Os próximos 50 dias serão decisivos para o futuro da democracia brasileira. Como afirmou Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, em artigo publicado em O Estado de S.Paulo, desta quinta-feira (13/08), “o avanço da extrema direita, a disseminação coordenada da desinformação, o enfraquecimento das instituições democráticas, a violência política e a captura dos espaços públicos por interesses econômicos e tecnológicos compõem hoje um cenário internacional de instabilidade persistente”. Cenário que “revela uma crise mais profunda das democracias contemporâneas, de pertencimento, representação e participação social” e bem retrata o que enfrentamos hoje no Brasil.
A extrema direita e o bolsonarismo, golpistas e entreguistas, não desceram do palanque, mesmo após a derrota e a condenação de seus líderes por tentativa de golpe. Estiveram sempre nas manchetes e chamadas de capa da imprensa, especialmente dos três grandes jornais nacionais. Notícias, reportagens e entrevistas com este grupo, em geral, eram e são acríticas, sem qualquer alerta para as mentiras, por exemplo. Entre as poucas exceções esteve o noticiário sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do ex-presidente, que pediu ao governo dos Estados Unidos ataques ao Brasil, na esperança de libertar o pai-presidiário. Pediu, levou e festejou, recebendo a alcunha de traidor.
Por outro lado, os jornalões não se cansam de criticar qualquer ato ou fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até os avanços positivos de seu terceiro mandato são desvalorizados com o advérbio apesar de ou com a conjunção adversativa mas. E, recentemente, com a ressalva de que a informação, seja sobre o que for, se trata apenas de um fato eleitoreiro. Este comportamento, por se manter desde o início do governo, caracteriza campanha político-eleitoral permanente.
A grande imprensa, a direita e o bolsonarismo não são os únicos a desejarem a derrota de Lula no próximo dia 4 outubro. Há muitas outras forças, com maior ou menor poder de fogo trabalhando para isto. No último dia 3, os presidentes dos Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, respectivamente, almirante de esquadra Alexandre José Barreto de Mattos, general de brigada Sérgio Tavares Carneiro e major brigadeiro do ar Marco Antônio Carballo Perez, lançaram um “alerta” aos eleitores brasileiros. Sem se atreverem a citar diretamente Lula, os responsáveis pelo tal alerta, “conclamam os brasileiros a refletirem sobre os grandes desafios do País com discernimento, lucidez, conhecimento e espírito público”. A conclamação, segundo os militares, se deve ao “inconformismo de uma parcela significativa da sociedade, da qual faz parte a maioria de nossos associados, diante da necessidade de uma reação cívica capaz de reverter a situação em que o Brasil se encontra”. Estes representantes das três Armas estão incitando a uma revolta? A um novo golpe? Sonham em repetir 1964?
Às vezes, sinto – e nisto estou acompanhada por amigas e amigos – que retrocedemos no tempo e vivemos num ambiente muito semelhante ao do golpe de 64, em que militares, imprensa, empresários, industriais, enfim, a elite brasileira, com o apoio do governo dos Estados Unidos, se uniram para derrubar o presidente João Goulart com a falsa justificativa de que ele implantaria o comunismo no Brasil. Hoje, a direita recorre à outra mentira: a de que Lula privilegia a China nas relações internacionais e comerciais.
A entrada dos norte-americanos nos assuntos brasileiros se repete. Imagino que o presidente Donald Trump sonhe em ter atuando por aqui figuras como o embaixador Lincoln Gordon e o adido militar Vernon Walters, que, no início da década de 1960, conspiraram com generais brasileiros e distribuíram cinco milhões de dólares aos opositores de Jango, nas eleições de 1962. Saíram vitoriosos e nós vivemos um dia que durou 21 anos, como diz o documentário sobre o Golpe de 64, de Camilo Tavares.
As armas de Trump, por enquanto, são outras: as sobretaxas sobre as exportações brasileiras e as ameaças veladas ou diretas de intervenção no país. A última ameaça, tentando criar pânico entre os eleitores, para que se decidam a votar no seu candidato, o filho 01 do amigo Jair Bolsonaro, surgiu em forma de vídeo, postado no X, na terça-feira (11/08). Nele, o embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, que faz o papel de apresentador, avisa que a Doutrina Monroe (América para os Americanos) está de volta, sob o pulso forte de Trump, e que, daqui em diante, o domínio americano no Hemisfério Ocidental, como se referem às Américas, “nunca mais será questionado”. Para provar o que dizem citam a ação militar na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro, insinuando que podem voltar a fazer o mesmo, a qualquer momento, em qualquer outro pais americano. Para Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, não há dúvida: o vídeo tem como alvo o Brasil. Assino embaixo.
É em meio a esse bombardeio de notícias tendenciosas, mentiras, desconfianças, pressões internas e externas que, no domingo (16/08), começa a propaganda eleitoral nas ruas e na internet. Não é um panorama tranquilo para progressistas e democratas, cuja missão principal, como diz a minha amiga Éride Moura, jornalista e professora universitária aposentada, é reforçar a mensagem de que “somos uma grande nação, democrática por natureza, com um potencial econômico invejável e um governo democrata e sério, que incentiva a educação, saúde, trabalho, o bem-estar da população e está sempre atento às mudanças climáticas, que ocorrem no mundo e no Brasil”. Éride faz um alerta contrário ao dos presidentes dos Clubes militares: “Não precisamos de milagreiros, aventureiros e negacionistas, que surgem nesta época. Já tivemos esse tipo de gente no governo e vimos no que deu”.
Foto de capa: Reprodução



Uma resposta
Gostei muito, excelente análise dos fatos, e tentar acordar a memória do brasileiro. Parabéns