O poderoso Senado | Por Manuel Domingos Neto

Com amplos poderes sobre leis, Justiça, economia e o pacto federativo, o Senado ocupa um papel decisivo no país, mas ainda permanece distante da fiscalização e da compreensão da maior parte da sociedade.
Publicado em 7 de julho de 2026 às 18:00
Editado em 6 de julho de 2026 às 15:43

Senado é um tipo de assembleia criado por oligarcas no império romano para garantir o domínio sobre a plebe. O artifício foi copiado pelos barões ingleses e adaptado por muitos países para barrar mudanças reclamadas pela sociedade.

No Brasil, foi imposto por Dom Pedro I, que imperava apoiado por senhores de terra, gado e gente. Só os muito ricos podiam votar e ser eleitos para o Senado.

Atualmente, todos podem votar nos candidatos ao Senado, mas a maioria vê o senador apenas como alguém que pode trazer pequenos benefícios às comunidades.

Formalmente, o Senado é poderosíssimo: tem responsabilidade direta ou indireta sobre o que ocorre de bom e de ruim no país; revisa leis propostas por deputados e presidentes da República. Se as leis prejudicam o pobre e favorecem o rico, não protegem quem trabalha, deixam sem defesa a mulher, o idoso, as crianças, os afrodescendentes, a culpa é, sobretudo, do Senado.

Se a Justiça é desigual, favorece os mais abonados, o Senado tem parcela de responsabilidade, já que autoriza a nomeação dos juízes superiores e pode afastá-los do cargo caso cometam infrações.

Senado e Câmara dos Deputados determinam como o governo deve gastar o dinheiro público. Se enche o bolso dos ricos e não melhora a vida do povo, a culpa é dos senadores e dos deputados.

O Senado autoriza ou não empréstimos externos dos governos federal, estaduais e municipais, bem como de empresas públicas. Boa parte do dinheiro do povo é gasto para pagar dívidas irresponsáveis.

Se nossos minérios, florestas, terras férteis e recursos hídricos servem para enriquecer um punhado de brasileiros e estrangeiros; se nosso meio ambiente é destroçado, nossos rios poluídos, o Senado tem tudo a ver com isso. Câmara e Senado aprovam ou desaprovam a exploração das terras dos indígenas.

O Senado autoriza a nomeação dos dirigentes do Banco Central. Se os juros são altos, prejudicam as atividades econômicas e deixam as famílias sufocadas, o Senado deve ser cobrado por isso.

O Senado autoriza a nomeação dos que regulam concessões de serviços públicos. O dedo do Senado está no alto preço da gasolina, do gás, da água, da energia elétrica…

O Senado é fundamental para proteger o Brasil do estrangeiro ganancioso: tem obrigação de autorizar e fiscalizar os acordos internacionais do Brasil. É o Senado que autoriza a nomeação de embaixadores.

O Senado é poderoso. Se o presidente e os ministros cometem infrações graves, é o Senado que, autorizado pelos deputados, deve tirá-los dos cargos. Um presidente deixou o povo sem cuidados na epidemia da Covid 19 e não foi deposto. Deputados e senadores têm culpa nessa tragédia.

O Senado é fundamental para preservar a democracia. Se comandantes militares permitem que as fileiras se envolvam em atividades golpistas, cabe ao Senado julgá-los.

O Senado não é voz da população; representa as unidades federativas. Todos os estados detêm três cadeiras no Senado.

Por representar a Federação, o Senado é indispensável para o enfrentamento de um problema dramático e urgente: o crime organizado. É impossível estabelecer um sistema de Segurança Pública razoável sem pacto federativo.

Outro problema para o qual o Senado faz cara de paisagem é a desigualdade regional de desenvolvimento socioeconômico. Se políticas governamentais beneficiam alguns estados e prejudicam outros, cabe ao Senado corrigi-las.

Por que o Senado esconde suas graves responsabilidades?

Certamente, para a comodidade de seus integrantes, que deixam de ser cobrados pelo povo.

Mas, também, para melhor cumprir o papel para o qual foi criado pelos romanos e aperfeiçoado ao longo da história: garantir o domínio de poucos sobre a imensa maioria.

Não dá para sonhar com futuro promissor se a sociedade não quebrar o muro dessa cidadela reacionária. Eu tentarei contribuir para trincar esse muro.


Foto de capa: Jonas Pereira/Agência Senado

  • Mesa:
procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco;
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso;
presidente do Senado Federal, senador Davi Alcolumbre (União-AP);
secretário-geral da Mesa do Senado Federal, Gustavo A. Sabóia Vieira;
presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB);
ministro de Estado da Casa Civil da Presidência da República, Rui Costa.

Fonte: Agência Senado

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-02-15 at 16.07.24
Manuel Domingos Neto
Doutor em História pela Universidade de Paris, escreveu O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para [email protected] . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Uma resposta

  1. Reflexões a Partir do Texto de Dr Manuel Domingos Neto
    Li o texto de hoje(06/07/2026) de Dr. Manuel Domingos Neto, encaminhado para mim e acredito que publicado nas redes sociais. Vejo que a reflexão proposta por ele nos convida a revisitar criticamente o papel desempenhado pelo Senado na arquitetura institucional brasileira. Ao afirmar que “o Senado é poderosíssimo”, o autor chama a atenção para uma realidade frequentemente negligenciada: poucas instituições concentram tantas atribuições constitucionais e, ao mesmo tempo, recebem tão reduzido escrutínio da sociedade. Não se trata apenas de elaborar ou revisar leis, mas de influenciar a composição dos tribunais superiores, deliberar sobre autoridades estratégicas do Estado, participar das decisões relativas ao pacto federativo e exercer funções essenciais de controle político. Quando Manuel Domingos indaga “por que o Senado esconde suas graves responsabilidades?”, provoca uma discussão que ultrapassa a crítica circunstancial e alcança o próprio funcionamento da democracia representativa. Um órgão dotado de tamanha autoridade não pode permanecer distante da vigilância permanente dos cidadãos. Se, em determinados momentos históricos, o Senado contribuiu para a preservação da ordem constitucional, em outros foi acusado de responder de forma insuficiente a crises que exigiam maior firmeza institucional. Essa ambivalência reforça a necessidade de uma sociedade politicamente consciente, capaz de acompanhar e cobrar seus representantes. Assim, converge-se com a advertência final de Manuel Domingos: “não dá para sonhar com futuro promissor” sem ampliar o controle democrático sobre instituições que exercem influência decisiva sobre os destinos da República. A legitimidade do Senado não decorre apenas da Constituição, mas da confiança pública construída por meio da transparência, da responsabilidade e da efetiva prestação de contas.

    Frederico A. Rebelo Torres, Escritor .

    FREDERICO A REBELO TORRES

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático