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Opinião

Um empurrãozinho, ou com a ‘Little Help from My Friends’

Um empurrãozinho, ou com a ‘Little Help from My Friends’

Artigo por RED
28/10/2022 11:22 • Atualizado em 29/10/2022 09:09
Um empurrãozinho, ou com a ‘Little Help from My Friends’

De LEONARDO MELGAREJO*

Esta semana me ocorreu que em maioria estamos nos deixando tranquilizar pela certeza da vitória de Lula. Ela é certa, OK. Mas com isso, em certo sentido, acabamos minimizando os danos causados por este governo que fede, ao inconsciente coletivo e às nossas possibilidades de recuperação da credibilidade, civilidade e desenvolvimento nacional.

É verdade que, ao mesmo tempo em que os fascistas estão desesperados, muitos dos democratas se mostram pessimistas. Estão receosos de sair às ruas com bandeiras, cautelosos em termos de exposição, agindo como quem quer ver para crer e coisas do gênero. Incluindo estes e todos aqueles que mantivemos o juízo, segue firme o trabalho formiguinha, empenhado em garantir a derrota do governo que nos colocou sob o domínio do medo.

Mas isso não impede que, tolamente, nos deixemos levar por aquele espírito debochado que sempre nos impele a rir das tragédias. E isso não é bom. Nos faz menos atentos às causas de dramas que –por este motivo- tendem a se repetir.

Estou pensando naquela tendência de repetirmos gestos de condescendência para com os bandidos, tão logo nos pareçam superados os anos de trevas onde eles reinaram. E, que fique claro, não estou me referindo aos que se incorporaram recentemente ao movimento pela redemocratização nacional. Muitos deles, como nós, estão abrindo mão de objetivos que lhes eram caros para se somar no enfrentamento ao fascismo. Por isso Lula afirmou, com razão e clareza: seu governo de recuperação nacional não será um governo do PT. Será um governo de combate à fome, à miséria e ao desemprego, voltado à recuperação da credibilidade e da soberania nacional, com espaço para todos que se mostrarem comprometidos com isso.

Mas voltemos ao tema do descuido para com a fonte dos problemas recursivos. Sabemos que não é pedagógica, nem nunca foi correta, a decisão de “deixar pra lá”. Virar a página e tentar esquecer os desgostos, como se isso permitisse apagar os sofrimentos, os sacrifícios e os mortos, não funciona. Sabemos disso desde crianças, a partir das vivências em família. Simples assim: para crescer, é necessário assumir, encarar e aprender com os erros. E quanto antes melhor, até para evitar que eles se repitam. É ou não é?

Bom, se há acordo de que nesta lição de sabedoria popular se esconde uma condição básica e fundamental para a maturidade das pessoas, sociedades e nações, resta claro que, para irmos adiante, precisamos olhar também para trás.

Quero dizer com isso que foi com a tolerância para com a tal de anistia ampla geral e irrestrita que chocamos o golpe de 2016 e seus desdobramentos. Dali vieram tanto os jovens iludidos gritando nas ruas “privatiza, privatiza tudo”, quanto os velhos desavergonhados que homenagearam cachorrinhos, parentes, amigos e canalhas em geral, durante a farsa em que Dilma foi deposta, sem crime.

Veio dali a lava-jato. As instituições degradadas sob a vista grossa de agentes públicos. Os conluios entre magistrados, procuradores, jornalistas, oportunistas, cafajestes e aquele juiz sem vergonha disposto a tudo para compensar sua gananciosa incompetência. Não estava sozinho, foi apoiado até mesmo por desembargadores que hoje se ocultam, silenciosos diante da destruição da economia, das redes de solidariedade e da credibilidade dos órgãos públicos, da fome e das mortes que se seguiram àquilo.

A prisão do Lula, a posse do inominável, o naipe de seus ministros, a baixaria cotidiana de suas manifestações, o descaso à ciência, a corrupção generalizada e a consolidação das mentiras como estratégia de governo nada mais são do que a continuidade de passos encadeados, com uma origem comum: nossa ingenuidade e tolerância.

E assim, chegamos ao hoje. Está por terminar um período onde naturalizamos, quase que nos acostumamos com a desmoralização nacional, em todas suas dimensões.

Charge do Brasil de Fato.

Portanto, é o momento de pensarmos com cuidado sobre o que nos trouxe até aqui e tratar de fazer o possível por um futuro melhor. Não basta mudar o governo. As rupturas no cerne das famílias, a fome, o armamento de milícias que articulam criminosos distribuídos desde condomínios de luxo até áreas de garimpo e territórios controlados por eles, só serão superados com a reafirmação de princípios comuns, em amplo esforço de depuração nacional. A eleição de Lula, que ocorrerá neste dia 30, é apenas o primeiro degrau de longa escada que para levar ao Brasil feliz de novo, e deverá ser percorrida desde a base. Com um empurrãozinho de nada para ampliar o número de votos contra o fascismo, e com uma pequena ajuda de nossos amigos, em breve estaremos diante de novo período, com novas responsabilidades.

Entre elas, deve ser incluída a recuperação da justiça, com a visibilidade necessária para que se apague entre nós aquela sensação ruim de que neste país o crime compensa.

Isto significa que depois da festa deste domingo todos estamos convocados a ficar atentos e dispostos a vir às ruas para conter retrocessos e evitar a destruição de provas e a dilapidação do que ainda resta dos órgãos públicos.

Precisaremos disso também para reafirmar a confiança no futuro e ampliar mobilização nacional que permita redução de barreiras à retomada da normalidade democrática e à ‘consertação’ de prioridades nacionais que, sem dúvida, deverão incluir a punição de responsáveis pelas tragédias a que fomos submetidos ao longo destes seis anos.

Até lá, tudo é uma questão de manter a espinha ereta, a mente quieta e o coração tranquilo – Música Coração Tranquilo, de Walter Franco. 

Melhor ainda (e no caso, indispensável) com uma pequena ajuda de nossos amigos – Música With A Little Help From My Friends, dos Beatles. 


*Engenheiro Agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Engenharia de Produção. Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio  e presidente da AGAPAN. Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

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