Instabilidade política influencia consumo de notícias | Por Edelberto Behs

Relatório internacional aponta avanço das redes sociais como principal fonte de informação e acende alerta sobre a crise de confiança no jornalismo tradicional.
Publicado em 24 de junho de 2026 às 16:00
Editado em 23 de junho de 2026 às 19:39

Pela primeira vez, este ano, o consumo de mídias sociais e redes de vídeo ultrapassou outras fontes de notícias como a matriz de informação mais utilizada em termos globais, perfazendo 54% de toda a audiência. A constatação é do Relatório de Notícias Digitais de 2026 do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford, divulgado na semana passada, e que avaliou 48 mercados do mundo. 

O acesso às redes sociais e às redes de vídeo mantiveram-se estáveis, mas principalmente devido à queda contínua da televisão para 52% da audiência mundial e dos sites de notícias para 51%. As plataformas intermediárias de terceiros se tornaram mais populares do que as plataformas digitais das próprias editoras de notícias. Semanalmente, 77% da população mundial consome vídeos de notícias. As redes sociais e as plataformas de vídeo são mais populares como fonte de notícias em 30 dos 48 mercados pesquisados.

Mais de um quarto do universo pesquisado (27%) obtém notícias de criadores de conteúdo ou influenciadores focados em notícias, e quase metade (46%) obtém notícias de criadores de qualquer tipo. Os entrevistados afirmaram que os criadores de conteúdos são mais divertidos, fáceis de entender e com quem melhor se identificam, mais do que os veículos de notícias tradicionais. Globalmente, 30% das pessoas afirmaram que as redes sociais e os canais de vídeo são sua principal fonte de notícias, um aumento de 8 pontos percentuais em relação a cinco anos atrás.

O sistema comunicacional deverá sofrer outro impacto logo à frente com o uso cada vez maior de chatbots de Inteligência Artificial; 10% das pessoas já os usam para notícias, um aumento de 7% em relação ao ano anterior. Usuários de IA são mais propensos a querer verificar e descobrir mais detalhes sobre a fonte e o fato em si.

O Relatório da Reuters e da Oxford captou que o número de pessoas que se declaravam “extremamente” ou “muito” interessadas em notícias caiu de 59% para pouco menos de 46% em cinco anos. Um quarto (25%) dos entrevistados é usuária causal ou passiva de notícias, que normalmente consome notícias apenas uma vez por semana e afirma que têm pouco ou nenhum interesse pelas mesmas, percentual que era de 16% registrado em 2021.

“Essas reduções no interesse popular por notícias– arrola Jim Egan, que faz uma análise síntese do Relatório de Notícias Digitais de 2026 – têm implicações tanto democráticas quanto comerciais, dificultando o engajamento dos cidadãos no processo político e aumentando o desafio de monetizar com sucesso a atenção às notícias, seja por meio de publicidade ou por meio de receita gerada pelos leitores.”

A pesquisa segmentou os pesquisados em três grupos de acordo com a frequência com que consomem notícias e o interessa que elas geram. Os três segmentos são “amantes de notícias”, “leitores de resumos diários” e “usuários ocasionais”. Desde 2021, o percentual de amantes de notícias caiu de 29% para 22% do total de pesquisados; os usuários ocasionais aumentaram de 16% para 25%. A amostra total nos 48 mercados foi de 97.520 respondentes.

Também caiu de 40% para 37% o percentual de pessoas nos 48 mercados que manifestaram confiança nas notícias. No Brasil, essa queda foi de 6% e de 8% no Peru. Em países com algumas das maiores quedas na confiança, como Filipinas, Tailândia, Peru e Polônia, os eventos recentes apontam para uma provável deterioração do ambiente informacional em geral, avalia Egan. A queda no interesse noticioso vai além do trabalho das empresas de comunicação e dos comunicadores. Instabilidade política, crescente divisão social, eleições polarizadas e um ambiente informacional mais ruidoso e fragmentado “parecem ser características comuns dos mercados onde a confiança nas notícias mais caiu. Algumas dessas reduções deve-se a ataques diretos a veículos de comunicação e jornalistas, que mina a confiança no jornalismo como um todo.” 

A pesquisa perguntou, em 26 mercados, qual a influência que os entrevistados percebem em políticos, especialistas, crime organizado, anunciantes, ativistas/grupos de defesa e proprietário de mídia impactam nas notícias. Políticos e funcionários de governos foi o grupo que mais influencia as notícias, mas os proprietários de empresas de mídia também foram apontados como influenciadores na produção noticiosa. Os dois grupos tiveram o apontamento de 70% do universo pesquisados.

Um dado surpreendente: 56% de jovens entre 18 e 24 anos de idade relataram nunca terem lido algum jornal regularmente. O número equivalente para noticiários televisivos é de 21%.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Edelberto Behs
Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

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