Frio | Por Jorge Alberto Benitz

Entre o encanto e a dureza do inverno, um poema sobre identidade, memória e pertencimento gaúcho.
Publicado em 15 de julho de 2026 às 18:00
Editado em 15 de julho de 2026 às 22:33

À Miguel F. do Espírito Santo

Gosto e desgosto do frio
Gosto quando estou
Bem agasalhado, protegido
Bebendo um vinho 
Comendo um churrasco
Ao redor do fogo de galpão
Sorvendo um chimarrão
Fruindo as delícias desta estação
Dádiva oferecida a nós sulistas 
Que habitamos  
A base do funil
Do mapa do Brasil 
Bem perto de Ushuaia
Perto do fim do mundo

Gosto quando estou prazerosamente
Acomodado no quentinho 
Debaixo do colchão 

Desgosto do frio quando 
Sinto o vento minuano assoviando 
E fico lembrando dele acossando
O pobre vivente 
Que mora no relento da rua
Sem direito a se proteger
Da realidade sofrida e crua 
Do frio inclemente

Desgostava tanto do frio
Que como todo jovem gaúcho urbano 
Sonhava morar no Rio
Epicentro dos anos bacanas  
Das mulheres douradas na praia
Bossa nova 
Pasquim
Copacabana

Rio de Janeiro
Tão distante  
Tão próximo e presente 
Dos sonhos e quimeras
Dos de minha geração

Geração
-Anterior a Vitor Ramil
E sua estética do frio - 
Que desprezava o frio 
Desvalorizando 
Sua riqueza e beleza 
Generosamente ofertada 
A nós, gaúchos 
A nuestros hermanos
Latino-americanos 
Pela pródiga mãe natureza

Aos poucos fui me descolonizando
Lendo a história do nosso Estado
Lendo literatura sobre a vida 
Do gaúcho urbano e rural
Missioneiro, da fronteira e da capital 
Érico Veríssimo, Mario Quintana
Dyonélio Machado
Simões Lopes Neto
Aureliano de Figueiredo Pinto
Lendo e ouvindo pajadas 
De Jayme Caetano Braun
Músicas de 
Cenair Maicá
Pedro Ortaça
Músicas de geração
Mais recente como a 
Milonga “Que se pasa” de Bebeto Alves
“Deixando o Pago” poesia de João da Cunha Vargas 
Cantada por Vitor Ramil

Aprendendo a admirar e ter saudade
De um tempo que não existe mais
Tempo que não vivi
Tempo de meus ancestrais

Aos poucos fui aprendendo
A admirar e fruir por igual 
A estética do frio
Que julgava atrasada
E o moderno simbolizado
Pelo encantado Rio de Janeiro
Que embalou os sonhos 
Do guri missioneiro
Sonhador que eu era

Guri que sonhava embasbacado
Em conhecer as praias
Das meninas douradas de Ipanema
Guri que sonhava em viajar para o Rio
E depois voltar para a cidade e me exibir
Deixando todo mundo 
Com inveja e olhos arregalados   
Falando um carioquês chiado
Como o Pé, um exibido falastrão
Amigo do meu irmão

Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Jorge Alberto Benitz
Poeta de Internet.

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