Quando o futebol deixa de ser apenas futebol | Por Mara Telles

Entre o futebol e a política, a derrota esportiva revela como nacionalismo, polarização e teorias conspiratórias podem transformar o adversário em inimigo e o estrangeiro em alvo.
Publicado em 24 de julho de 2026 às 18:00
Editado em 23 de julho de 2026 às 17:22

Por postar fotografias minhas usando a camisa da seleção espanhola, ao final da Copa, acompanhadas de alguns memes, minhas redes sociais foram invadidas por argentinos. Vieram as figuras de macacas, os impropérios e outros “presentes carinhosos” que as redes sociais oferecem quando a rivalidade esportiva deixa de ser apenas uma brincadeira. Descobriram meu número de telefone e já recebi ligações estrangeiras, com mais improperios.

Não bloqueio. Prefiro conservar essas manifestações como memória histórica e permitir que sejam arquivadas para futuros estudos.

O episódio, entretanto, não me interessa apenas como anedota pessoal. Ele é um pequeno fragmento de um fenômeno mais amplo. E, talvez, seja justamente por isso que mereça atenção.

É importante dizer, desde logo, que isso não tem relação com as teorias futebolísticas, algumas absurdas, outras engraçadas, que surgem depois de praticamente toda partida nacional ou internacional. O futebol sempre produziu explicações delirantes para derrotas, suspeitas de arbitragem, conspirações, manipulações e injustiças. Faz parte da cultura esportiva.

O que parece estar ocorrendo em setores da sociedade argentina é algo diferente.

A derrota esportiva parece ter funcionado como um gatilho para a manifestação de sentimentos que ultrapassam a rivalidade entre seleções. Em alguns setores, a frustração converteu-se em hostilidade contra estrangeiros. Há relatos de xenofobia e racismo, campanhas contra estudantes e trabalhadores estrangeiros, propostas de expulsão e discursos que transformam aqueles que torceram contra a Argentina em inimigos.

A questão, portanto, não é simplesmente que argentinos tenham ficado furiosos com a derrota. Torcedores de qualquer país podem reagir de maneira irracional, agressiva ou ridícula diante de uma derrota. A questão é outra: o momento em que a frustração esportiva encontra um ambiente político já saturado de nacionalismo, ressentimento, teorias conspiratórias e polarização.

É nesse ponto que o futebol deixa de ser apenas futebol.

O esporte sempre esteve relacionado à política. A história do futebol é também uma história de disputas de poder, corrupção, cartolas, subornos, jogadores vendidos, conflitos institucionais e guerras pelo controle das organizações esportivas.

Nada disso é novo.

O que parece novo é a maneira como determinados elementos se combinam.

Teorias conspiratórias sobre a derrota argentina, antes mais restritas às arquibancadas e a setores organizados das torcidas, passam a circular diariamente em rádios, canais de televisão, redes sociais e plataformas digitais. Influenciadores amplificam essas narrativas. Setores políticos as incorporam. E, em parte , embora não exclusivamente, elas encontram eco em grupos vinculados ao universo libertário e aos apoiadores de Javier Milei.

A derrota deixa, então, de ser um acontecimento esportivo. Ela passa a exigir uma explicação política.

E toda teoria conspiratória precisa de culpados.

Nesse ambiente, aparecem manifestações no Obelisco de Buenos Aires, abaixo-assinados que reivindicam a repetição da final, relatos de agressões contra estudantes e estrangeiros e propostas de medidas destinadas à expulsão de imigrantes.

Quanto às teorias conspiratórias que circulam por lá, elas fazem com que chamar ET de “meu loiro” e rezar para pneus pareçam brincadeira de criança bolsonarista.

Mas o humor não deve nos impedir de perceber a gravidade do fenômeno.

O problema começa quando a frustração deixa de ser apenas frustração; quando a derrota passa a ser explicada por uma conspiração; quando a rivalidade esportiva se transforma em perseguição; e quando o estrangeiro passa a ser apresentado como inimigo.

O futebol pode ser apenas o gatilho. O que importa é o ambiente social e político que permite que uma derrota seja convertida em ódio.

Há, nesse sentido, uma tendência mais ampla que ultrapassa a Argentina.

A operação Delulu, na África do Sul, com marchas e agressões contra trabalhadores precarizados de outros países do continente, revela uma forma particularmente brutal de nacionalismo dirigido contra estrangeiros. Na Alemanha, o crescimento da extrema direita é acompanhado pelo fortalecimento de discursos contra imigrantes. Em Portugal e na Espanha, a imigração tornou-se um dos temas centrais da disputa política. Nos Estados Unidos, a demonização do estrangeiro ocupa lugar central em setores importantes da política nacional. No Chile, também aparecem forças políticas que defendem medidas de deportação de imigrantes.

Os contextos são diferentes. Não se trata de estabelecer uma equivalência simplista entre todos esses casos.

Mas há algo que os aproxima: a transformação do estrangeiro em uma figura política conveniente.

Em períodos de crise, de insegurança ou de frustração coletiva, o estrangeiro pode ser convertido em explicação. Ele é aquele que supostamente ocupa o lugar que deveria pertencer ao nacional; que compete por empregos; que ameaça a cultura; que desrespeita a pátria; que não demonstra a lealdade esperada.

No caso argentino, a especificidade está no papel desempenhado pelo futebol.

A Argentina possui uma relação particularmente intensa com sua seleção. A equipe nacional não é apenas uma equipe. Ela é, em determinados momentos, apresentada como expressão da própria Nação.

Essa identificação produz uma espécie de fusão entre seleção, pátria e identidade nacional.

Quando a seleção vence, a Nação vence.

Quando a seleção é derrotada, a derrota pode ser experimentada como uma humilhação nacional.

E quando uma humilhação nacional precisa encontrar culpados, o estrangeiro aparece como um alvo particularmente conveniente.

É nesse ponto que a rivalidade esportiva se transforma em polarização afetiva.

A polarização afetiva é mais profunda do que a simples divergência de opiniões. Ela não consiste apenas em discordar do adversário. Consiste em odiá-lo. O outro deixa de ser alguém que pensa diferente ou torce por outra equipe. Ele passa a ser moralmente inferior, indigno, ameaçador.

O problema é que esse mecanismo não está restrito ao futebol.

As redes sociais transformaram a indignação em combustível permanente. A política transformou o adversário em inimigo. O nacionalismo transformou o estrangeiro em ameaça. As teorias conspiratórias oferecem explicações simples para acontecimentos complexos.

O resultado é uma mistura explosiva.

O futebol, com sua capacidade extraordinária de produzir identificação, pertencimento e paixão, pode funcionar como um catalisador poderoso.

É por isso que o episódio das “macacas” e dos impropérios dirigidos a alguém que simplesmente publicou fotografias com a camisa de outra seleção não deve ser visto apenas como uma manifestação de mau gosto nas redes sociais.

Ele pode ser apenas um episódio banal.

Mas episódios banais, quando se repetem em milhares de lugares, começam a revelar algo que já não é banal.

Há mais coisas no reino da Dinamarca.

E talvez seja justamente por isso que devamos prestar atenção quando uma derrota esportiva começa a ser narrada como conspiração, quando a rivalidade se transforma em perseguição e quando a paixão pela seleção se torna uma forma de ódio ao estrangeiro.

Nesse momento, o futebol já deixou de ser apenas futebol.

E talvez o problema não seja apenas o que acontece dentro do campo.

Talvez seja aquilo que a sociedade, cada vez mais radicalizada, passou a levar para dentro dele.

Um dos milhões de exemplos do grau de radicalização contra estrangeiros …


Foto de capa:  Final da Copa terminou em confusão entre torcida e polícia em Buenos Aires © ANSA/EPA

Sobre o autor

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Mara Telles
Mara Telles é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFMG e presidente da ABRAPEL - Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais

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