À Miguel F. do Espírito Santo
Gosto e desgosto do frio
Gosto quando estou
Bem agasalhado, protegido
Bebendo um vinho
Comendo um churrasco
Ao redor do fogo de galpão
Sorvendo um chimarrão
Fruindo as delícias desta estação
Dádiva oferecida a nós sulistas
Que habitamos
A base do funil
Do mapa do Brasil
Bem perto de Ushuaia
Perto do fim do mundo
Gosto quando estou prazerosamente
Acomodado no quentinho
Debaixo do colchão
Desgosto do frio quando
Sinto o vento minuano assoviando
E fico lembrando dele acossando
O pobre vivente
Que mora no relento da rua
Sem direito a se proteger
Da realidade sofrida e crua
Do frio inclemente
Desgostava tanto do frio
Que como todo jovem gaúcho urbano
Sonhava morar no Rio
Epicentro dos anos bacanas
Das mulheres douradas na praia
Bossa nova
Pasquim
Copacabana
Rio de Janeiro
Tão distante
Tão próximo e presente
Dos sonhos e quimeras
Dos de minha geração
Geração
-Anterior a Vitor Ramil
E sua estética do frio -
Que desprezava o frio
Desvalorizando
Sua riqueza e beleza
Generosamente ofertada
A nós, gaúchos
A nuestros hermanos
Latino-americanos
Pela pródiga mãe natureza
Aos poucos fui me descolonizando
Lendo a história do nosso Estado
Lendo literatura sobre a vida
Do gaúcho urbano e rural
Missioneiro, da fronteira e da capital
Érico Veríssimo, Mario Quintana
Dyonélio Machado
Simões Lopes Neto
Aureliano de Figueiredo Pinto
Lendo e ouvindo pajadas
De Jayme Caetano Braun
Músicas de
Cenair Maicá
Pedro Ortaça
Músicas de geração
Mais recente como a
Milonga “Que se pasa” de Bebeto Alves
“Deixando o Pago” poesia de João da Cunha Vargas
Cantada por Vitor Ramil
Aprendendo a admirar e ter saudade
De um tempo que não existe mais
Tempo que não vivi
Tempo de meus ancestrais
Aos poucos fui aprendendo
A admirar e fruir por igual
A estética do frio
Que julgava atrasada
E o moderno simbolizado
Pelo encantado Rio de Janeiro
Que embalou os sonhos
Do guri missioneiro
Sonhador que eu era
Guri que sonhava embasbacado
Em conhecer as praias
Das meninas douradas de Ipanema
Guri que sonhava em viajar para o Rio
E depois voltar para a cidade e me exibir
Deixando todo mundo
Com inveja e olhos arregalados
Falando um carioquês chiado
Como o Pé, um exibido falastrão
Amigo do meu irmãoFoto de capa: Reprodução

