Os economistas passaram a disputar campeonatos.
Havia basicamente dois clubes.
E muitíssimos jogadores.
Torcidas.
Os jornais acompanhavam a tabela.
Os comentaristas analisavam cada rodada.
Economistas não trocavam de equipe.
Alguns mudavam de teoria para agradar à torcida, mas permaneciam no mesmo time da Faria Lima.
Outros colecionavam fotografias ao lado do presidente.
Uns jogavam pela austeridade.
Outros pelo desenvolvimento.
Uns defendiam superávits.
Outros, mais investimentos públicos.
As partidas produziam dissenso.
Mas rendiam excelentes entrevistas.
Os torcedores conheciam os cânticos de memória.
Vaiavam estatísticas inconvenientes.
Aplaudiam projeções favoráveis.
A realidade ocupava posição secundária na tabela.
Importava vencer o clássico da semana.
Os jogadores mais valorizados compreendiam a lógica.
Não precisavam estar certos.
Precisavam agradar à própria torcida.
A dúvida perdeu espaço.
A hesitação passou a ser vista como deficiência técnica.
Quem tentava jogar pelos dois lados do campo despertava suspeitas.
— Mas afinal, você joga por quem?
A pergunta surgia antes dos argumentos.
Às vezes, antes dos números.
Enquanto isso, a economia seguia indiferente ao campeonato.
As crises ignoravam os escudos.
As recessões não respeitavam camisas.
A reduzida taxa de investimento tampouco consultava a tabela.
A taxa de lucro assistia às partidas sem ser invocada.
Mas o torneio prosseguia.
Ao final de cada temporada, os economistas discutiam os vencedores.
O país continuava aguardando alguém disposto a olhar para a economia.
Foto de capa: IA


