O cenário político contemporâneo não perdoa o amadorismo e muito menos o voluntarismo tático. Olhar para o retrovisor da história recente do Brasil não é apenas um exercício de memória, mas uma necessidade de sobrevivência para a esquerda organizada, para os sindicatos e para os movimentos sociais e populares. Precisamos falar abertamente sobre como o extremismo fora do contexto pode sabotar nossas próprias estruturas e pavimentar o caminho para o colapso institucional.
O ano de 2012 e o subsequente terremoto de 2013 deixaram uma lição dolorosa, que muitos parecem ter esquecido. Em 2012, o funcionalismo federal e setores da educação protagonizaram uma das greves mais longas e intensas da história recente. O movimento era legítimo em suas bases, mas a condução política de setores ultraesquerdistas esticou a corda além do limite racional. Ao adotar uma postura de “tudo ou nada” e de enfrentamento pelo enfrentamento que desconsiderava a correlação de forças real, alimentou-se um sentimento perigoso: o discurso do “contra tudo e contra todos”.
Esse niilismo político, que começou criminalizando a negociação institucional e tratando governos democráticos e forças reacionárias como se fossem a mesma coisa, acabou por chocar o ovo da serpente. Em 2013, quando o Movimento Passe Livre (MPL) abriu as comportas das ruas, a indignação difusa foi rapidamente capturada. Aquele “contra tudo e contra todos” com que a ultraesquerda flertou em 2012 virou a antessala do antipetismo, antiesquerdismo e antissindicalismo generalizado. O vácuo deixado pela falta de centralidade e de responsabilidade tática foi preenchido por think tanks liberais e pela articulação que daria origem ao MBL e à nova direita. O resultado foi a avacalhação e o desmonte das nossas frágeis estruturas de luta, culminando no impeachment sem crime de responsabilidade, na reforma trabalhista e no teto de gastos.
O passado recente deixou uma lição clara: quando parte da esquerda entra na onde do “quanto pior, melhor”, quem capitaliza não são os trabalhadores, nem os revolucionários. Quem sai ganhando é a extrema direita, o poder econômico e o facismo.
Hoje, o desafio é ainda mais complexo. Não estamos mais em um ambiente de normalidade democrática plena onde o pior cenário é uma disputa eleitoral civilizada. Atualmente, a esquerda se equilibra no fio de uma navalha milimétrica. De um lado, enfrentamos as cobranças legítimas e as pressões internas de nossas bases; de outro, estamos cercados pelo fascismo, pelo golpismo latente e por um radicalismo de extrema-direita que perpassa o ecossistema político, contaminando parcelas expressivas da direita tradicional e do Centrão fisiológico.
Neste tabuleiro, qualquer erro de cálculo pode ser fatal. Cada mobilização, cada greve, cada manifesto e cada tática de pressão precisa ser friamente calculada. Não se trata de abandonar a luta ou de abrir mão das pautas históricas da classe trabalhadora (a passividade também alimenta o fascismo), mas sim de entender que a tática deve servir à estratégia de preservação democrática e de avanço gradual, e não ao espetáculo da radicalização verbal inócua. Cair em enrascadas ultraesquerdistas hoje significa dar o pretexto de que o golpismo e o reacionarismo precisam para desestabilizar as instituições e empurrar o povo, mais uma vez, para uma situação de extrema vulnerabilidade.
É precisamente nesse cenário de equilíbrio milimétrico que movimentos políticos de parte da esquerda (não cabe citá-los; basta ver quem são nos atos, com suas bandeiras em punho, presentes em número muito maior do que as das próprias organizações sociais e sindicais), precisam ser chamados à responsabilidade histórica. Ao reproduzir a mesma cartilha voluntarista de 2012, o grupo hoje infla de forma artificial o movimento paredista, oferecendo um apoio irrefletido à greve dos técnicos-administrativos em educação federal (TAEs), que já ultrapassa a marca dos 110 dias, e começa a pressionar o movimento estudantil rumo a movimentações perigosas para inflar seus próprios interesses na lógica da luta pela luta, em um embate contra tudo e todos.
Esse setor precisa compreender urgentemente que radicalismo verbal não substitui a construção real de maiorias. É imperativo encontrar formas de luta criativas, propositivas e de disputa de opinião pública que não avacalhem nem enfraqueçam nossas universidades e institutos federais. Sabotar o funcionamento interno das instituições que servem de trincheira civilizatória contra o avanço do reacionarismo é fornecer munição gratuita para o discurso privatista e para o golpismo de extrema-direita.
Sem a preservação da estabilidade institucional e a garantia da normalidade democrática, todos nós perderemos. E a história não falha em nos lembrar quem paga a conta primeiro quando o teto desaba: não são os intelectuais de gabinete, as direções partidárias e os grupos de vanguarda da “luta pela luta”, mas sim o povo pobre, a periferia e os historicamente excluídos da sociedade, que dependem diretamente do Estado e das políticas públicas para sobreviver. Recuar no método equivocado e recalcular a rota não é capitulação; é a única postura tática aceitável para quem verdadeiramente tem compromisso com a classe trabalhadora.
Foto de capa :Jairo Bolter





