defesa de uma concepção rígida da chamada família tradicional integram há anos seu repertório.
Flávio procura moderar alguns desses elementos. Votou, por exemplo, pela criminalização da misoginia no Senado, embora tenha apresentado ressalvas, e passou a enfatizar a proteção às mulheres, segmento no qual o bolsonarismo enfrenta dificuldades eleitorais.
É necessário registrar essa mudança.
A campanha mostrará se estamos diante de revisão política ou adaptação eleitoral.
O antissistema que vive do sistema
Outra contradição atravessa a candidatura.
O bolsonarismo continua apresentando-se como força antissistema. Ataca Brasília, as elites políticas, o Supremo, os partidos tradicionais e os privilégios da política profissional.
Mas a família Bolsonaro vive da política institucional há décadas.
Jair Bolsonaro passou quase trinta anos na Câmara dos Deputados antes de chegar à Presidência. Flávio acumulou sucessivos mandatos como deputado estadual antes de chegar ao Senado. Carlos Bolsonaro construiu longa carreira parlamentar no Rio de Janeiro.
A família também enfrentou investigações e controvérsias relacionadas ao uso das estruturas proporcionadas pelos próprios mandatos.
O paradoxo é difícil de contornar: poucos grupos políticos brasileiros contemporâneos permaneceram tanto tempo dentro do sistema que afirmam combater.
O discurso antissistema tornou-se, nesse caso, um produto do próprio sistema.
A segurança será um dos grandes campos de batalha
Apesar das diferenças, Lula e Flávio convergiram na escolha de um tema: segurança pública.
Não por acaso.
Flávio procura preservar uma das principais bandeiras eleitorais da direita. Lula sinalizou que não pretende entregar esse terreno ao adversário.
Na Vila Euclides, voltou a defender a criação do Ministério da Segurança Pública e falou em enfrentar organizações criminosas e recuperar territórios controlados pelo crime.
Em Copacabana, Flávio apresentou segurança e endurecimento contra a criminalidade como eixos de sua campanha.
A disputa não será sobre a necessidade de combater o crime. Praticamente todos os candidatos concordam com isso.
Será sobre como fazê-lo, com quais instrumentos e dentro de quais limites institucionais.
Outras campanhas presidenciais de 2026 entram na disputa
A fotografia da campanha não contém apenas Vila Euclides e Copacabana.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos também iniciaram suas campanhas neste domingo e procuram construir alternativas aos favoritos.
Caiado apresenta sua experiência em Goiás e a segurança pública como credenciais. Zema combina liberalismo econômico, endurecimento penal e críticas ao STF. Renan tenta representar uma direita geracionalmente mais jovem e apresentar-se como alternativa tanto a Lula quanto ao bolsonarismo.
No primeiro turno, essas candidaturas representam um problema sobretudo para Flávio.
Disputam com ele parcelas do eleitorado conservador, liberal, antipetista e de direita. Podem rejeitar a hegemonia da família Bolsonaro sem abandonar posições claramente situadas nesse campo político.
Por isso, seria equivocado classificar automaticamente esse eleitorado como “centro”.
Divididos agora, juntos depois?
Também seria equivocado imaginar que esses candidatos estão equidistantes de Lula e Flávio.
Caso os dois favoritos cheguem ao segundo turno, a tendência é que grande parte das forças atualmente concorrentes à direita se reagrupe contra Lula.
As diferenças entre bolsonaristas, conservadores tradicionais e liberais existem. Divergem sobre economia, instituições, estilo político, liderança e até sobre o legado de Jair Bolsonaro.
Mas possuem um poderoso elemento agregador: o antipetismo.
Isso produz uma característica fundamental da eleição de 2026:
a direita chega dividida ao primeiro turno, mas possui fortes incentivos para chegar reunificada ao segundo.
Caiado, Zema e Renan disputam hoje com Flávio a liderança desse campo. Amanhã poderão apoiá-lo contra Lula.
O primeiro turno decidirá quem comanda a direita.
O segundo poderá reuni-la.
O eleitorado que não cabe nos dois polos
É justamente aqui que surge um dos segmentos decisivos da eleição.
Não se trata simplesmente do “centro”.
Existe entre os dois grandes polos um eleitorado heterogêneo que não se identifica plenamente nem com Lula nem com Flávio.
Há conservadores que rejeitam os Bolsonaro, liberais desconfiados do autoritarismo, eleitores de centro-direita, moderados, pessoas sem identidade ideológica definida, descontentes com o governo e cidadãos que rejeitam simultaneamente os dois favoritos.
Há também eleitores que decidirão muito menos por categorias ideológicas do que por questões concretas: renda, inflação, emprego, segurança, saúde, educação e perspectivas para suas famílias.
É um eleitorado disponível, não necessariamente centrista.
E provavelmente será nele que uma parte importante da eleição será decidida.
O problema de Lula está além da esquerda
Isso torna a tarefa de Lula mais difícil do que simplesmente mobilizar sua base.
Não basta consolidar o eleitorado de esquerda e chegar ao segundo turno em primeiro lugar.
Se a direita hoje fragmentada se reunir em torno de Flávio numa votação decisiva, Lula precisará ter conquistado antecipadamente setores que não são lulistas e talvez sequer sejam de esquerda.
Inclusive parcelas da centro-direita e da direita democrática.
A composição de seu palanque ajuda a compreender essa estratégia.
Geraldo Alckmin e Simone Tebet não representam apenas uma ampliação cenográfica da candidatura. Expressam a tentativa de construir uma coalizão democrática que ultrapasse as fronteiras tradicionais da esquerda.
O desafio de Lula será romper a barreira do antilulismo sem diluir sua própria identidade.
O de Flávio será reunir a direita não bolsonarista sem afastar o núcleo duro herdado do pai.
Mais do que Lula contra Flávio
É por isso que reduzir 2026 a uma disputa entre duas personalidades seria insuficiente.
Lula não representa apenas Lula.
Flávio não representa apenas Flávio.
Ao redor dos dois organizam-se coalizões sociais, interesses econômicos, concepções de Estado, valores e projetos distintos de inserção internacional.
Um campo enfatiza autonomia nacional, multilateralismo, políticas sociais, pluralismo, diversidade e democracia institucional.
O outro aproxima-se do trumpismo, privilegia valores conservadores, enfatiza segurança e redução do Estado e carrega uma tradição política marcada pelo confronto com instituições e pela reação às transformações culturais das últimas décadas.
Há contradições nos dois lados. Nenhuma candidatura deve ser dispensada do exame crítico de seus erros.
Mas diferenças existem.
E fingir que não existem não produz imparcialidade.
Produz apenas uma fotografia desfocada da realidade.
Vila Euclides e Copacabana
Por isso os lugares escolhidos para começar a campanha dizem tanto.
Lula retornou ao palco onde trabalhadores enfrentaram uma ditadura pelo direito de organização e participação política.
Flávio retornou a um dos palcos onde o movimento fundado pelo pai construiu sua força nas ruas e de onde partiram algumas das mais duras contestações às instituições da democracia brasileira.
Um voltou à própria história.
O outro voltou à história política que herdou.
Mas nenhum dos dois vencerá apenas com o passado.
Lula precisa convencer o Brasil de que uma trajetória iniciada há quase cinquenta anos ainda consegue produzir um projeto para as próximas décadas.
Flávio precisa convencer o país de que pode herdar a força eleitoral do pai sem carregar integralmente sua herança autoritária.
Caiado, Zema e Renan precisam provar que existe espaço para outras direitas — embora possam acabar reunidos em torno do candidato bolsonarista no segundo turno.
E existe, além deles, o eleitorado que não cabe confortavelmente em nenhum desses polos.
A eleição será uma disputa entre candidatos. Mas será também uma disputa entre concepções de país.
Autonomia ou alinhamento. Pluralismo ou intolerância. Diversidade ou homogeneização. Adversários ou inimigos. Democracia como valor ou como instrumento a ser respeitado apenas quando produz o resultado desejado.
Vila Euclides e Copacabana estão separadas por algumas centenas de quilômetros.
Politicamente, a distância é muito maior.
Entre elas não existe simplesmente um “centro”. Existe um Brasil heterogêneo, contraditório e ainda disponível eleitoralmente.
É nele que poderá estar a decisão sobre para qual lado o país seguirá.
Fontes: transmissões integrais dos atos de lançamento das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e coberturas feitas por veículos de imprensa dos atos inaugurais das campanhas de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.
Nota de transparência editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para pesquisa, organização de informações e apoio à redação. O texto é de responsabilidade da equipe da RED.
Foto da capa: Lançamentos das campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro em 16/06/2026 – Créditos das fotos: redes sociais – Fotomontagem RED.
Assista aos vídeos de lançamento das campanhas de Luís Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury, disponibilizados nas redes sociais.

