A greve sempre foi o escudo e a espada do trabalhador brasileiro. Historicamente, foi por meio da paralisação de braços que categorias inteiras arrancaram direitos de governos intransigentes e patronatos hostis. No funcionalismo público federal, em especial na educação, o direito de greve moldou carreiras e protegeu instituições. No entanto, quando um instrumento de luta tão drástico passa a ser utilizado de forma repetitiva e sem o devido planejamento estratégico, corre-se o risco de esvaziá-lo de sentido. Pior do que isso, abre-se uma brecha perigosa para que o próprio Estado redesenhe as suas estruturas de trabalho, tornando a ausência do servidor efetivo um detalhe quase imperceptível na rotina social.
Para compreender a magnitude desse fenômeno, basta olhar para o retrovisor das últimas décadas. O histórico de lutas das entidades de representação dos Técnicos Administrativos em Educação Federal, revela que as greves foram peças-chave na construção da Rede Federal de Educação. Contudo, ao somarmos os dias de paralisação ao longo da história, os números impressionam e acendem um alerta urgente sobre a frequência do uso desse recurso. Atualmente, em 2026, a categoria já acumula impressionantes 105 dias de paralisação, adicionando mais um capítulo longo a uma conta que não para de crescer.
Ao analisarmos a linha do tempo das paralisações com base no histórico sindical, percebe-se que nenhum governo passou imune, mas a densidade dos dias parados varia drasticamente. Se considerarmos o ano civil padrão de 365 dias para mensurar o impacto proporcional dessas greves, o cenário impressiona. No governo de José Sarney, entre 1985 e 1990, foram registrados 66 dias de greve concentrados em 1989, o equivalente a 18% de um ano completo. Sob Fernando Collor, de 1990 a 1992, foram 107 dias concentrados em 1991, atingindo 29,3% de um ano civil. Itamar Franco enfrentou 81 dias entre 1992 e 1994, representando 22,1% de um ano paralisado.
A curva sobe de forma expressiva nos mandatos longos. Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, enfrentou um acumulado de 379 dias de greve, o que significa que a educação federal passou o equivalente a 103,8% de um ano inteiro parada ao longo de seus dois mandatos. Nos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010, o número recuou para 198 dias, ou 54,2% de um ano. Já a gestão de Dilma Rousseff, entre 2011 e 2016, registrou o recorde histórico com 383 dias de paralisação, ultrapassando a barreira de um ano civil inteiro fora das atividades, com 104,9% de tempo equivalente. Nos anos seguintes, o ritmo mudou: Michel Temer registrou 40 dias de greve, cerca de 10,9% de um ano, enquanto Jair Bolsonaro enfrentou 60 dias de paralisações, desconsiderando as greves sanitárias da pandemia, o que equivale a 16,4% de um ano. No terceiro mandato de Lula, o acumulado atual chega a 191 dias (somando os 86 dias de greve ocorridos em 2024 aos 105 dias da paralisação atual de 2026), alcançando a marca de 52,3% de um ano inteiro sob o mesmo governo.
O período compreendido entre o início do governo Sarney em 1985 e o ano atual de 2026 soma exatamente 41 anos (ou 14.975 dias, considerando os anos bissextos). Ao somarmos todos os dias de paralisação registrados ao longo desse período (66 + 107 + 81 + 379 + 198 + 383 + 40 + 60 + 191), chegamos a um total impressionante de 1.505 dias de greve. Isso significa que, em um horizonte de aproximadamente 15 mil dias de história da Rede Federal, os servidores técnicos em educação acumularam mais de 1,5 mil dias de braços cruzados. Em termos percentuais gerais, a categoria passou cerca de 10% de toda a sua história recente em greve. Em outras palavras, a cada 10 dias de existência da carreira nos moldes modernos, 1 dia foi vivido em paralisação.
Diante dessa constante histórica de paralisações, os sucessivos governantes não assistiram ao cenário de braços cruzados. Houve uma movimentação silenciosa, porém cirúrgica, para diminuir o poder de barganha das greves e mitigar os impactos no dia a dia das universidades e institutos federais. O Estado aprendeu a se defender esvaziando as atribuições que antes paravam as engrenagens das instituições. Antigamente, quando os Técnicos Administrativos em Educação cruzavam os braços, os campi congelavam por completo. Hoje, o cenário é radicalmente diferente. Motoristas, seguranças e trabalhadores de suporte geral foram progressivamente substituídos por mão de obra terceirizada, mantendo os serviços básicos em pleno funcionamento mesmo durante os protestos.
O caso dos Restaurantes Universitários é o reflexo mais emblemático dessa mudança estrutural. Onde antes operavam servidores efetivos (cuja greve penalizava diretamente a permanência estudantil e gerava enorme pressão política sobre as Reitorias e o Ministério da Educação e o Governo Federal), hoje imperam empresas terceirizadas. O resultado prático é que o servidor entra em greve, mas o restaurante continua funcionando, o serviço de vigilância segue ativo e os carros oficiais continuam rodando. O impacto direto dessa engenharia da substituição fica evidente no atual movimento de 2026. Infelizmente, hoje, uma greve que já ultrapassa a marca dos 105 dias praticamente não é mais sentida ou percebida pela comunidade acadêmica externa e pela sociedade em geral. A vida nos campi segue um fluxo de normalidade quase inalterado, isolando os grevistas em sua própria bolha de reivindicação.
Se a terceirização já alterou profundamente a correlação de forças, o futuro reserva um desafio ainda mais avassalador para tais servidores. O avanço tecnológico acelerado e as políticas de contenção fiscal apontam para um avanço governamental ainda mais agressivo no sentido de enxugar o quadro de funcionários. A greve pela greve (aquela que carece de timing político, que ignora a opinião pública e que se estende indefinidamente sem conquistas proporcionais ao desgaste) funciona, na verdade, como um laboratório involuntário para os governantes. Ao deixarem seus postos vazios por meses, os servidores sinalizam quais processos e rotinas podem continuar funcionando sem que o sistema de fato colapse.
Dessa forma, o espaço deixado pelo trabalhador em greve não será mais ocupado apenas pelo contratado terceirizado, mas sim por sistemas integrados de informação e pela Inteligência Artificial. Atividades cruciais de atendimento, fluxos documentais, matrículas, emissão de certificados e rotinas de ouvidoria e secretaria estão a um passo da automação completa. Cada dia de ausência não planejada acelera a transição para plataformas digitais que não fazem greve, não geram encargos trabalhistas e funcionam vinte e quatro horas por dia.
A categoria dos técnicos administrativos em educação precisa acordar para o fato de que sua profissão e sua estabilidade estão sendo colocadas em risco no tabuleiro geopolítico do emprego público. A greve é um patrimônio legítimo e histórico da classe trabalhadora, mas ferramentas poderosas exigem manejo estratégico e cirúrgico. Se a forma de utilizar esse instrumento e de conduzir a política sindical não for revista com urgência enquanto ainda há tempo, o funcionalismo público corre o risco de descobrir, tarde demais, que se tornou obsoleto para o próprio Estado que jurou servir.
Foto de capa: Sindiedutec / Arquivo





