Equilíbrio fiscal sem coesão social: que sucesso é este do modelo de gestão capixaba? | Por Arlindo Villaschi

A estabilidade fiscal construída por sucessivos governos capixabas é uma conquista, mas precisa ser convertida em desenvolvimento socialmente inclusivo, redução das desigualdades e proteção efetiva do território e dos recursos naturais.
Última edição em agosto 13, 2026, 08:36
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O Espírito Santo construiu, nas últimas duas décadas, uma imagem de excepcionalidade no cenário político e administrativo brasileiro. A sucessão de governos de Paulo Hartung e Renato Casagrande consolidou uma cultura de responsabilidade fiscal, previsibilidade institucional e relativa harmonia entre os Poderes. Tudo construído a partir de uma visão de longo prazo estabelecida por uma ONG ( a ES em Ação) mantida por grandes grupos que operam no estado (com destaque para Vale, ArcelorMittal, Suzano e Petrobrás).

O resultado não deve ser desprezado. O problema começa quando o equilíbrio fiscal deixa de ser compreendido como meio e passa a ser apresentado como fim da ação governamental. Afinal, para que serve um governo fiscalmente responsável se essa responsabilidade não se converte em maior capacidade de garantir cidadania, reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e proteger os territórios e os bens naturais dos quais depende a sociedade?

Nesse ponto, o balanço de dois governadores que se revezaram à frente da gestão estadual desde o início do século, precisa ultrapassar a narrativa do sucesso administrativo. A estabilidade das contas públicas é uma conquista, mas não responde, por si só, às contradições de um Espírito Santo marcado por profundas desigualdades territoriais e sociais.

O Atlas da Mobilidade Social permite iluminar essa questão. Ao acompanhar a relação entre as condições socioeconômicas dos pais e a trajetória dos filhos na vida adulta, o Atlas demonstra que as oportunidades de ascensão social variam fortemente entre territórios e grupos. Sua própria razão de ser é mostrar onde e para quem faltaram oportunidades.

Esse olhar territorial é particularmente importante para o Espírito Santo. O estado não é uma unidade econômica homogênea. Nele convivem regiões fortemente integradas às cadeias industriais, logísticas e de serviços e extensos territórios cuja dinâmica econômica permanece condicionada por atividades primárias, extrativas ou por relações mais frágeis com os grandes centros de geração de riqueza. As diferenças de mobilidade social sugerem que crescimento econômico e equilíbrio fiscal não produzem automaticamente desenvolvimento socialmente compartilhado.

Há ainda uma segunda dimensão dessa crítica: a ambiental. O Espírito Santo consolidou parte importante de sua economia em torno de grandes cadeias industriais, portuárias, minerárias, siderúrgicas, de petróleo e gás e outras atividades associadas ao que se pode denominar neoextrativismo. Esse modelo gera receitas, empregos e infraestrutura, mas também produz conflitos territoriais e pressões sobre águas, solo, ar, florestas e zonas costeiras. O crime de Brumadinho associado às atividades da Samarco no Espírito Santo, por exemplo, evidenciou a dimensão dos riscos associados às atividades econômicas de grande escala e sua capacidade de produzir impactos que ultrapassam os limites administrativos de um município ou mesmo de um estado.

Não basta, portanto, perguntar quanto o estado arrecada ou quanto consegue investir. É preciso perguntar qual é o custo socioambiental do crescimento que está sendo promovido e quem o paga. E mais, investimentos que atendem a quais camadas da população, a que porte de empresas e a que territórios.

É importante também destacar que harmonia entre os poderes e o equilíbrio fiscal, valorizados por parcela das representações empresariais como indicador de sucesso de 22 anos de gestão sob dois governantes, precisam ser recolocados dentro de uma perspectiva mais ampla. Devem servir à construção de um estado responsável para com a cidadania plena e para com a natureza. Quando a estabilidade institucional não é acompanhada de coesão social, ela serve basicamente para reproduzir acomodações daquilo que já está estabelecido. E quando o crescimento econômico ocorre simultaneamente à crescente predação dos recursos naturais, o equilíbrio das contas públicas pode esconder um desequilíbrio muito mais profundo: o da relação entre sociedade, economia e território.

O desafio contemporâneo é de fato superar contradições entre responsabilidade fiscal, desenvolvimento econômico, justiça social e proteção ambiental. O Espírito Santo possui condições institucionais e financeiras para fazê-lo. O que faltou ao modelo de gestão estabelecido ao longo das últimas duas décadas foi a determinação política para transformar a liderança dos dois mandatários, que se revezaram à frente do executivo estadual, em articulares de um consenso de possibilidades, compatível com os desafios e oportunidades do Século XXI.

Poder de articulação de governantes que, por um lado, se limitou aos interesses das grandes unidades produtoras localizadas no estado. Para responder a esses interesses de poucos, enfraqueceu políticas pretéritas de valorização de suas unidades de conservação e parques estaduais (desde 2024 sob ameaça de concessão à iniciativa privada por 30 anos); reduziu a capacidade de fiscalização e monitoramento ambiental; omitiu-se na responsabilização efetiva de grandes empreendimentos que poluem águas, solo e ar; deixou de proteger territórios vulneráveis e de incorporar critérios ambientais e sociais mais rigorosos às políticas de desenvolvimento.

E que, por outro, deixou de utilizar a capacidade fiscal do Estado para enfrentar desigualdades territoriais reveladas pelos indicadores de mobilidade social. Diante do enaltecido, pela propaganda institucional, desempenho fiscal e harmonia com os demais poderes, as articulações políticas dos dois mandatários apresentou baixa efetividade em setores fundamentais para o desenvolvimento humano. Dentre esses, educação, saúde, cultura, ciência e tecnologia e oportunidades de trabalho e renda melhor distribuídos em todo o território estadual enquanto instrumentos efetivos de emancipação.

O Espírito Santo demonstrou que é possível organizar suas contas e construir instituições relativamente estáveis. Mas o fez com participação social limitada aos interesses de grandes produtores/exportadores de commodities de baixo valor agregado e, em grande parte, baseadas em recursos naturais não renováveis. Continua carente de demonstrar que também é possível organizar o desenvolvimento com participação das diversas esferas da sociedade em torno da vida.

Sem isso, o governo estadual continuará fiscalmente equilibrado, institucionalmente harmonioso para poucos e, simultaneamente, a formação socioeconômica capixaba permanecerá socialmente fragmentada para a maioria e ambientalmente predatória.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Arlindo Villaschi
Professor de Economia.

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